Ações caíram 27% em 2011. JM, EDPR e Cimpor foram exceções
Destaque
02/01/12, 08:42 Por Vítor Norinha/OJE
A Bolsa de Valores portuguesa, a Nyse Euronext Lisbon, registou a quarta pior performance em termos de mercados desenvolvidos. A banca foi o setor mais afetado.
O índice PSI 20 caiu 27% em 2011, um dos quatro piores resultados nos mercados desenvolvidos mundiais. Grécia foi o pior caso, a perder mais de 60%. A generalidade das bolsas europeias teve resultados muito negativos, enquanto o mercado norte-americano foi dos mais resilientes, com a subida de 1%, medida em US dólares.
Em Lisboa, houve três honrosas excepções a estes maus resultados. Foi o caso da Jerónimo Martins, que fechou a ganhar 12%, mas esteve com performance positiva superior a 40%, e ainda a EDPR e a Cimpor, a ganharem 9% e 5%, respetivamente.
A banca foi o setor mais volátil. A expectativa relativamente à necessidade de recapitalização do setor, com a entrada do Estado no capital e a perda de capacidade de manobra por parte da gestão do banco, levou os investidores a abandonarem estes títulos. As ações do Millennium bcp foram as mais penalizadas, tendo perdido mais de 74% em termos de capitalização bolsista, passando a valer menos de mil milhões de euros, enquanto a cotação veio dos 54 para os 13,6 cêntimos ao longo de 12 meses. Ainda em termos de capitalização bolsita, o BPI e o Banif perderam mais de 60%, sendo que o banco liderado por Fernando Ulrich foi penalizado pela exposição à dívida grega (o mesmo aconteceu no o BCP). O Banif vai necessitar de recapitalização para atingir o rácio de 9% do core capital nos termos da EBA até Junho, mas o seu presidente, Marques dos Santos, já veio afirmar que não necessitará de ajuda pública. O BES perdeu mais de metade do seu valor mas, mesmo assim, foi o título mais resistente.
A queda da vertente acionista fez com que os fundos portugueses expostos a ações nacionais tivessem perdas médias em 2011 de 33%, de acordo com dados da Apfipp, a associação da indústria. Em termos positivos, regista-se casos de exceção, como foi o fundo Caixagest Rendimento Nacional - FEI, com uma rendibilidade efetiva anual, apurada a 23 de dezembro pela Apfipp, de 14,2%.
As explicações
A inversão do sentimento dos investidores resultou do forte abrandamento económico registado a partir do 2.º trimestre de 2011, salienta o Activo Bank num trabalho produzido no final do ano passado. Indica quatro fatores para esta viragem: o agravamento da crise da dívida soberana, a forte subida dos preços das matérias-primas, a subida das taxas de juro e o impacto do tsunami no Japão.
A Europa perdeu, em termos médios, 16% a nível das cotações das ações, sendo que os setores com melhores desempenhos, e, logo, mais defensivos, foram os de consumo corrente (mais 8,03%), os cuidados de saúde (mais 7,62%) e as telecomunicações (mais 0,5%). O pior desempenho aconteceu com as matérias-primas (menos 18,61%) e a indústria (menos 10,78%). Constata-se, no mesmo trabalho, que as empresas com maior capitalização bolsista foram as que registaram melhor desempenho (menos 5,82%).
Voltando a Portugal e ao mercado nacional, regista-se o pedido de ajuda financeira à Troika, feito a 6 de abril e assinado a 2 de maio, prevendo-se um valor global de 78 mil milhões de euros.
No verão de 2011, a crise da dívida soberana assumiu novas proporções, tendo ficado definido, na cimeira europeia de 1 de julho, o alargamento da atuação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, o FEEF, no sentido de poder comprar obrigações dos países em maior dificuldade no mercado secundário, para além de se poder oferecer linhas de crédito a esses países e ajudá-los no processo de recapitalização dos bancos. A sustentabilidade do pagamento da dívida por parte dos países intervencionados foi reforçado com o alargamento das maturidades e a redução das taxas de juro. Portugal foi um dos fortes beneficiados, com uma maturidade média que passou para os 7,5 anos e uma taxa média de 5,5%. As medidas foram insuficientes para a generalidade dos países que estavam em dificuldades e o incumprimento da Grécia deixou de ser tabu. Os detalhes desta operação não estariam ainda finalizados. Espanha e Itália começaram a ter problemas nas taxas de juro em julho, mantendo-se as taxas italianas em torno dos 7% no longo prazo.
A agência S&P acabou por "aplicar a machadada" final, ao colocar 15 dos 17 países-membros da Zona Euro em "outlook" negativo ao nível dos ratings. Esta opção incluiu países de "triple A".
A discussão atual já entrou no nível da integração orçamental, com os países do Norte a subsidiarem os países periféricos e a opção da compra ilimitada de obrigações por parte do BCE. Estas parecem ser a panaceia que poderá marcar o fim da crise.
A Euronext Lisbon em 2011
Em fevereiro, a NYSE Euronext e a Deutsche Börse anunciaram que as respetivas administrações tinham chegado a um acordo de fusão, com o objetivo de criar um grupo líder em plataformas de negociação de derivados e gestão de risco, bem como uma Bolsa de eleição para admissão à cotação de valores mobiliários.
Por ocasião da celebração do 20.º Aniversário da "Lei Sapateiro", a Euronext Lisbon juntou os ex-presidentes da Bolsa portuguesa dos últimos 20 anos.
O Portuguese Day - organizado pela NYSE Euronext - realizou-se, pela terceira vez consecutiva, em Nova Iorque, contando, este ano, com o apoio do Banco BPI e a participação de 14 das maiores empresas portuguesas cotadas.
Realizou-se a emissão de Certificados OT pelo Commerzbank, produto inovador no mercado português. Estes certificados são um produto financeiro complexo, não alavancado e replicam um índice calculado pelo emitente, que replica o desempenho da OT correspondente.
O NYSE BondMatch, a plataforma de negociação multilateral da NYSE Euronext destinada a negociar obrigações europeias, recebeu autorização da AMF para iniciar a atividade em julho.
Comemorou-se o 15.º aniversário do lançamento dos contratos de futuro sobre o índice 20. Os primeiros futuros sobre o índice PSI 20 foram lançados a 20 de Junho de 1996 e, passados 15 anos, o total de contratos de futuros negociados sobre este índice ultrapassou os cinco milhões.
Em julho, os accionistas da NYSE Euronext e da Deutsche Boerse aprovaram a proposta de fusão apresentada pelas respectivas administrações.
A NYSE Euronext Lisbon criou um Comité de Acompanhamento dedicado às empresas cotadas, com o objetivo de estreitar o seu relacionamento com aquela comunidade. Este órgão formal, existente em todas as regiões do grupo, terá a designação de Issuers Senior Advisory Committee (ISAC). Os objectivos definidos para o ISAC passam pela consulta sobre novas iniciativas de negócios, institucionais e regulatórias, a comunicação directa com os clientes para a partilha de informações relevantes e a identificação de acções de desenvolvimento e promoção do mercado.
A NYSE Euronext anunciou, em julho, a expansão da sua gama de índices para a classe de commodities, com o lançamento de quatro novos índices baseados em contratos de futuros NYSE Liffe.
Em setembro, a NYSE Euronext anunciou a sua inclusão, pelo segundo ano, no Índice de Sustentabilidade Dow Jones e no S&P Índice de Liderança em Desempenho de Carbono.
A NYSE Euronext e a Deutsche Börse adiaram o prazo para completarem a operação de fusão até 31 de Março de 2012.
Liquidez é o problema nuclear
Numa breve análise sobre aquilo que acontecerá aos mercados após a cimeira do euro de dezembro, Pedro Pereira Coutinho, administrador da Fincor, afirmou que o problema de fundo se mantém: há falta de liquidez e, por isso, não haverá crescimento económico. O que mudou nos mercados financeiros após a cimeira europeia de 9 de dezembro?
As resoluções acordadas no Conselho Europeu, se bem-sucedidas, podem ajudar o problema de longo prazo de controlo orçamental dos Estados, mas não resolvem a questão de curto prazo da liquidez, nem o problema fundamental do crescimento económico.
A pressão sobre a dívida soberana de Espanha, Itália e França vai continuar?
Sim. O facto de a Chanceler Merkel ter vindo dizer que o fundo permanente de regaste não será reforçado veio aumentar a pressão nesse sentido.
Enquanto não forem criados mecanismos que travem o efeito de contágio sobre a divida soberana, que, no imediato, passam necessariamente por um papel mais interventivo do BCE, a pressão irá continuar.
Que impacto terá, nos mercados emergentes, um cenário de recessão na Europa em 2012?
Na era da globalização, uma grave recessão em grandes consumidores como a Europa tem um impacto significativo na economia mundial e nos mercados emergentes. Serão menos afetados os mercados emergentes com políticas mais protecionistas e economias mais diversificadas e auto suficientes, como é o caso do Brasil.
Nas bolsas, que ativos se podem considerar de refúgio?
São cada vez menos os ativos que se possam considerar de refúgio na conjuntura atual, mas mantemos algumas referências como o ouro, a dívida pública americana, algumas moedas como o USD, e até as NOK, e ainda setores mais defensivos como as "utilities".
Como irão comportar-se as commodities em 2012?
As commodities são uma boa aposta para 2012 devido, sobretudo, à sua elevada liquidez e potencial de valorização. Desde os produtos agrícolas aos metais preciosos, deverão ser testados novos máximos durante 2012.
O ouro continuará a ser refúgio à "crise do euro", com os países a aumentarem as suas reservas em ouro. O preço do petróleo continuará com sérias limitações do lado da oferta, com as tensões do Médio Oriente.