Teresa Mira Godinho: “O seguro vitalício é mais adequado em mercados de cooptação entre sistemas públicos e privados” ![]() 21/06/11, 00:00 Considera que Portugal ainda tem condições para explorar mais o mercado de seguros de saúde, mas não encontra aqui o mercado ideal para os seguros de saúde vitalícios. Teresa Mira Godinho, CEO da Allianz Portugal desde 1 de Janeiro, explica como a companhia tem conseguido manter bons níveis de rentabilidade e garante não conhecer nenhuma seguradora à venda Com um volume de negócios de 475,7 milhões de euros e um crescimento de 6,9%, o ano 2010 superou as vossas expectativas? O ano de 2010 foi um ano muito positivo para a Allianz, conseguimos fortalecer a nossa posição, quer no mercado de seguros Não Vida, quer no de Vida, o que foi alcançado com o contributo positivo de todos os nossos canais de distribuição - agentes, corretores e banco - de forma equilibrada de Norte a Sul do país e incluindo praticamente todas as nossas linhas de negócio. Este equilíbrio leva-nos a acreditar que a aposta que fizemos na Allianz de desenvolver, ao longo dos últimos anos, um novo modelo de negócio, assente na agilização e optimização dos nossos processos, permitindo aos nossos canais de distribuição uma maior autonomia de decisão, de execução e de informação, foi uma aposta correcta. O mercado Não Vida registou no ano passado um crescimento inferior a 1%, enquanto a Allianz se aproximou dos 3%. Que factores contribuíram para a performance positiva no Ramo Não Vida? Como já referi, a Allianz alterou o seu modelo de negócio, tendo feito o arranque do mesmo a Outubro de 2009, sendo o ano de 2010 o ano da sua consolidação. Este modelo trouxe enormes vantagens de eficiência operativa, quer à Allianz, quer aos seus parceiros comerciais e, consequentemente, aos nossos clientes, o que já de per si o justificaria, uma vez que em mercados maduros só sobrevive a prazo quem consegue ser líder de eficiência. Para além disso, este é um modelo que em si mesmo focaliza a companhia e todos os que com ela interagem num objectivo claro: tudo o que fazemos só é relevante se contribuir para o fortalecimento da companhia, nas suas diferentes vertentes e junto de todos os seus ¨stakeholders¨, o que pode parecer quase um lugar comum, mas quando tornado real implica a existência de um diálogo e cooperação permanentes entre todos os departamentos internos e destes com os nossos parceiros de negócio, de forma a que a solução a implementar responda às necessidades dos nossos clientes, às exigências do mercado e às pretensões dos nossos accionistas. Proximidade, motivação, união, focalização.... Seja qual for o nome que lhe atribuirmos, acredito que esse é hoje um dos principais factores diferenciadores da Allianz. São as pessoas que fazem a diferença e quando se trabalha em conjunto essa diferença é palpável, ou seja, reflecte-se nos números. Automóvel e Acidentes de Trabalho têm sido genericamente ramos com rentabilidades sacrificadas nos últimos anos. Tem sido assim também na Allianz? A Allianz tem mantido a sua rentabilidade constante ao longo dos últimos anos e o mesmo é verdade para os ramos de Automóvel e Acidentes de Trabalho, sendo hoje uma das empresas mais rentáveis do mercado. A nossa estratégia assenta na estabilidade e consistência das nossas opções, mantendo níveis equilibrados de competitividade de mercado, mas simultaneamente remunerando adequadamente os nossos accionistas. Neste enquadramento, o que buscamos permanentemente é fazer o mesmo a um custo menor ou, mais precisamente, que possamos dar o nível de serviço que de nós é esperado a um custo menor - o que frequentemente implica mudar a forma de fazer - com o objectivo de que os nossos preços se possam ajustar aos diferentes momentos dos ciclos. Tendo em conta o actual contexto económico, que perspectivas tem para a evolução do ramo de Acidentes de Trabalho? O ramo de Acidentes de Trabalho tende a não crescer nos próximos anos, em termos de massa segurável, e assim irá continuar até que se comece a gerar novos empregos líquidos. Mas considero que apesar de ser dos ramos mais complexos de gerir e que mais impacta e perdura nos resultados das companhias no longo prazo, é dos ramos menos sofisticados em termos de gestão e das metodologias utilizadas. Neste sentido, considero que o momento que atravessamos poderá levar a uma transformação e sofisticação quer dos modelos actuariais utilizados para definição das tarifas, quer dos modelos de avaliação dos riscos, quer ainda da forma e tipo de parcerias desenvolvidas com os prestadores de serviço. Acredito que este é um momento de oportunidade nesta linha de negócio. As estimativas da APS apontam para um incremento de custos superior a 10% neste ramo, tendo em conta o aumento de responsabilidades das seguradoras decorrente da nova lei. É possível fazer face a este provável aumento de custos sem aumentar os prémios neste ramo e logo numa altura crítica para as empresas? A Allianz começou a ajustar os seus preços em função da nova lei em 2010 e faremos, com certeza, os ajustamentos necessários para cobrir os custos adicionais. No entanto, não existe um valor pré-fixado de quanto é que temos que aumentar, tal como o valor que a Allianz pode necessitar não tem de ter qualquer ligação com o valor que uma qualquer outra companhia pode considerar adequado.Uma coisa é o aumento directo dos custos numa situação ¨ceteris paribus¨, que foi o cálculo que a APS fez, outra são as modificações que cada uma das companhias pode promover aos mais diferentes níveis do seu processo produtivo e que podem amortecer o impacto deste aumento. No ramo Automóvel, a Allianz conseguiu registar um crescimento de 2,9% em 2010, acima do mercado. Que factores contribuiram para essa performance? Já expliquei a maioria das razões do nosso crescimento no ramo Automóvel que até têm muito mais que ver com o modelo de negócio global do que com algo específico do ramo Automóvel. Mas sem dúvida que esse crescimento só foi possível por termos conseguido desenvolver soluções que vão de encontro ao que os nossos clientes procuram, a um preço competitivo e de uma forma muito mais simples e fácil de compreender por eles e com o correspondente serviço de elevada qualidade no momento do sinistro. Sendo o ramo Automóvel um dos ramos de maior competitividade tarifária, como avalia a evolução do preço médio deste ramo em Portugal? Ao estarmos num mercado maduro, estagnado e concorrencial, é normal que exista forte pressão sobre os preços e estes tendam a baixar. Se estas reduções forem acompanhadas de reduções de custos, total ou parcialmente, as mesmas não têm qualquer problema ou impacto no médio / longo prazo, uma vez que são acomodadas. Mas como também aprendemos nos livros, nestes momentos poderá haver sempre companhias que tendam a exceder-se nas suas cedências mas que a prazo acabam por sofrer as consequências. Mas são estes movimentos que fazem evoluir e consolidar os mercados concorrenciais . Assim,considero que estes são momentos exigentes e duros, que nos obrigam a fazer opções /ajustamentos permanentes, de forma a optimizar o equilíbrio entre crescimento e rentabilidade, e neste contexto o timing de reacção é de muito maior importância. Mas fazem parte das economias abertas e, pelo menos até descobrirmos um modelo alternativo, este é o melhor que conhecemos. A crise pode ter um impacto significativo na evolução do mercado de seguros de saúde em Portugal? O mercado de seguros de saúde tem crescido consistentemente em Portugal e mesmo com a crise temos continuado a assistir ao seu crescimento. Acredito que existe potencial para o mercado de saúde se manter em terreno positivo ao longo dos próximos anos, agora se haverá algum crescimento adicional provocado por alterações no actual sistema nacional de saúde ou nos diferentes sub-sistemas, penso que é prematuro qualquer conclusão ou até mesmo especulação. No entanto, e como já referi, o actual enquadramento ainda tem potencial de desenvolvimento e é nele que considero que nos temos que concentrar. É intenção da Allianz operar no mercado seguros de saúde vitalícios? Que condições espera ver reunidas para avançar com essa decisão? Os seguros de saúde vitalícios implicam nivelamento de prémios ao longo de toda a vida da pessoa segura, ou em valor absoluto ou em percentagem dos rendimentos, dado que é incomportável em sistema de prémios "idade a idade" a pessoa pagar os prémios correspondentes nos últimos anos de vida. Neste contexto é necessário que a pessoa se mantenha no seguro desde jovem e que caso mude de companhia exista um sistema de transferência das provisões matemáticas constituídas até à data. Dado todo este contexto, o seguro vitalício é muito mais adequado em mercados de cooptação entre sistemas públicos e privados ou onde o seguro privado é um complemento definido do sistema público, tal como o acesso a quarto privado, a escolha de médico assistente ou a cobertura de alguma especialidade especifica não abrangida pelo sistema público. No Ramo Vida, a venda de PPR tem sido seriamente afectada nestes primeiros meses de 2011. A Allianz também sentiu essa quebra nas vendas? A Allianz registou nos primeiros meses do ano um crescimento dos seus produtos Vida Financeiros, onde se inclui o PPR. Iniciámos há já alguns anos uma estratégia de afirmação da marca Allianz neste segmento, nomeadamente através do nosso canal de agentes, tendo um conjunto de produtos com diferentes características e rentabilidades e levando sempre em consideração os diferentes perfis de clientes. Acredito que é desta abordagem multi-facetada, partilhada com a nossa rede de distribuição e ajustada permanentemente às evoluções do mercado - desde o início do ano já por várias vezes ajustamos a nossa oferta - que advém o nosso crescimento, mesmo num ano tão complexo como este. Limitadas as condições de acesso a benefícios fiscais nessa matéria, acredita que as preocupações com a reforma constituirão motivação suficiente para os portugueses subscreverem novos PPR? Hoje as pessoas subscrevem produtos financeiros por necessidade de poupança. Haverá os que o fazem a pensar na reforma, como há os que querem pagar os estudos dos filhos ou trocar de carro dentro de 5 anos.Os benefícios fiscais à cabeça tiveram a sua importância nos momentos de arranque e consolidação destes produtos, mas actualmente não são ¨a motivação¨, aliás a maioria das entregas que tivemos, mesmo nos anos anteriores, foram de valores superiores aos permitidos para dedução fiscal. No entanto, é importante salientar que ainda existem benefícios fiscais sobre os rendimentos dos PPR no momento do seu pagamento, em função do número de anos que permaneceram nas companhias. Crescer por fusão ou aquisição no mercado português está fora de questão? Quais são as perspectivas de crescimento da Allianz em 2011? Conhece alguma companhia à venda? Eu não tenho conhecimento de nenhuma. Acredito que as companhias têm de concentrar-se no que é conhecido em cada momento e neste momento para nós o importante é o crescimento orgânico. Tudo o que possa desviar a nossa atenção do foco não deve requerer um minuto da nossa atenção.Assim,em 2011 pretendemos crescer, o que já de si é um objectivo ambicioso. Estamos concentrados nisso e até ao momento estamos a conseguir cumpri-lo.
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