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Varela Afonso: “Aumento das taxas moderadoras no SNS potencia procura do seguro de saúde”

20/12/11, 01:04
Ana Santos Gomes / OJE

As notícias dos últimos dias, dando conta de agravamentos nos custos do acesso a cuidados de saúde no sistema público, deverão contribuir para o aumento da procura de seguros de saúde, sustenta Varela Afonso. Se as diferenças de custo não forem muito grandes, os portugueses vão preferir o acesso à medicina privada sem listas de espera, antevê o presidente da CA Seguros
Como é que o actual contexto económico tem afectado a performance da companhia?

Costumo dizer que falar de crise é pura perda de tempo. O importante é fazer o diagnóstico em qualquer situação e agir. Neste aspecto, as Caixas Agrícolas, pela sua implantação, continuam a responder às nossas orientações estratégias e temos ainda uma enorme capacidade de crescimento. Estamos actualmente no limiar de uma taxa de penetração de 20%, ou seja, 20% dos clientes das Caixas Agrícolas já tem, pelo menos, uma apólice de seguros Não Vida na CA Seguros. E isto significa que há ainda uma capacidade de progressão enorme. O mercado Não Vida tem estado em ligeira perda, estamos hoje ao nível de 2003/2004 e nessa altura nem se falava propriamente em crise. O mercado tem reflectido a estagnação económica e a falta de investimento. Mas nos últimos anos nós temos crescido em torno dos 3%.
 
E este ano, comparando o acumulado de Janeiro a Novembro com o período homólogo do ano passado, verificamos que estamos com um crescimento de 3,2% e pensamos terminar assim o ano. Pensamos atingir o nosso objectivo orçamentado e até Novembro tudo está em linha com o orçamento. Mas se a economia não se dinamiza há sempre um reflexo dessa realidade, há menos procura de protecção para o risco, quer por parte das empresas, quer por parte das famílias.
 
Onde se nota mais este ano um reflexo diferente?

A mudança mais acentuada é nos Acidentes de Trabalho, em que o ramo está a perder 4% e nós estamos a perder não chega a 1%. Estamos aqui numa situação de estagnação. No seguro automóvel estamos com um crescimento de 2% este ano, mas graças a uma ligeira rectificação de tarifa, não que o parque automóvel tenha crescido.
 
Fizeram uma revisão de tarifa em alta?

Foi uma ligeira rectificação. Não para toda carteira, mas para segmentos mais deficitários.
 
Essa decisão obrigou a sacrificar carteira?

Não, de forma alguma. Os aumentos também não foram significativos. Há um crescimento de carteira e uma estabilidade de prémios. E depois temos crescimento mais acentuados, até porque as pessoas estão cada vez mais atentas à cobertura das suas necessidades. O seguro de saúde, por exemplo, está a crescer 3% no mercado e a crescer 5% na CA Seguros. Nos seguros de acidentes pessoais estamos a crescer 7%. E nos seguros para habitação, o mercado cresce 4% e nós estamos a crescer 10%.
 
Neste momento é mais difícil operar no mercado de Acidentes de Trabalho?

É. De facto, se a economia não está dinâmica, as empresas sentem. No caso dos seguros obrigatórios, as empresas não podem prescindir deles, mas não há crescimento de mercado.
 
Que potencial vê para o seguro de saúde em Portugal?

Eu vejo muito potencial. As notícias dos últimos dias são perfeitamente sintomáticas e a própria comunicação social já tira as normais ilações. Se as comparticipações do sistema público vão diminuir, é lógico que as pessoas procurem alternativas. A própria comunicação social tem feito uma grande difusão nos últimos tempos de que a diferença entre a consulta, franquia, custo ou comparticipação no sistema público ou no sistema privado com seguro de saúde já quase não é notória. Isto mostra efectivamente que a procura vai crescer.
 
Se as taxas moderadoras continuarem a crescer no Sistema Nacional de Saúde, a procura do seguro de saúde aumenta?

É óbvio, porque além da oferta que os serviços privados de saúde fazem, também não têm listas de espera e há mais liberdade de escolha.
 
Essa eventual procura mais intensa do seguro de saúde poderá vir a reflectir-se no aumento das franquias?

O futuro o dirá. Há várias formas de o fazer, pode ser por plafonamento de capitais, pode ser por ajuste nas franquias ou nas comparticipações.        
 
Ter a banca como canal distribuidor num ano como este teve mais reflexos positivos ou negativos?

Eu diria que os reflexos são positivos porque o cliente está sempre próximo da sua instituição bancária. A bancarização em Portugal é elevadíssima, acima dos 90%, o que significa que praticamente todas as pessoas têm pelo menos uma instituição que lhe presta serviços financeiros. As pessoas procuram comodidade, proximidade, dão relevo à forma de atendimento. E a proximidade dos clientes às Caixas Agrícolas mantém-se. Há 700 balcões distribuídos pelo país e em algumas áreas é mesmo a única instituição bancária.
 
Para a seguradora, reforçar ou criar canais alternativos de distribuição está fora de questão?

No curto, médio e talvez longo prazo não faz sentido. Com uma taxa de penetração de 20% nas caixas agrícolas e uma taxa de progressão lógica para 40, 50 ou 60%, para quê procurar outros canais onde a concorrência é tão agressiva?
 
Em 2012 será mais difícil vender seguros não obrigatórios?

Penso que é uma questão de nos adaptarmos às necessidades do mercado. É provável que determinados produtos, determinados ramos possam sentir mais o reflexo da falta de dinâmica da economia, que é natural que se mantenha em 2012, mas há outros que se podem acentuar, como a habitação, saúde e acidentes pessoais. Esses continuarão a fazer a sua marcha de progressão.
 
Que objectivos traçaram para 2012?

A nossa preocupação não é tanto crescer em quantidade, é ter um crescimento sustentável, não fazer picos e ter elevados rácios de solvabilidade. Estamos com o dobro do que é preciso. Estamos em torno dos 200%. Fechámos Novembro com 198%, tínhamos tido 203% em Outubro. São níveis fantásticos.
 
Fala-se muitas vezes da necessidade de rever tarifas neste sector. Consegue antever o que vai acontecer no próximo ano?

Estamos na terceira fase de desenvolvimento do Solvência II e isso vai implicar certamente uma correcção de tarifas em alguns casos porque o cálculo da solvência vai alterar-se profundamente, passa a ser feito em função dos riscos. Provavelmente os seguros obrigatórios são aqueles que estão com rentabilidade nula ou negativa, logo serão aqueles que certamente vão estar debaixo de fogo em alguma correcção.
 
A empresa está preparada para a Solvência II?

Estamos já na terceira fase, já iniciámos o processo no início do ano passado. Estamos a fazê-lo com o apoio de dois consultores externos, por fases, para melhor controlar e planear o desenvolvimento. Estamos a preparar-nos activamente.
 
Com modelos internos?

Essa é uma questão que o tempo dirá. Ainda não sabemos se os modelos internos se justificam. Ainda não tomámos essa decisão. É um caminho que está a ser percorrido, os modelos têm de ser criados, têm de ser testados, temos de ver se têm aplicabilidade e se se justificam para a dimensão da nossa carteira
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O que é que o mercado ganha com a Solvência II?

O mercado ganha maior garantia de solvabilidade. A supervisão tem uma leitura diferente da que tem hoje. O mercado passa a ter muito mais informação, o report é mais pormenorizado, há detalhe de informação.. Tudo isso passa a ser muito mais transparente. O que o mercado ganha em si? Ganha a garantia de saber se a seguradora é solvente ou não, em função dos riscos que assumiu e que cobre, e não só pela dimensão de carteira, que não diz muito.
 
Mais do que a conquista de novos clientes, a prioridade é a retenção?

São ambas, porque temos uma capacidade de progressão enorme, podemos crescer em clientes novos e podemos e devemos dar um serviço para que o cliente tenha mais produtos connosco.
 
Acredita que a directiva Solvência II vai influenciar o grau de concentração deste mercado nos próximos anos?

É provável que ocorram alterações, as exigências são tão grandes para empresas de pequena dimensão, como para média ou grande, o que significa que é provável que exista alguma tendência para possíveis fusões.
 
E vão estar atentos a esse mercado com algum interesse?
 
Com a capacidade de progressão que temos, acho que não é objectivo prioritário. Temos muito para olhar para dentro, temos muito a fazer dentro do grupo e todo o nosso crescimento pode ser endógeno. Uma aquisição só faria sentido se houvesse uma fusão de instituições do sector bancário.
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