O espetro da Standard & Poor's vai alargar-se a empresas, bancos e municípios
Destaque
18/01/12, 00:02 Por Vítor Norinha (com agências)
Todos parecem querer dizer que uma notação é pouco relevante. Questiona-se a oportunidade política do downgrade da S&P à generalidade dos emitentes soberanos europeus. Mario Draghi, o presidente do BCE, interroga-se sobre o papel das agências de rating. O mecanismo de ajuda a Portugal, o FEEF, emite sem problema, depois do downgrade, e há analistas que dizem que a decisão da S&P é um "não acontecimento". Vamos ver o impacto na emissão de hoje do IGCP.
A agência S&P não desarma e ontem avisou que as ações que tomou sobre o rating dos países da Zona Euro deverão levar a cortes no rating de bancos, empresas, empresas estatais, seguradoras, municípios e regiões.
Em comunicado, citado pela Lusa, a agência diz que as ações que tomou sobre o rating de 17 países da Zona Euro (nove sofreram cortes, entre os quais a França e a Áustria, que perderam o rating máximo e Portugal que levou um corte de dois níveis) "pode levar a ações de quebra de notação sobre outros avaliados na Europa nas próximas quatro semanas".
Adianta a agência que "a abrangência e o timing das ações de rating dependem do nível de ligação entre cada soberano e a entidade ou empresa relacionada, assim como implicações mais abrangentes da potencial redução do nível de apoio Estatal", diz a agência.
A S&P cita os seus critérios revistos recentemente e lembra os vários modos de ajuda dos Estados à banca para sublinhar as ligações entre os ratings atribuídos tanto a soberanos como à banca, e diz que irá tomar uma decisão sobre as notas dos bancos, "certamente nas próximas quatro semanas (...), por sistemas bancários internos, será um país de cada vez".
Na lista estão ainda governos regionais e municípios - que sofrem cortes consoante os aplicados aos países - empresas estatais ou com elevado grau de probabilidade de receberem apoio do Estado caso necessitem (na mesma situação), empresas, seguradoras e produtos financeiros estruturados.
Na passada sexta-feira, a S&P cortou o rating de nove países da Zona Euro, citando, entre outras razões, a falta de capacidade dos seus líderes em tomarem decisões que ataquem efetivamente a crise da dívida.
Entre os países que sofreram cortes, destaque para os cortes em um nível de França e Áustria, que perderam o seu rating máximo, levando, consequentemente, ao corte, na segunda-feira, do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF).
Portugal sofreu um corte em dois níveis, tal como a Espanha e Itália. O IGCP tem previsto uma emissão para esta quarta-feira de 2,5 mil milhões de euros, a uma maturidade de 11 meses, a mais longa desde o pedido de assistência internacional. Num "survey" realizado pela agência Fitch e cotado pela Bloomberg, os investidores institucionais indicam, em 56% dos casos, que pretendem reduzir a exposição às emissões espanholas, enquanto 40% querem fazê-lo relativamente a Portugal e Itália. Recorde-se que este país espera, para este ano, uma contração da economia entre 1,2 e 1,5%, uma previsão muito mais pessimista do que os 0,4% do Governo.
"As incertezas em torno das perspetivas de médio prazo da economia italiana são extraordinariamente altas e estão intimamente ligadas à evolução da crise da dívida da Zona Euro", afirma-se no boletim económico do banco central. Na publicação, o Banco da Itália desenvolveu dois cenários em função de mudanças das taxas dos empréstimos que o país venha a suportar. O primeiro cenário prevê que em 2012 e 2013, o spread entre as taxas da Itália e da Alemanha a 10 anos (que mede o prémio de risco pago pelo mercado italiano) seja de cinco pontos percentuais (pp), como acontece atualmente. Neste caso, o PIB do país sofreria uma contração de 1,5% este ano, registando em 2013 um crescimento nulo. O segundo cenário é baseado numa "normalização das condições do mercado", graças a uma retoma da "confiança dos investidores na capacidade do Estado italiano honrar a sua dívida" e na "plena execução das medidas europeias", que permitiriam uma diminuição de dois pontos percentuais das taxas da dívida italiana. Aqui, o PIB cairia 1,2% em 2012 e o ano seguinte seria mesmo de retoma económica, de 0,8%. A Itália inquieta particularmente os mercados devido à sua dívida de mais de 1900 milhões de euros ou 120% do PIB.
Reações
A Comissão Europeia (CE) desvalorizou o corte do rating do FEEF e garantiu que a decisão da S&P não afeta a capacidade do mecanismo para apoiar os países sob programas de ajuda, como Portugal.
Segundo o porta-voz dos Assuntos Económicos, Amadeu Altafaj Tardio, o corte no rating do FEEF "não representa de forma alguma falta de confiança na robustez e eficiência dos "firewalls" da Zona Euro, e é antes uma consequência mecânica da decisão tomada na passada sexta-feira sobre os ratings de diversos países da Zona Euro", designadamente a retirada do rating máximo (triplo A) à França e à Áustria.
A mesma fonte disse ainda que esta avaliação da S&P é apenas "uma opinião entre muitas outras" e nem vai ao encontro do comportamento dos mercados. O porta-voz do comissário Olli Rehn acrescentou ainda que "importa é continuar a trabalhar" para reforçar as defesas da Zona Euro e antecipar a entrada em força, este ano, do novo mecanismo europeu de estabilidade, e não são as decisões das agências de notação que vão alterar a política que está a ser levada a cabo.
Entretanto, o presidente do Conselho Europeu garantiu que a perda do rating máximo ao FEEF não reduz a capacidade do instrumento, que continua a ter o apoio dos países do euro.
"A decisão da S&P não vai reduzir a capacidade do FEEF. Acreditamos ter os meios suficientes para que o instrumento cumpra o seu mandato e cumpra os programas de ajuste futuros, e continuará a receber o apoio incondicional dos membros da Zona Euro", disse Herman Van Rompuy, numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy. Lembrou ainda que os chefes de Estado e de Governo da Zona Euro concordaram, na cimeira de 9 de dezembro, avançar com a criação do mecanismo europeu permanente de estabilização financeira em julho de 2012. "Esse mecanismo terá a sua própria base de capital e, por isso, não sofrerá tanta influência das notações de risco dos Estados-membros", disse. Van Rompuy sublinhou ainda que o FEEF mantém a qualificação máxima das outras duas grandes empresas de notação financeira, a Moody's e a Fitch. "Nenhuma destas duas agências de rating indicou que vai fazer qualquer alteração no futuro imediato", disse o presidente do Conselho Europeu.
Van Rompuy sublinhou a importância de restaurar a estabilidade financeira da UE, mas frisou que a união precisa, ao mesmo tempo, de se concentrar no crescimento e na criação de emprego. Disse: "Necessitamos urgentemente de aplicar uma estratégia contra a recessão, mobilizando meios e esforços, tanto a nível da UE como dos Estados-membros".
O economista Daniel Bessa considerou que a descida do rating de Portugal pela S&P é "uma desgraça". Daniel Bessa falava aos jornalistas à margem do IV congresso da APED - Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição. Nesta área, adiantou, Portugal só tem "tido más notícias". Isso acontece "porque nos falta independência e credibilidade" e acrescentou: "A única coisa que digo é que isso é lamentável e não nos ajuda nada", sublinhou.
Grécia insolvente, diz a Fitch
A Grécia é insolvente e provavelmente não vai conseguir honrar o seu compromisso de pagar os 14,4 mil milhões de euros da linha de Obrigações do Tesouro que expira em março, afirmou o diretor-geral da Fitch, Edward Parker.
"O chamado envolvimento do setor privado, para nós, irá ser visto como incumprimento, é claramente um "default", na nossa opinião. (...) Então, não será uma surpresa se o incumprimento na Grécia realmente acontecer, e nós esperamos que aconteça, de uma forma ou de outra, relativamente em breve", disse o responsável numa entrevista à Bloomberg, citada pela Lusa.
O diretor geral da Fitch disse ainda que "o rácio da dívida pública face ao PIB é de 160% e continua a crescer" e que, por esta razão, "não irá conseguir pagar as suas dívidas". Acrescentou: "O plano A é que as negociações (sobre o envolvimento dos privados) voltem a acontecer e que cheguem a um acordo voluntário e, se isso não for possível, eu espero que uma troca de dívida involuntária seja colocada em prática e que concluam este processo até março", acrescentou.