Obrigações de empresas, dívida soberana e cash são as recomendações dos analistas
Destaque
15/12/11, 01:33 Por Vítor Norinha/OJE
O ano de 2012 vai abrir com turbulência. As acções vão continuar a cair como efeito da antecipação de um crescimento negativo da economia e não por problemas sistémicos.
Obrigações de empresas que não têm problemas com o contexto recessivo e têm cash nos balanços, obrigações soberanas alemã e dos EUA, moedas como o franco suíço, ouro e cash são as opções que se colocam aos investidores para o próximo ano.
A tendência macro-económica será decisiva nas opções. Os analistas não se entendem entre o cenário de estagnação (o estudo da E&I vai nesse sentido), o cenário de ligeiro crescimento (mais 0,2% de média na Zona Euro) ou recessão. Qualquer dos cenários não é bom, pois divide-se entre o sofrível e o mau desempenho da generalidade das economias da Zona Euro.
A recente Cimeira Europeia de 9 de Dezembro não trouxe grandes novidades. Pelo contrário, demonstrou falta de vontade política em tomar decisões de fundo. Ficaram, no entanto, algumas medidas que aliviam a pressão sobre o sistema financeiro, caso das CoCos bonds, ou seja, obrigações convertíveis que servirão para reforço da solvabilidade dos bancos, ou ainda a opção pelos empréstimos do BCE a três anos, o que retira pressão no curto prazo, mas deixa o problema para os anos seguintes. Os analistas estão convencidos de que a situação irá resolver-se quando os problemas chegarem à Alemanha.
Entretanto, os mercados bolsistas têm vindo a transaccionar em queda depois do último fim-de-semana. A expectativa sobre um resultado palpável da Cimeira gorou-se. Nos EUA, a Fed não adoptou novas medidas e também neste mercado as expectativas saíram "furadas".
A contribuir para as desvalorizações esteve, decisivamente, a notícia de que a Standard & Poor's (S&P) colocou em vigilância negativa o rating dos 15 países da Zona Euro, comentavam os analistas do Millennium investment banking num dos recentes relatórios. A contribuir para uma performance negativa esteve, também, o facto de o Banco Central Europeu (BCE) ter revisto em baixa as previsões de crescimento económico para 2012 e ter negado a intenção de aumentar o programa de compra de dívida soberana. Em sentido contrário estiveram as decisões de antecipar a entrada em vigor do Fundo Europeu de Resgate Permanente (FEEF), de reforçar os fundos do FMI e de contribuir para uma maior disciplina orçamental.
Entre as decisões mais relevantes dos líderes europeus está o aumento em 200 mil milhões de euros dos fundos do FMI para facilitar o apoio financeiro aos países-membros em dificuldades. Os 17 países do euro e ainda os seis futuros membros assinarão um tratado intergovernamental, que ficará concluído até Março próximo. O objectivo é atingir uma verdadeira disciplina orçamental e financeira. Reino Unido e Hungria colocaram-se de fora deste acordo, embora por razões diferentes.
Uma decisão muito relevante foi a antecipação para Julho próximo da entrada em vigor do Mecanismo Europeu de Estabilidade, que terá uma capacidade de 500 mil milhões de euros. A gestão do actual FEEF e do futuro MEE será da responsabilidade do BCE.
Entretanto, o que aconteceu a nível monetário foi uma redução da taxa directora em mais 25 pontos de base, situando-se, actualmente em 1%. Mario Draghi, o presidente do BCE, avançou com novas medidas cruciais na estabilização da zona, nomeadamente a disponibilização de fundos ilimitados a três anos aos bancos, ao mesmo tempo que aliviará as exigências em termos de colaterais para a cedência de fundos.
Um aspecto relevante na macroeconomia da Zona Euro, foram as novas previsões do BCE relativamente ao crescimento económico. A autoridade monetária afirmou que, devido à forte incerteza relacionada com a dívida soberana, optou por uma revisão em baixa. O PIB deverá crescer entre 1,5% e 1,7% em 2011 e poderá registar uma queda de 0,4% a um aumento de 1% em 2012. Uma informação ainda do Millennnium investment banking adianta que a inflação deverá ficar nos 2,7% este ano e recuar para 2% em 2012 e para 1,5% em 2013. O Banco de Inglaterra seguiu uma estratégia concertada e sem surpresas, mantendo inalterada a taxa britânica nos 0,5% e o programa de compra de activos nos 275 mil milhões de libras esterlinas. Entretanto, e numa alusão à recente cimeira, Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal (BdP), defendeu a disciplina e as regras como metodologia. Numa conferência do ISCSP/Universidade Técnica de Lisboa, o governador disse que não será necessário chegar ao ponto de um estado federal, "mas é imperioso" que a Zona Euro tenha condições de disciplina e regras para dar confiança ao grupo. Sobre a recente cimeira, o governador disse ser importante que os governos expliquem aos seus cidadãos "a noção de que as regras não resultam de um ‘diktat' exterior, mas que são inerentes à vida em grupo" dentro da Zona Euro. Disse que a união monetária é plena, mas a união económica não, e, por enquanto, os líderes europeus estão à procura da união económica que há-de sustentar a união monetária.
Como investir
As opções de investimento que se colocam para 2012 têm em conta o conjunto de cenários descritos, assim como as deliberações dos políticos europeus no período mais recente. André Pinheiro, da Orey Financial, defende a opção por investimentos seguros como as obrigações governamentais dos EUA e da Alemanha, independentemente das yields estarem e níveis historicamente baixos. Defende ainda a aposta em dólares e no euro como activos de refúgio.
Pedro Pintassilgo, da F&C Investimentos, vai um pouco na mesma linha, reforçando a necessidade de aumentar o cash. A opção pelos mercados emergentes tem uma leitura diferente. A correcção do preço das "commodities" já começou em 2011 e, com uma Europa frágil e uma China a desacelerar, são desaconselhadas por alguns analistas, enquanto outros consideram que os EUA vão manter um bom nível de actividade e os novos emergentes tenderão a suportar o segmento das matérias-primas, tendo em conta o crescimento do consumo interno.
Entretanto, a AIE cortou a previsão de consumo mundial de crude. O efeito da crise e as perspectivas de um 4.º trimestre mais fraco - sobretudo nos países europeus da OCDE -justificam uma revisão em baixa nas previsões de consumo mundial de crude em 2011, segundo o relatório mensal de mercado divulgado pela Agência Internacional de Energia (AIE). No documento publicado esta terça-feira (OMR - Dezembro), a agência que acompanha as necessidades energéticas da economia da OCDE corrige a previsão anterior em 160 mil barris/dia, baixando estimativa deste ano para os 89 milhões de barris por dia, mais 0,7 barris em relação ao consumo de 2010. A estimativa da AIE para 2012 aponta para uma procura mundial de 90,3 barris, volume que corresponderá a um incremento de 1,3 milhões barris/diários face ao estimado para 2011.
Por último, o investimento em obrigações de empresas expostas a mercados em crescimento é uma opção comum a todos os analistas com quem falámos.
Um aspecto curioso para não pensar em activos de refúgio é tentar o investimento em dívida soberana de países intervencionados. No curto prazo, a aposta na dívida pública portuguesa pode gerar rendibilidades anualizadas de 12 a 13%.
Taxa de poupança desce
Em Novembro, o indicador de poupança Apfipp/Universidade Católica inverteu a tendência dos últimos meses e desceu. O indicador caiu de 105 em Outubro para 102,3 em Novembro, muito embora continue a evidenciar uma performance bem acima da média histórica que está nos 95 pontos.
Os analistas da Apfipp revelam que, "corrigindo os efeitos da sazonalidade, o indicador aponta para um aumento da poupança das famílias de cerca de 0,4% do PIB no 2.º semestre em face do 1.º semestre de 2011". Adiantam que, em Portugal, a expectativa das famílias sobre a sua capacidade de poupança, registada pelo inquérito às famílias da Comissão Europeia, desceu significativamente no Outono. Afirmam que esta descida "poderá resultar de uma série de factores, nomeadamente a subida da taxa de desemprego e as expectativas sobre os aumentos de impostos em 2012.
Previsões macroeconómicas da Ernst & Young para 2012O cenário de recessão na Zona Euro em 2012 é mitigado pelo estudo da consultora Ernst & Young (E&Y), que acredita na estagnação e recuperação entre 2013 e 2015. O desemprego irá manter-se em níveis muito elevados. A perspectiva de uma ligeira recessão na Zona Euro na primeira metade de 2012 parece agora altamente provável, de acordo com as previsões de Inverno do Ernst & Young Eurozone Forecast (EEF). Apesar das reformas anunciadas no dia 9 de Dezembro, os detalhes sobre como será aplicado o acordo permanecem pouco claros, assegurando que a probabilidade de volatilidade permaneça elevada num futuro próximo, retardando as perspectivas de crescimento para os próximos seis meses, pelo menos. No EEF, assume-se que o acordo de Dezembro é implementado e as previsões apontam para um fraco crescimento na Zona Euro, que deve continuar até finais de 2012. A previsão sugere uma mera melhoria de 0,1% no PIB em 2012, subindo para 1,5% - 2% em 2013-15. Marie Diron, senior economic adviser to the Ernst & Young Eurozone Forecast, comenta em nota: "As reformas acordadas na cimeira de 9 de Dezembro foram um passo na direcção certa e a resposta parece ter sido ligeiramente positiva. No entanto, os investidores continuam muito preocupados com o comprometimento e a habilidade dos governos da Zona Euro para implementar reformas rapidamente. Apesar de este abrandamento não ser actualmente comparável àquele experienciado em 2008, ainda existem grandes preocupações em relação à liquidez dos bancos e ao desemprego para 2012". Mark Otty, Ernst & Young Area Managing Partner for Europe, Middle East, India and Africa, afirma que "as incertezas que pairam sobre a Zona Euro só podem continuar a adiar o entusiasmo das empresas europeias para fazerem investimentos de longo prazo e decisões de recrutamento". Acrescenta: "Fundamentalmente, o verdadeiro desafio para a Europa e para as ‘economias avançadas' é o crescimento e se as economias maduras conseguem encontrar formas de crescer acima da sua tendência histórica para pagarem as suas dívidas e aprenderem a viver dentro das suas possibilidades daqui para a frente". Sobre taxas de juro, afirma-se, no documento, que é provável que "reduções adicionais sejam requeridas, acompanhadas por mais medidas para fornecer liquidez aos bancos. Além disso, as dúvidas em curso sobre a habilidade de alguns países implementarem reformas necessárias significarão que o Banco Central Europeu terá de continuar a comprar títulos de dívida pública". Muitos comentadores, incluindo o EEF, acreditam que um forte compromisso dos governos em relação às reformas fiscais poderia permitir ao BCE acelerar o seu programa de compra de dívida pública. Embora as rendibilidades dos títulos de dívida pública na Zona Euro tenham caído recentemente, eles permanecem altos e muito imprevisíveis. Uma vez que as reformas para as estruturas fiscal e económica levam tempo, o BCE poderia desempenhar um papel chave a curto prazo e assegurar que a rentabilidade dos títulos de dívida pública não atinja ou permaneça a níveis insustentáveis. Marie Diron afirma que, "com os mercados obrigacionistas muito voláteis, as perspectivas de fraco crescimento e as necessidades altas de empréstimos em 2012, é provável que o Banco Central Europeu considere actuar como um emprestador de último recurso se problemas mais profundos - talvez mesmo uma divisão da Zona Euro - tiverem de ser evitados."
Foco no desemprego O desemprego tem subido rapidamente em alguns países da Zona Euro desde 2008, particularmente na periferia, mas o EEF acredita que há uma forte possibilidade de agravamento da situação em alguns dos países centrais. Atendendo às perspectivas, o total de desempregados vai permanecer elevado por um longo período - o EEF não espera que a taxa de desemprego na Zona Euro caia abaixo dos 10% até 2015. Marie Diron afirma: "Alterações aos mercados de trabalho da Zona Euro, para aumentar a sua flexibilidade e reduzir os custos de trabalho, ajudariam a garantir que o euro saía da sua crise numa base mais forte". A liquidez do sector bancário é outra grande preocupação. O crédito bancário em toda a Zona Euro permanece apertado, com os bancos a reestruturar os seus balanços e a reduzir a exposição aos sectores e países de maior risco. O estudo do BCE sobre empréstimo para o último trimestre de 2011 demonstrou padrões de empréstimo novamente apertados, com inquéritos para países individuais a sugerir condições mais apertadas em toda a zona da moeda única. Entre os factores-chave que contribuíram para tal estão o reduzido acesso aos mercados capitais e as percepções agravadas dos bancos face às perspectivas económicas gerais. Estes factores sugerem um impacto adverso crescente no investimento de negócio e na capacidade das empresas aumentarem a produção em 2012. Tal com explica Marie Diron, "o BCE estendeu os seus empréstimos aos bancos até três anos e alargou o leque de garantias que os bancos podem usar para obter liquidez do banco central. Todas estas medidas têm o objectivo de aliviar a situação actual de difícil financiamento dos bancos, permitindo-lhes desempenhar o seu papel essencial como fornecedores de empréstimos à economia." Relativamente à inflação, os analistas afirmam que vários factores devem assegurar que a inflação abrande em 2012. Em primeiro lugar, os preços do petróleo estão fora do seu pico e prevê-se que caiam para cerca de 10% em 2012. Em segundo lugar, os efeitos de base vão tornar-se favoráveis, sendo que vai haver uma diminuição da taxa global de inflação no início de 2012, à medida que os efeitos do aumento IVA no início de 2011 se sentirem. Marie Diron comentou ainda que "os últimos desenvolvimentos na Grécia, Itália e Espanha e o acordo europeu reduzem o risco de divisão da Zona Euro. No entanto, este risco permanece, uma vez que, em 2012, largas quantidades de dívida soberana exigem re-financiamento que pode causar tensões". Os custos de uma ruptura da Zona Euro seriam, sem dúvida, muito altos e teriam impacto duradouro em toda a economia da Europa e do mundo. Como resultado, o EEF acredita que as autoridades dos países líderes lutarão para manter a moeda única. Parece provável que o custo do Banco Central Europeu actuar como emprestador de último recurso seria menor do que os custos de médio prazo de uma divisão. Apesar de as perspectivas de curto prazo para a Zona Euro permanecerem sombrias, estão a ser dados passos em direcção a um futuro mais brilhante, refere a E&I. "A situação em Itália, Espanha e Grécia permanece extremamente preocupante, mas, se os progressos nas reformas avançarem a tempo, podem ser dadas, às autoridades noutros países, os mandatos necessários para proceder com reformas duras semelhantes. Por sua vez, isto daria um grande impulso psicológico aos mercados europeus. É também provável que a inflação desça no próximo ano. A Irlanda estabeleceu um bom exemplo de como um país pode reformar e alterar as suas formas de recuperar". Marie Diron conclui do seguinte modo: "Apesar das perspectivas pouco animadoras a curto prazo e dos riscos, ainda esperamos que a Zona Euro estabilize em 2012, com um fim da crise na Itália e Grécia a aumentar as perspectivas de crescimento de médio prazo e um regresso a uma estabilidade financeira maior. Diz ainda que, "para além disso, o estímulo em curso dos mercados emergentes, que devem impulsionar o crescimento mundial nos próximos anos e ultrapassar os países desenvolvidos em percentagem do PIB mundial já em 2014, vai ajudar ao crescimento da Zona Euro para cerca de 2% em 2014-15, com melhoria das perspectivas futuras".