Bolsas mundiais perderam 50 vezes a dívida portuguesa junto da Troika
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09/01/12, 07:00 Por Vítor Norinha/OJE (com agências)
As bolsas mundiais tiveram um ano negro em 2011. Perderam o equivalente a 3900 mil milhões de euros, cerca de 50 vezes o pedido de empréstimo global de Portugal à Troika. Mesmo assim, foi menos do que em 2008.
A capitalização bolsista mundial caiu 21,5% em 2011, exatamente o mesmo nível de perda das ações portuguesas inseridas no PSI 20. As maiores perdas aconteceram no setor financeiro, revelando a extensão da crise do subprime nascida no segundo semestre de 2007, e que levou à falência do Lehman Brothers e a intervenções estatais nos EUA e europeia para salvarem o setor financeiro. A crise dos países europeus em termos de dívida soberana é uma consequência da sequela que vem muito detrás. Os periféricos foram os primeiros a ser atacados, mas depois vieram os grandes países. O crescimento mundial está interligado com consolidação orçamental da Zona Euro, desenvolvimento dos mercados internos dos BRIC e de outros emergentes, pressões de preços político-militares que poderão afectar o fornecimento de matérias-primas energéticas, e ainda a pressão mundial para maior consumo de alimentos e melhor qualidade de vida.
De regresso aos mercados financeiros, constatamos que o ouro conseguiu manter o recorde de 11 anos seguidos a ganhar. Teve altos e baixos. É um ativo sem yields definidas e que vagueia ao sabor das perdas e dos ganhos do dólar, ou dos conflitos regionais. São, aliás, esses conflitos que têm estado a suportar o brent acima dos 100 dólares. Este ativos valorizaram 13% em 2011, enquanto o ouro, com grandes oscilações, fechou a ganhar 10,2%. A prata, que teve períodos de ganhos superiores a 30%, fechou o ano a perder quase 10%.
O que fazer em 2012 para quem é investidor? Esta é a pergunta a que ninguém sabe responder. Mas há dois aspectos cruciais na análise: o comportamento dos investidores perante os emitentes soberanos e a capacidade de acionistas e Estados concretizarem o reforço de capitais próprios na banca.
No primeiro caso, é sabido que este vai ser um ano de grandes emissões, ou seja, os maiores países europeus vão estar no mercado a refinanciar grandes volumes de dívida, a que se juntam todas as dificuldades da Grécia, que negoceia um "hair cut" (perdão) de 75% da dívida antiga e quer um novo fôlego com um volume de empréstimos bastante superior àquele que agora pede e/ou exige que lhes seja perdoado. Dificilmente, irá, qualquer instituição financeira privada, embarcar nesta história. A Troika terá de criar os seus instrumentos e, até março, resolver o problema da Grécia, sob pena de incumprimento desordenado, ou seja, "défault" junto de todos os credores, afetando sobretudo alemães e franceses, maior fuga de capitais do país e empobrecimento geral da população.
Refúgio O ouro continua a posicionar-se como o típico valor refúgio, tendo beneficiado dos receios da crise da dívida e da desaceleração económica nos EUA. O preço máximo atingido, em 2011, foi de 1921,15 dólares por onça, e aconteceu no início de setembro. No final do ano, caiu para os 1568 dólares a onça. As cotações voltaram, no início deste ano, a sustentar-se na forte possibilidade de os investidores aproveitarem a degradação de preços dos últimos quatro a cinco meses. A generalidade dos analistas afasta o cenário de "bolha" no ouro. É possível que a prata possa "cavalgar" na onda deste metal, já que depreciou bastante no segundo semestre do ano passado e fechou a nível mais baixo do que em 2010. Evy Hambro, gestor da BlackRock, afirmava recentemente ao "Negócios" que "as pessoas irão olhar mais para os metais preciosos como protecção contra a inflação ou contra a incerteza no sistema financeiro". A confirmar a resiliência do cenário estão declarações do responsável do Investimento Estratégico da BlackRock, Russ Koesterich. Diz, numa nota da última semana, que a economia, considerada em termos globais, irá manter-se anémica, mas será evitada uma crise. Antecipa um crescimento da economia norte-americana entre os 1,75% e s 2,5%. Relativamente à Europa, diz que o maior risco "é a paralisia política", acabando por afetar não apenas o Velho Continente, mas todo o mercado global. Considera que existe apenas uma possibilidade que não irá além dos 5% para o mundo voltar a ter um crescimento forte no próximo ano.
Risco Russ Koesterich, chefe na área de Investimento Estratégico da BlackRock, defende um posicionamento com alocação em empresas de mercados desenvolvidos que paguem dividendos, a par da pesquisa de companhias que atuem em mercados mais pequenos e com potencial de crescimento, caso do Canadá, Austrália, Suíça, Singapura e Hong Kong. Aconselha ainda à seleção de empresas em mercado de forte crescimento, caso da América Latina. A nível das obrigações defende o investimento em obrigações de empresa, sobretudo naquelas que estão dentro do rating de investimento de qualidade e que estão subavaliadas. Dentro de um cenário pessimista de recessão económica global, a defesa que Koesterich propõe passa pelo investimento em obrigações do Tesouro norte-americano. E, claro, defende a manutenção de pequena posição em ouro, embora saliente a volatilidade do valor deste metal precioso.
O mundo Em termos de mercado mundial, diz que a recuperação é ligeira, mas sustentável, sendo que a Europa constitui o maior risco. Refere: "Mesmo que a Europa consiga evitar um colapso ao nível da dívida soberana, os acontecimentos em torno do sistema bancário vão levar a uma ligeira recessão em 2012". Antecipa que pequenos mercados desenvolvidos, como o Canadá, Austrália, Singapura, Suíça e Hong Kong, têm expetativas de crescimento muito mais rápido, sendo seguidos por grande parte dos mercados emergentes.". A China é o grande "drive" das decisões de investimento e de crescimento no mundo. Hambro lembrava, no mesmo trabalho do "Negócios", que este é o país que mais consome "commoditieis" e ainda que um eventual abrandamento deste país traria um choque mundial, exceto se se apostar no crescimento do consumo interno. Por outro lado, as tensões geopolíticas já faladas estão a afetar o Médio Oriente e o Norte de África, o que poderá ter repercussões na oferta dos mercados energéticos. A nível de matérias-primas agrícolas, existe um risco latente nos mercados africanos e da América Latina e que passa pela eventual nacionalização de infraestruturas de produção agrícolas. Estas opções político-estratégicas poderão levar a redução ou alteração dos parâmetros de fornecimento. Uma informação recente dava conta de que a Alemanha tem como principais destinatários de exportação, os mercados da China e da Rússia. Em dois anos, a Alemanha multiplicou as vendas para a China em duas vezes e, para a Rússia, em vez e meia. Os dados são da Goldman Sachs, que conclui que a Zona Euro tem vindo a perder importância para a Alemanha. Este é um facto que explica muitos dos movimento que a chanceler Angela Merkel tem feito na Europa, nomeadamente, no "ataque" à questão da crise da dívida soberana. Naquele país, o emprego continua a crescer e a confiança dos consumidores e do empresariado mantém-se elevada. Os alemães foram dos primeiros a perceber o potencial dos BRIC (acrónimo para Brasil, Rússia, Índia e China). Os mercados emergentes têm mercados internos para crescer e estão cada vez menos dependentes do mercado desenvolvido europeu e dos EUA.
Sentimento económico cai na Zona Euro A Zona Euro continua a revelar valores negativos em termos de sentimento económico. O índice de confiança das empresas e dos consumidores voltou a cair em dezembro na UE, com menos 0,8 pontos, e na Zona Euro, com menos 0,5 pontos. Dados da Comissão Europeia revelam que o sentimento resultou do enfraquecimento da confiança nos serviços, na construção e entre os consumidores, enquanto o sentimento melhorou no comércio a retalho, enquanto se manteve estável na indústria. Portugal pontuou por um novo recorde: em novembro, registou a maior queda europeia no comércio a retalho comparativamente ao mês anterior, menos 2,6%, indicou o Eurostat. Nas variações anuais, Portugal destacou-se também pela maior queda, comparativamente a novembro de 2010, com o volume de vendas a descer 9,2%, o que compara com as quedas de 7% em Espanha e 5,3% na Bulgária.