"Há um elemento de irracionalidade nos mercados financeiros". A afirmação é de Rory Bateman, responsável da área de European Equities, da Schroders, e também de Keith Wade, o economista-chefe da mesma casa. O mercado da Zona Euro estará globalmente negativo em 2012, mas a vertente de empresas poderá salvar alguns dos investimentos.
Imprimir dinheiro pode ser uma primeira fase para a saída da crise da dívida soberana na Zona Euro, mas não é a solução de médio prazo, afirmou Keith Wade, econonista-chefe da Schroders. A Europa tem de trabalhar bem o FEEF, o fundo de estabilização financeira, dotá-lo de meios, permitir o acesso do FMI aos fundos do BCE e preparar-se para grandes resgates, nomeadamente com a Itália.
A perspectiva de Londres daquilo que está a acontecer na Zona Euro não poderia ser mais negativa. A chanceler Merkel tem o controlo da situação e os mercados estão a seguir as suas afirmações. A negociação com a Alemanha é difícil, mas não é por falta de rapidez. Aliás, Rory Bateman, o responsável da área de European Equities, explica que a política "até é rápida quando quer" e deu o exemplo da saída de Papandreu e Berlusconi. No entanto, a Alemanha tem um objectivo nítido, que é a união política, e isso começa com a consolidação orçamental e fiscal. Irá "esticar a corda" até poder e, no fim, cederá, até porque a Zona Euro representa 70% das suas exportações.
Bateman antecipou, na conferência anual da Schroders com os media, que deverá ocorrer uma "recessão mais profunda no próximo ano e alguns países cairão". A nível de acções dos países periféricos, consideram que "os resultados vão cair e isso terá impacto nas acções". Aquele gestor insiste na "irracionalidade dos mercados", quando se está numa zona económica que é globalmente superavitária, mas em que as acções caem "dramaticamente", com destaque para a banca, com depreciações incompreensíveis e quando o "pricing stock" não reflecte a situação macro. Questiona-se porque é que tudo acontece na Zona Euro e no mercado norte-americano não.
A sua antecipação, em termos macro, vai no sentido de uma queda no crescimento do PIB da ordem dos 3% em 2012 para a média europeia, destacando-se a queda na Alemanha, e confirma que será este o país a sofrer o impacto mais violento, caso economias como as ibéricas e a italiana registem quedas de 5%.
Em contraste, refere que os mercados norte-americano e asiático se têm apresentado como "muito resilientes" e a sua perspectiva é de que continuarão nesse sentido. Sobre o sector financeiro, afirma que se deve evitar os bancos da periferia, enquanto aposta na banca alemã e francesa por considerá-la bem capitalizada e rentável.
A França é um país que está a entrar nos "radares" dos mercados da pior forma possível. Rory Bateman diz que a economia não está em má situação estrutural, mas, no longo prazo, terá dificuldades em manter os critérios de Maastricht. O país vai ser obrigado a reformas estruturais e deu o exemplo das 35 horas semanais ao nível da indústria, considerando que isto é algo que obriga a uma "mudança estrutural". Relativamente aos activos neste país, Bateman disse, em tom jocoso, e depois de questionado sobre a estratégia na área financeira, que "compraria bunds e venderia tudo o resto".
Globalmente, aquele gestor considera que o investimento nas acções europeias "é positivo". Afirma que a Schroders tem aconselhado empresas que apostam no crescimento (asset growth), muito embora existam muitos investidores que estão apostados em contrariar as boas avaliações e as boas equipas de gestão. Bateman afirma que essa é uma atitude natural, num momento que se constata a existência de vendas maciças, sobretudo na área do retalho. O analista conclui que está optimista nas acções europeias a nível dos sectores industrial e de consumo, mas negativo na área financeira.
Itália está nos radares
O que mais surpreendeu na crise soberana italiana foi "a velocidade na chegada a uma yield de 7%", afirmou Keith Wade, o economista-chefe da Schroders.
Na base desta situação está a envolvente do BCE e a impossibilidade de imprimir moeda, algo que é possível nos EUA e no Reino Unido. Os investidores sabem que, se exigirem mais juros, vão ter as impressoras a funcionar.
"Quando olho para os mercados e me perguntam que risco devo tomar, tendo em conta as yields que me são propostas pelos países periféricos, incluindo Itália, a minha dúvida está entre os 7% de Itália ou uma obrigação de empresa high yield", afirma Wade. Na verdade, deverei preferir o activo high yield corporate, tanto mais que "ocorreu uma alteração na perspectiva do risco e os investidores deixaram de tratar o mercado de soberanos como tal". Passou a ser um mercado de alto risco e de especulação.
Esta nova percepção tem tido impactos muito negativos em mercados como o italiano. Neste país, os bancos "estão sólidos, mas têm um grande volume de dívida pública e os investidores fazem a ligação entre as duas questões". Há "um elemento de irracionalidade".
Aquilo que políticos e analistas comentam é que a Zona Euro deve caminhar para uma união fiscal, considerando que a inexistência dessa união cria este tipo de problemas. "Mas essa é uma dedução errada", diz Wade, que menciona exemplos dos EUA e no Reino Unido. Neste último país, há, desde sempre, transferência de recursos do Sul para o Norte. As uniões fiscais "não são a solução", afirma o responsável. Acrescenta que requerem conversações muito longas e arranjos políticos, o que torna difícil a implementação de uma política balanceada e em tempo útil", diz o economista.
Sobre oportunidades de investimento, Wade disse aquilo que tem sido comum à generalidade dos analistas. Evitar obrigações públicas, exceptuando as "bunds" alemãs, evitar a excessiva exposição a acções europeias, sobretudo as que estejam ligadas a potenciais situações com risco político, mas estar atento a oportunidades de empresas que estão em fase de crescimento na Zona Euro. A nível cambial, a grande opção é a diversificação para dólares, para além de alguma exposição a ouro. Um aspecto a ter em conta é a forte possibilidade de a China reciclar moedas, o que poderá levar a novas compras de dólares.
O analista alertou ainda para um efeito perverso da excessiva procura de obrigações alemãs, uma situação que poderá resultar numa "bolha", tendo em conta o reduzido volume de activos em circulação. Afirma que as "bunds" devem ser entendidas "como um refúgio, e não como um investimento".
Em cenário, Itália sairá primeiro
Keith Wade afirmou, em Londres, que a Grécia não irá sair do euro, mas, num cenário de saída de países periféricos, a Itália estaria no topo da lista, ainda antes da Grécia. E isto porque o país é muito grande e, nas actuais condições e com os actuais instrumentos, não é possível o resgate.
Num cenário de saída, a Itália vai precisar de recuperar a competitividade, com cinco a seis anos a cair em termos de Produto, com uma depreciação controlada da lira, com fortes debilidades a nível de alguns sectores como o têxtil, onde compete com a China, para além da redução de custos gerais. Este é um mero cenário para Itália, que Wade não acredita que venha a concretizar-se. No entanto, adverte para a possibilidade de contágio da situação italiana a outros países, caso de Espanha. Questionada sobre a eventualidade de uma Zona Euro a duas velocidades, recusou qualquer "slipt", indicando que não seria atractivo para nenhum país, já que todos querem ser como a Alemanha, e esta necessita dos restantes para colocar os seus produtos.
Contágio sistémico: Espanha e Itália estão no radar As duas grandes economias mediterrânicas da Zona Euro, Espanha e Itália, estão prestes a perder o acesso aos mercados para se refinanciarem. Regista-se uma deterioração dos mercados europeus de dívida soberana, com uma depreciação dos títulos espanhóis, franceses e italianos e com o diferencial das yields dos títulos belgas a atingir um máximo desde a criação do euro. As yields das obrigações alemãs foram pressionadas em baixa, reflectindo a maior procura por activos de refúgio, revela um trabalho do Millennium bcp. Analistas alertam que, se não fosse o BCE, Itália e Espanha já não conseguiriam refinanciar-se nos mercados. A agravar a situação está o facto de, nem com a compra massiva de obrigações daqueles soberanos por parte do BCE, ter sido possível estancar a subida das taxas de juro implícitas para aqueles países. No caso de Itália, as taxas rondam os 7%, o limite perigoso acima do qual será aconselhável solicitar a assistência internacional. Entretanto, surgiu mais um drama nesta situação, com a possibilidade de a França vir a perder a qualificação de "triple A" em termos de rating da sua dívida. Em entrevista, o director-geral do Tesouro francês, que gere aqueles instrumentos de financiamento, admitiu essa possibilidade e alertou para as consequências para toda a Zona Euro. É que a França é o segundo contribuinte líquido do fundo de estabilização europeu, o FEEF, que financia os países carentes de assistência, e com o "downgrade" do rating francês, também o "downgrade" do FEEF poderá cair e então as taxas a que se financia este veículo sairão mais altas. Portugal é um dos perdedores porque passará a pagar juros mais elevados pelo pedido de assistência que fez. Entretanto, os seguros perante incumprimento, os "credit default swaps", estão a subir para todo os países periféricos. França, Bélgica e Espanha atingirem ontem máximos, sendo que Espanha estava próxima dos 490 pontos. Recorde-se que os 500 pontos de custo dos CDS na dívida são um ponto de clivagem para os investidores. Os CDS da dívida portuguesa subiram para os 1086 pontos. Curioso que a crise sistémica esteja já a afectar a Alemanha, com os CDS deste soberano a superar os 100 pontos, enquanto há sinais de turbulência nos CDS da dívida da Noruega e Suécia, mercados considerados de refúgio em todo este cenário.Portugal deve aumentar a procuraMelhorar a competitividade através de reformas estruturais para exportar e intervir a nível fiscal para sustentar alguma procura interna, são as soluções de Keith Wade para Portugal. Confirmou que a situação do país é difícil, mas deixou de estar nos "radares". Mais do que a questão do controlo das contas públicas, o grande desafio será o crescimento e, nessa óptica, afirma, há pouco a fazer que não seja aliviar um pouco a carga fiscal e, dessa forma, estimular a procura. Adiantou que se avizinham tempos mais difíceis pelo facto de ser muito complicado conciliar um aperto orçamental com a recuperação económica. Portugal será um dos países afectados pelo abrandamento europeu, pois é o seu destino preferencial nas exportações. Acontece que o país pode ainda vir a sofrer com a degradação das condições de financiamento via FEEF.
Euro com tendência para cairA perspectiva de Keith Wade relativamente ao crosse euro/dólar é de uma queda da divisa europeia para um nível de 1,20/1,25 US dólares. Sustenta que o euro irá apresentar constantes fragilidades devido às economias periféricas, sendo que a tendência é contagiar economias grandes. As operações de "sell-off" vão continuar e o dólar, independentemente das operações de "quantitative easing", manter-se-á como moeda de referência e forte. Este ainda não é o "momentum" para a divisa chinesa. O economista antecipa ainda que as matérias-primas, incluindo o crude, tenderão a cair, devido à redução da actividade económica europeia e chinesa. O ouro manter-se-á como refúgio. Na Zona Euro, haverá espaço para uma nova redução, embora ligeira, das taxas de juro.Europa a caminho da recessãoOs riscos de recessão na Europa são evidentes, depois de expresso o sentimento empresarial, através do índice PMI de sentimento dos empresários da indústria transformadora francesa e alemã de Novembro. Este indicador voltou a deteriorar-se, contribuindo para que o índice análogo da área do euro caísse para 46,4 pontos, o mínimo desde Julho de 2009, de acordo com dados do departamento de research do Millenniumbcp. Estes dados indicam a possibilidade de uma contracção da ordem de 1% do PIB. Em Portugal, um indicador preocupante é o das encomendas na construção que cai há cinco trimestres consecutivos. Dados do INE revelam que a construção perdeu 20% no 3.º trimestre em termos homólogos a nível de novas encomendas. O segmento da construção e engenharia foi o mais penalizado. Um "survey" desta semana, do BarCap, conduzido com base num inquérito a um milhar de clientes da instituição financeira, revela que dois terços dos inquiridos acredita numa recessão na Europa em 2012. Este sentimento não é partilhado para as geografias chinesas e norte-americana, pois apenas 3% dos clientes acreditam no contágio a estas regiões. Cerca de 60% dos inquiridos especializados no mercado accionista e 70% especializado no mercado cambial espera um contágio aos mercados ao longo dos próximos três meses. Cerca de metade dos inquiridos espera que pelo menos um país possa sair do euro, e esse país é, naturalmente, a Grécia. No entanto, um em cada 20 inquiridos espera que venham a sair os cinco países periféricos da Zona Euro no próximo ano, incluindo Portugal. Por último, apenas 7% dos inquiridos espera que aconteça uma implosão na Zona Euro e apenas 20% acredita que se caminha para uma convergência fiscal na região.