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João Leandro: “Foi insensato o aumento de coberturas nos Acidentes de Trabalho imposto por lei”

23/05/11, 23:27
Ana Santos Gomes / OJE

As novas obrigatoriedades para seguradoras que cobrem Acidentes de Trabalho não são compatíveis com a actual crise financeira e o aumento do desemprego, lamenta João Leandro, CEO da AXA Portugal, para quem não restará outra saída às seguradoras que não seja um maior rigor na selecção do risco e um aumento dos prémios.
 

Os resultados de 2010 foram de encontro às vossas expectativas?

O ano 2010 foi difícil para a actividade económica em geral, para a actividade seguradora e também para a AXA. A economia portuguesa manteve o seu fraco crescimento e o sector segurador não ficou alheio a este enquadramento. Perante este cenário, a AXA resistiu bem e manteve um desempenho positivo em 2010. Nos Ramos Não Vida sustentámos a posição de segundo player no mercado com uma quota de 8,4% e no Ramo Vida somos a primeira seguradora no ranking, logo após os grupos seguradores com canal bancário, e com uma quota de 2%. Atingimos ainda um valor global de 2% de crescimento no nosso volume de negócio total. O resultado operacional e líquido ficou, de facto, abaixo das nossas expectativas e da nossa tradicional boa performance.

O aspecto mais importante é termos verificado um aumento do número de clientes. Esse facto revela o sucesso da nossa estratégia: foco no cliente e nas suas necessidades, na diferenciação nos segmentos estratégicos, na qualidade de serviço, na especialização das redes de distribuição, na inovação. No contexto actual, demos um foco particular na optimização de custos, sobretudo na direcção de uma maior industrialização e automatização de processos.

 

Quais os ramos onde a rentabilidade foi mais sacrificada em 2010?

Inequivocamente os ramos Incêndio e Acidentes de Trabalho. No primeiro caso decorrente das grandes inundações da Madeira e dos tornados no Oeste. No caso de Acidentes de Trabalho, a rentabilidade negativa é mais estrutural e infelizmente agravou-se devido ao aumento insensato de coberturas impostos pela lei e pelas dificuldades das empresas. No ramo automóvel, embora se tenha feito um esforço no sentido do equilíbrio técnico, os resultados, sendo mais positivos, foram ainda insuficientes.

 

Qual o peso dos dois ramos obrigatórios - Automóvel e Acidentes de Trabalho - na vossa carteira Não Vida?

O ramo Automóvel representava em Dezembro de 2010 aproximadamente 51% da carteira Não Vida da AXA Portugal, ao passo que o ramo Acidentes de Trabalho representava 21% do total da carteira em Dezembro 2010.

 

A sustentabilidade do ramo Acidentes de Trabalho tem gerado alguma preocupação no sector, numa altura em que a massa segurável nas empresas tende a diminuir e em que as responsabilidades para as seguradoras aumentaram (por imposição da nova legislação sobre reparação de acidentes de trabalho). Como prevê a evolução deste ramo?

Face ao enquadramento macroeconómico, à crise financeira e ao aumento do desemprego foi absolutamente extemporâneo o aumento de coberturas. Esse facto agravou a situação de um ramo tradicionalmente deficitário. Neste contexto, não há alternativa à imposição de políticas de rigor na contratação, ao controlo de fornecedores e prestadores de serviços e ao aumento de prémios que se adeqúe ao risco.

 

Como tem evoluído o ramo Doença na AXA Portugal?

Desde o início dos anos 90 que o número de pessoas com seguro de saúde tem vindo a crescer substancialmente, abrangendo nos dias de hoje cerca de 20% da população portuguesa. A performance deste produto está directamente relacionada com o reconhecimento do consumidor português na capacidade que os seguradores têm em dar resposta às suas necessidades e em apoiar / complementar o Serviço Nacional de Saúde. Já quando falarmos das motivações das pessoas para a compra de um seguro de saúde, encontramos factores como a necessidade de fazer face a despesas inesperadas e despesas recorrentes, estando no topo da preferência dos portugueses coberturas como o ambulatório e a estomatologia. Temos assistido também a um despertar da preocupação do consumidor português em aceder a serviços médicos especializados  numa situação de doença grave, facto a que as companhias têm vindo a dar resposta, introduzindo esta cobertura na maioria dos seus produtos.

A AXA registou neste ramo, no final de 2010, um crescimento superior ao mercado (9,1% vs 6,8% mercado). Para dar resposta às necessidades dos seus clientes, a AXA disponibilizou dois novos produtos para o segmento empresas (Vitalplan Corporate e AXA Médis) e um para o segmento individual (Vitalplan Individual).

Que evolução prevê para este ramo em Portugal? A venda de seguros de saúde tende a sofrer o impacto da crise?

O enquadramento macroeconómico actual e as recentes medidas introduzidas pelo Orçamento de Estado para 2011 poderão vir a condicionar a contratação de seguros não obrigatórios ou a redução dos mesmos para planos mais económicos. Apesar de a Saúde ser prioritária na preocupação dos portugueses, estima-se que nos próximos anos o crescimento do ramo seja menos expressivo, levando a que os consumidores optem por planos mais económicos e, em particular, os que fazem face a coberturas de hospitalização.

 

A AXA Portugal apostou muito na especialização dos seus mediadores no tema da reforma e tem concentrado esforços neste mercado. A quebra muito significativa na venda de PPR registada no início deste ano foi um forte revés para o vosso negócio?

Vários factores têm vindo a condicionar a venda de PPR pelos seguradores: por um lado, o contexto económico, o aumento do desemprego ou a reduzida capacidade das famílias para a poupança; por outro, as necessidades de financiamento dos bancos ou as anunciadas alterações legislativas no sentido do desincentivo fiscal. Por isso, é um facto que o crescimento ficou muito além das nossas expectativas. Continuamos, contudo, a pensar que disponibilizamos aos nossos clientes produtos que respondem às suas necessidades, continuando a ser uma excelente opção de investimento / poupança e que os portugueses começam a consciencializar-se de que vão ter que preparar a sua reforma.

 

Não estar dependente de um banco para a venda de PPR não foi um ponto a vosso favor?

Creio que (ainda) não. Acreditamos que no futuro as motivações fiscais serão menores e a necessidade de poupar para a reforma será gradualmente crescente, como vem demonstrando o Barómetro Reforma que o grupo AXA anualmente disponibiliza. E aí os clientes procurarão um aconselhamento mais especializado e mais completo. Nessa altura, o investimento que fizemos na preparação de especialistas em reforma vai certamente revelar-se um factor diferenciador.

 

Os PPR conseguirão voltar a ser um produto atractivo?

O PPR era visto como um produto com benefícios fiscais atractivos, mas o Orçamento de Estado para 2011 veio impor novos limites aos benefícios fiscais. No entanto, o PPR continuará a ser um produto financeiro de baixo risco, acessível a todo o tipo de investidor (permite investimentos baixos) e garantirá, no mínimo, o capital investido. Contudo, o futuro dos PPR estará, com toda a certeza, e cada vez mais, associado à necessidade atrás referida de, cada um de nós poupar mais, e mais cedo, para a reforma.


Foram feitas no passado algumas experiências de bancassurance envolvendo a AXA, mas ao que se sabe o projecto não passou das experiências. O que não correu bem?

A AXA tem mantido alguns acordos com bancos e sociedades financeiras na venda de produtos Não Vida e os resultados são positivos. O seu sucesso depende de se construírem produtos simples e com processos de comercialização eficazes. Por isso tem sido uma experiência positiva.

 

Como tem evoluído a performance do canal directo (por telefone e internet)?
O perfil dos clientes mudou. Hoje, os clientes têm várias plataformas de comunicação de acesso às seguradoras e privilegiam a disponibilidade (consulta e acesso permanente), preferindo, muitas vezes contactar, em alternativa a ser contactados. Por isso, a AXA posiciona-se como empresa multicanal / multiacesso, possibilitando, assim, um serviço adaptado ao perfil de cada cliente. Por outro lado, na AXA temos sido pioneiros na forma como comunicamos com os nossos clientes, nomeadamente através do nosso portal de clientes AXAnet, que permite um conjunto de funcionalidades talvez não muito comuns entre as chamadas seguradoras tradicionais e do lançamento recente de uma aplicação para iPhone e Android, para participação de sinistros. Sabemos que a inovação é um elemento chave para o sucesso e estamos atentos às mudanças e novas realidades.

No que diz respeito à rede de mediação, que desafios acrescidos enfrenta hoje essa rede, tendo em conta o actual contexto económico?

São vários os desafios que se colocam à rede de mediação hoje e num mercado cada vez mais competitivo. Em todo o caso resumiria a uma palavra-chave: profissionalismo. Os consumidores são cada vez mais exigentes e mais bem informados, pelo que é fundamental qualquer mediador, agente, corretor ou consultor AXA estar à altura e preparado para fazer face às suas crescentes solicitações, ou ser proactivo na abordagem. Na AXA, encaramos os mediadores como nossos parceiros, pelo que vamos continuar a prestar todo o apoio necessário, seja através de ferramentas de suporte à venda, seja de soluções mais competitivas e diferenciadoras, levando a que cada mediador seja cada vez mais profissional.

 

O que espera de 2011?

Em 2011 vamos continuar a percorrer o caminho traçado e no qual demos já grandes passos em 2010: foco na qualidade do nosso serviço para garantir a máxima satisfação dos nossos clientes, na inovação, na diferenciação, na rentabilidade, na produtividade, na eficácia da nossa força de vendas e obviamente na optimização de custos. Os crescentes índices positivos de satisfação face ao nosso serviço e o forte envolvimento das nossas equipas fazem-nos ter confiança no futuro, na certeza de que estamos a prosseguir o rumo certo, para alcançar com sucesso a nossa ambição: ser a empresa preferida dos nossos clientes.

 

 

Privatização da Caixa Seguros pode ser uma oportunidade

A eventual privatização da Caixa Seguros é encarada pela AXA Portugal como um tema em aberto, que carece de tempo para se perceber qual será o modelo proposto e que certamente merecerá uma análise cuidada por parte do grupo francês. "A privatização da área de seguros da Caixa Geral de Depósitos já se discute há algum tempo", reconhece João Leandro, lembrando que "no passado tive já oportunidade de referir que  o grupo AXA continua a olhar para Portugal como um mercado em dificuldades, mas rentável. A nossa estratégia passa, claramente, em Portugal, tal como em Espanha ou em Itália, por assegurar o máximo de rentabilidade". Sobre este dossier em concreto, o CEO da AXA Portugal confirma estar a acompanhar o assunto, enquanto aguarda mais notícias. "Estamos atentos às oportunidades, sabendo que, na realidade, neste momento, Portugal não é o país mais atractivo do mundo, que o contexto é difícil... mas às vezes é nos contextos difíceis que surgem as oportunidades. Vamos aguardar pelo modelo de privatização que for aprovado, para nos pronunciarmos em definitivo".

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