Nuno Francisco: “Sinistralidade no seguro de crédito vai aumentar” ![]() 19/07/11, 01:46 A degradação da situação económico-financeira de grande parte das pequenas e médias empresas torna inevitável um cenário de aumento da sinistralidade já este ano, antecipa Nuno Francisco, director-geral da CESCE Portugal. Em consequência, as seguradoras tendem a praticar preços diferenciados e a rever critérios de análise de risco. Numa altura em que o incremento das exportações se tornou um desígnio nacional, que papel pode estar reservado ao seguro de crédito como ferramenta de apoio às empresas exportadoras? Sem dúvida que o seguro de crédito pode assumir um papel importante para as empresas exportadoras. Aliás, esse é um dos fundamentos que levaram à criação e desenvolvimento deste produto em todo o mundo - contribuir para que as transacções comerciais entre os diferentes países se efectuassem com mais segurança. Desde logo porque, através do seguro de crédito, as empresas têm as suas vendas seguras contra o risco de não pagamento por parte dos seus clientes, mas também porque torna possível o acesso a um conjunto de informações especializadas e a uma análise de crédito sobre os potenciais clientes, que funciona como um apoio às empresas para procurar novos mercados de forma mais tranquila.
Mas, para além de analisar os novos clientes, tem igualmente um papel fundamental no acompanhamento da carteira de clientes já existentes, através de uma monitorização dos limites de crédito e dos prazos de pagamento, fornecendo informações preciosas sobre a evolução dos clientes e, com isso, as empresas poderem tomar as suas decisões sobre onde e a quem vender. Penso que os empresários nacionais já perceberam que, estando o mercado interno em contracção, as empresas só conseguem crescer exportando, mas, por vezes, o desconhecimento dos mercados externos e alguma insegurança sobre o risco de pagamento leva a que muitas empresas optem por não iniciar uma actividade exportadora. E é aí que, claramente, o seguro de crédito se deve posicionar, como um instrumento facilitador da actividade exportadora, que sem este tipo de apoios pode passar a ser uma "aventura" exportadora com custos elevados. Desta forma, as empresas transferem parte do risco para as seguradoras de crédito.
Que impacto tem tido o actual contexto económico e financeiro do país nos termos de aceitação de contratos por parte das seguradoras? Esta conjuntura económica que estamos a atravessar não é positiva para nenhum agente económico, e as seguradoras de crédito naturalmente que também irão sentir os seus efeitos negativos. Parece-me natural que as seguradoras sejam mais cautelosas na hora de assumir alguns riscos novos, porque esse mesmo risco inerente às transacções comerciais, ou a chamada percentagem de incumprimento por parte das PME, é hoje mais elevada, mas, de uma forma geral, as seguradoras do mercado estão disponíveis para continuar a apoiar as empresas. E um bom exemplo disso é o preço que se está a praticar nos seguros de crédito, que não tem registado um acréscimo, antes pelo contrário, verifica-se uma ligeira tendência de descida, o que contrasta com a política da generalidade dos bancos, que estão a praticar aumentos severos das condições de "pricing" nas operações de crédito.
Como deverá evoluir a sinistralidade nos seguros de crédito em 2011? É previsível que uma das consequências mais visíveis do actual contexto na actividade seguradora seja, de facto, um aumento da sinistralidade em 2011, provavelmente acima da verificada em 2010 (cerca de 50%). Este é um assunto sempre sensível para as seguradoras, mas é uma inevitabilidade face à degradação da situação económico-financeira de grande parte das nossas PME, nomeadamente, aquelas que apenas comercializam produtos de pouco valor acrescentado e que vendem exclusivamente no mercado interno, possuindo estruturas de custos muito rígidas. Provavelmente, nos próximos anos, as seguradoras terão de se adaptar e viver com taxas de sinistralidade mais elevadas que as actuais, adoptando uma visão diferente de todo o modelo de negócio, que deverá ser baseado em critérios mais actuais de análise do risco e na diferenciação de preços.
E como deverá evoluir a procura de seguros de crédito em Portugal nos próximos anos? A procura por parte das empresas terá tendência para crescer. A maior parte está limitada no crescimento das suas vendas e em escolher novos clientes de bom risco, pelo que vão ter de recorrer ao seguro de crédito como ajuda. E existe espaço em termos de mercado para este produto crescer. É preciso não esquecer que estamos a falar de um mercado relativamente pequeno, que representou, em 2010, cerca de 62 milhões de euros em prémios emitidos e que, entre 2009 e 2010, perdeu uma fatia importante de clientes, que optou pelo denominado auto-seguro. E, neste aspecto, as seguradoras têm uma quota-parte de responsabilidade, pois, durante anos, assumiram uma postura em que o segurado parece ser o grande responsável pela sinistralidade existente, pois, nessas situações, é sempre o segurado que sofre as reduções de limites de crédito e o aumento dos preços das apólices. E, com isso, existe um sentimento em muitas empresas de que não vale a pena recorrer ao seguro de crédito, por isso, disse anteriormente que as seguradoras devem adaptar o seu modelo de negócio, trazer alguma inovação ao seguro de crédito.
O seguro de crédito poderia ser mais valorizado pelos empresários portugueses? Ainda encontra algum desconhecimento sobre este tipo de seguro entre a comunidade empresarial? De facto, deveria existir uma maior valorização por parte dos empresários. Diria que, de uma forma geral, a maior parte dos empresários tem algum conhecimento do seguro de crédito, pelo menos de uma forma genérica, mas é visível que o seguro de crédito, enquanto produto, não tem a mesma notoriedade que outros ramos de seguros. Acho que, neste aspecto, as seguradoras, eventualmente em conjunto com a APS, deveriam contribuir para uma maior divulgação junto dos empresários nacionais, através das associações empresariais e sectoriais. Era importante, nesta altura, tentar passar a mensagem do apoio que o recurso aos seguros de crédito podem constituir para as empresas. Com muita frequência, recolhemos este tipo de sentimento por parte da nossa rede de agentes, que está em contacto permanente com os empresários.
Perante eventuais dificuldades de subscrição, os empresários exportadores tendem a procurar soluções alternativas de financiamento, como o factoring? Poderá acontecer pontualmente, mas não vejo o recurso ao factoring como algo que substitua os seguros de crédito. O factoring é procurado pelas empresas como uma fonte alternativa de financiamento e como o mercado do factoring em Portugal se encontra centralizado nos bancos, será tendencialmente um produto muito caro e restrito, como está a acontecer, de uma forma geral, com o acesso ao crédito bancário. E os operadores de factoring não têm o conhecimento técnico para gerir uma apólice de seguro de crédito ao mesmo nível de uma seguradora. Mas, na CESCE, vemos a aproximação dos seguros de crédito ao financiamento bancário como uma situação muito interessante para as PME e, sendo verdade que não tem sido muito explorado pelos operadores do mercado (seguradoras e bancos), é talvez algo inevitável nos próximos tempos e que poderia constituir uma grande ajuda para os nossos empresários.
Que metas traçou a CESCE para a sua operação no mercado português já para este ano? Mesmo tendo como pano de fundo esta actual conjuntura, a CESCE optou por inovar e introduzir um produto novo no mercado, a apólice Master, que representa um novo paradigma no segmento dos seguros de crédito e é preciso referir que estamos a falar de um produto que se mantém igual há imensos anos. Pretendemos que este novo produto (que já foi lançado pela CESCE em Espanha) seja mais do que um seguro de crédito, que seja um instrumento que permita às empresas terem acesso a uma gestão mais activa e integral dos seus riscos comerciais e que é completamente flexível e adaptado à medida das necessidades das empresas e ao seu tipo de actividade. Criámos um modelo de análise de risco automático e, com isso, podemos oferecer, às empresas que trabalham com a CESCE, uma valoração da sua carteira de clientes, indicando qual o perfil de risco de cada cliente e assim praticar uma politica de preços variáveis em função desse mesmo risco. É algo de diferente no mercado, mas que faz todo o sentido actualmente e que, enquanto produto, tem potencial para evoluir no futuro como forma de apoiar as empresas no acesso ao crédito. Por isso, as nossas expectativas em 2011 são grandes: trazer inovação para o mercado dos seguros de crédito, divulgar este novo produto novo e com ele aumentar a nossa base de clientes, contando, para isso, com o apoio da nossa rede de agentes e corretores de seguros.
Quais são as prioridades da CESCE para 2011? Em 2011, as nossas prioridades são consolidar a operação da CESCE em Portugal em termos de resultados e aumentar a nossa base de clientes, com uma clara definição dos preços a praticar face aos riscos que pretendemos assumir, pois pretendemos manter uma taxa de sinistralidade devidamente controlada. Achamos que temos espaço para crescer dentro do mercado e certamente não iremos desperdiçar essa oportunidade. ![]() ![]() |