O aumento dos preços, sobretudo do combustível, decretado pelo Governo de Moçambique e que levou a confrontos na semana passada em Maputo, obedece a uma promessa com três anos ao Fundo Monetário Internacional (FMI), explica Edward George, economista chefe do departamento de África da Economist Intelligence Unit.
Em conversa com a agência Lusa, Edward George, economista da unidade que acompanha, entre outras economias, a de Moçambique, explica que o aumento dos preços decretados resulta de uma promessa do Governo moçambicano ao FMI de "introduzir um sistema de mudança dos preços de combustível automaticamente" para reflectir os preços nos mercados internacionais.
"O problema é que durante os últimos três anos não houve uma boa oportunidade para o fazer, e quando o tentou há dois anos, de uma maneira pequena para as empresas de transporte de Maputo, causou protestos e mortes, decidindo depois disso anular os aumentos", explica o economista.
George Edward diz que, desta vez, o Governo de Moçambique parece querer manter o aumento, mas que tal será "muito difícil", especialmente para as famílias mais pobres, devido ao que gastam com transportes em função dos seus rendimentos.
"Para os mais pobres é muito difícil, porque a família mais pobre em Moçambique gasta entre 30, 40 e 50% do seu dinheiro no transporte, então um aumento de 10 ou 15% no preço do petróleo é muito complicado, daí os protestos serem tão fortes em Maputo", considera.
O economista da Economist Intelligence Unit explica que a ideia do Governo passa por copiar de alguma forma o programa "Fome Zero" do Brasil, compensando as famílias mais pobres através de subsídios directos desse aumento dos preços, mas também aqui há dificuldades. "É muito difícil porque o Governo não tem dados exactos sobre as famílias e custa muito também ter um programa que funcione e que não tenha corrupção. Isso significa que o Governo fica numa posição muito difícil, mas parece que o Governo decidiu que quer fazer essa mudança, que prometeu há três anos, e desta vez quer ficar com a mudança do preço e vai aceitar as consequências".
O economista perspectiva ainda que o Executivo moçambicano venha a realizar "negociações com os sindicatos para tentar criar algum tipo de pacote de medidas que possa aliviar o impacto dessas medidas sobre os moçambicanos mais pobres", e ainda que os protestos não se fiquem por aqui, apesar da acalmia registada a partir de sexta-feira em Maputo. "Acho que provavelmente vão haver mais protestos sobre este assunto", conclui.
Os aumentos dos preços de bens essenciais em Moçambique, como a água, electricidade e os combustíveis, levaram a confrontos na cidade de Maputo na quarta e quinta-feira, e também no Chimoio, região centro, na sexta. Só na capital registaram-se pelo menos dez mortos e mais de 400 feridos.