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Nuno Simão Antunes: “A abertura das empresas ao exterior melhora a sensibilidade para a gestão de risco”

17/04/12, 01:02
Ana Santos Gomes

A nova geração de gestores é mais profissional e predisposta a investir na gestão de risco, garante Nuno Simão Antunes, CEO da Chartis Europe. A seguradora está a ser cada vez mais procurada por empresas que pretendem exportar, internacionalizar-se ou enviar colaboradores para mercados externos
  Esta intensificação da veia exportadora e da vocação internacional das empresas portuguesas veio dar razão à vossa aposta em produtos para expatriados?
Sim. As empresas exportadoras e internacionalizadas sempre foram o nosso "battle space" e, de facto, aquilo que hoje parece ser um desígnio nacional, para nós sempre foi o espaço em que nós nos movemos. Por isso tem sido uma aposta ganha e apesar desta conjuntura adversa nós continuamos a crescer num mercado que está em contração. Porque o mercado segurador Não vida está, sem dúvida, em contração, mas a intensificação das exportações implica mais viagens, coberturas de saúde, coberturas de responsabilidade civil, seja responsabilidade civil profissional, de produto ou dos administradores. Esses são realmente os nichos de mercado em que nós nos movemos, em que somos especialistas, em que temos um quota de mercado significativa, até ao nível mundial, já nem falo só em Portugal.
 
E como tem estado a evoluir a comerciialização deste produto?
Muito bem. Foi uma aposta ganha. É um produto que ainda tem muita margem de crescimento porque vê-se perfeitamente que muitas das empresas portuguesas estão condenadas a sair do país, pois sabemos que há um abrandamento muito grande do mercado interno. E essas empresas terão naturalmente de dar proteção às pessoas que enviam para fora. Por isso, a nossa prespetiva é a de continuar a apostar neste produto.
 
Chegando também às PME?
Sim, até porque nós não temos aqui dimensões mínimas. Nós construímos o produto em função das necessidades dos clientes. Temos grande flexibilidade.
 
É um produto com sinistralidade elevada?
Estes são produtos que naturalmente têm um uso intensivo porque de certa forma funcionam como uma prestação de serviços, mas dentro de parâmetros normais, que correspondem à nossa expectativa.
 
Para que mercados está a registar maior procura?
Para África, com toda a certeza. No ano passado, tivemos algumas situações de sinistralidade em alguns países com convulsões sociais, mas estamos sobretudo na África portuguesa.
 
Ainda assim, acredita que há muitas empresas a colocar expatriados no exterior, a internacionalizar-se ou a exportar com escassez de proteção?
Penso que sim. Nós sabemos que os seguros em Portugal ainda têm um longo caminho para percorrer, comparativamente com outros países. A nossa cultura de proteção não é tão evoluída como noutros países e naturalmente nós sentimos que poderíamos fazer mais, que poderíamos dar mais coberturas e chegar a mais empresas. Mas é um processo e os momentos que vivemos nesta altura não são os mais fáceis em termos de vendas de novas coberturas.
 
Sentem-se por vezes a desbravar caminho e a lutar contra algumas resistências?
não tanto. Há mais abertura hoje, mais conhecimento sobre os produtos e sobre as nossas valências, quer por parte dos corretores, como dos clientes de média e grande dimensão.
 
Por terem chegado cedo, posicionaram-se de forma mais favorável na área da Responsabilidade Civil Ambiental. Nesta altura com a crise, o mercado arrefeceu?
Estamos a crescer menos do que já crescemos no passado, mas é um mercado que continua com solicitações, até porque o facto de a garantia financeira ser obrigatória em determinadas circunstâncias acaba por criar uma procura natural. Naturalmente que há algumas empresas que poderiam estar a contratar capitais mais elevados e não o estão a fazer por uma questão de custo. Mas já existe a consciência do risco ambiental e praticamente todos os dias vemos nos noticiários que em algum sítio do mundo aconteceu alguma coisa que tem a ver com esse risco ambiental.
 
Se não fosse a obrigatoriedade mantinham-se as subscrições da apólice?
Sim, é possível. Mas é natural que se não fosse a obrigatoriedade existissem menos empresas neste momento a subscrever. Porque algumas têm de fazer opções difíceis neste momento e se calhar a opção passaria por não contratar. Em Espanha sentimos isso, pois têm havido avanços e retrocessos no processo de implementação da diretiva comunitária e agora assiste-se a uma retração na procura.
 
Em Portugal, a regulamentação da diretiva continua a fazer falta?
Acho que sim. O processo está incompleto, a parte da regulamentação falhou. Eu, enquanto cidadão, sinto-me muito mais confortável sabendo que uma empresa qualquer que trabalha num setor que é potencialmente perigoso tem de ter uma garantia financeira para fazer face à reposição de uma determinada situação que ela alterou por via da sua atividade. Do ponto de vista social esta é uma questão extremamente importante e que faz todo o sentido. É uma proteção social. É disso que estamos a falar.
 
O seguro acabou por ser a solução preferida pela maior parte das empresas?
É difícil avaliar do ponto de vista quantitativo. Algumas empresas optaram por outros mecanismos, mas é evidente que o seguro tem vantagens porque permite uma transferência de risco, a responsabilidade não fica do lado do operador. Mas pensamos que o seguro tem sido a opção mais escolhida. E nós continuamos inclusivamente com um volume muito grande de pedidos de cotação de muitas empresas que estão a considerar fazê-lo. Também recebemos pedidos de cotação de empresas que não têm a obrigatoriedade, mas querem fazê-lo.
 
Não operando diretamente no ramo Doença, com seguros de saúde, como foram recebidos os produtos para doenças graves?
Fomos bem recebidos. Foi importante termos dado esse passo em termos de inovação. Cada vez mais as pessoas preocupam-se com as questões da saúde, até por todas as questões à volta do Estado Social, e qualquer pessoa minimamente informada percebe que o modelo está a mudar e eventualmente daqui a algum tempo poderemos não ter o mesmo tipo de valências que temos hoje no Serviço Nacional de Saúde. Por isso é importante ter uma outra rede de proteção que permita fazer face a uma situação inesperada, como uma doença grave, em que é disponibilizado um capital em forma de indemnização e depois a pessoa poderá procurar o caminho que quiser, até fora do país. Também aí penso que a tendência será para continuarmos a crescer.
 
Vocês têm outras linhas de produtos mais ligadas ao consumo, em parceria com cadeias de retalho. Aqui sente-se mais o efeito da crise?
Curiosamente, essa é neste momento a área em que estamos a crescer mais, até porque estamos a falar de uma área relativamente nova em Portugal. Há uns anos, quando se comprava um computador ou um telemóvel ninguém oferecia um seguro de roubo, de acidentes ou uma extensão de garantia. Neste momento isso acontece. E na primeira vez o cliente diz que não compra o seguro, mas depois compra um iPad e alguém se senta em cima dele e parte-o. Aí, as pessoas reconhecem que se tivessem o seguro não ficavam com o aparelho partido. Há, portanto, um período de habituação que ainda está a decorrer para se criar uma rotina de compra de seguros associados a equipamentos eletrónicos. É uma área que está em franca expansão apesar de efetivamente os números do consumo serem manifestamente de retração.
O consumo dos equipamentos está a diminuir, mas a penetração do seguro está a aumentar a um ritmo muito interessante. Com um cenário sem crise, provavelmente a penetração do seguro seria muito maior.
 
Tem sido fácil encontrar parceiros?
Sim, tem sido fácil e muito estimulante. Nós temos sido desafiados para encontrar novos produtos. E ainda este ano vamos ter mais novidades.
 
Com que expetativa encara este ano?
Com uma expetativa positiva. A nossa perspetiva é de crescimento tanto na área dos seguros de empresas, como nesta área dos seguros individuais. Como referi, o nosso "battle space" são as empresas em internacionalização, empresas exportadoras. Os nossos produtos são reconhecidos internacionalmente e sentimos que quanto mais a nossa economia se abrir para o exterior, mais possibilidades vai haver para a Chartis. Porque um cliente com uma presença em vários países na Europa sabe que no dia em que tiver um sinistro precise de o regularizar, nós temos uma operação lá, com os nossos peritos, o nosso diretor de sinistro local, e isso representa de alguma forma uma vantagem competitiva grande relativamente a outros operadores que têm quotas de mercado significativas, mas que não têm depois esta capacidade multinacional de estar presentes depois em diversos mercados.
 
Depois de uma boa penetração junto das grandes empresas, foi uma intenção assumida pela Chartis chegar mais perto das pequenas e médias empresas (PME). Continuam a perseguir esse objetivo?
Sim, sobretudo junto das médias empresas, mas também entrando nas pequenas empresas em alguns nichos específicos. A nossa presença nos grandes clientes é muito forte. Somos há muitos anos, em Portugal, uma referência no mercado em determinadas linhas de produto, mas se quisermos continuar a crescer, e queremos, temos de chegar às médias empresas e às pequenas empresas. Sem dúvida vamos continuar nessa senda.
 
E nas abordagem encontram diferentes graus de sensibilidade por parte do vosso interlocutor em relação à gestão de riscos?
Sim, embora felizmente a gestão seja cada vez mais profissional. A nova geração de gestores tem outro tipo de sensibilidade para a gestão de riscos que antes não havia. E o facto de as empresas se estarem a abrir para o exterior, expostas ao mercado inglês, obriga-as a olhar para tudo isto de outra forma. Veja-se o caso da responsabilidade civil. Por mais que não queiram, muitas empresas vão ter de assinar um contrato e nesse contrato virá uma exigência, uma responsabilidade civil de produto, uma responsabilidade civil profissional, etc. Tudo isso nos está a ajudar e está a ajudar a que o país tenha uma outra consciência em termos de gestão de risco. Ainda estamos longe do que seria desejável. Mas não tenho dúvida nenhuma que esta abertura ao exterior, quase forçada, vai aumentar a consciência da gestão do risco e as transferências de riscos seguráveis.
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