"Os negócios inclusivos são a nova abordagem à actuação social"
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22/12/11, 00:54 VER /OJE
Apesar da situação de crise em contínuo agravamento, os montantes investidos pelas empresas na comunidade não sofreram cortes entre 2008 e 2010. É esta a conclusão mais optimista da 2.ª edição do estudo "O Investimento das Empresas na Comunidade", divulgado em Novembro pela Sair da Casca. Na opinião de Nathalie Ballan, sócia fundadora da consultora, há hoje uma nova abordagem à actuação social: a dos negócios "inclusivos".
Aferir qual o contributo das empresas para a comunidade e reflectir sobre o seu papel social são os objectivos deste estudo, cujos resultados revelam que o montante investido pelo universo das 52 empresas auscultadas se traduz num valor superior a 76 milhões de euros.
Este valor mantém o investimento médio por empresa na comunidade desde 2008. A maior percentagem pertence às empresas que investem mais de um milhão de euros (37%) e, no extremo oposto, às que investem menos de 200 mil euros (25%).
De realçar igualmente que 13% das empresas não comunicam ainda os montantes dos apoios, o que demonstra que esta área de actuação na comunidade continua a não ser encarada como as demais. Mesmo "existindo uma evolução indiscutível", falta ainda dar passos cruciais em termos de rigor e exigência.
O mesmo acontece com a comunicação de critérios de escolha dos projectos, instituições e iniciativas que contam com o apoio das empresas: apenas 25% o fazem. Regista-se "uma grande melhoria a nível da gestão, mas, no entanto, ainda não é prática corrente comunicar estes critérios", conclui Nathalie Ballan. Não obstante, 73% e 83% das empresas, respectivamente em 2009 e 2010, comunicam compromissos e/ou áreas de actuação, face a 62% na primeira edição do estudo.
No que toca a comunicar, "em geral, as empresas definiram políticas ou linhas de actuação muito mais claras, já não tão dispersas e cada vez mais relacionadas com o seu contexto local". Se, em 2008, apenas 13% das empresas comunicava ter uma política, estratégia de filantropia ou investimento na comunidade, em 2009 e 2010, este valor subiu, respectivamente, para 65% e 87%.
Por outro lado, "a ligação entre as estratégias de envolvimento com a comunidade e as estratégias de sustentabilidade também se tornou mais clara nos últimos dois anos, comparativamente a 2008", esclarece a sócia fundadora da Sair da Casca: "nota-se uma maior procura de eficiência e eficácia".
Paralelamente, os projectos de voluntariado "ganham cada vez mais expressão", diz. No ano em que se celebra, a nível europeu, o trabalho voluntário, 70% das 52 empresas que colaboram no estudo desenvolvem actualmente programas de voluntariado, com um envolvimento expressivo dos colaboradores, conclui a amostra. A coesão interna da organização, através de "um olhar e fazer" pelos outros, parece constituir uma fórmula de sucesso com benefícios para ambas as partes.
É que, se o voluntariado empresarial consiste numa tendência com um peso cada vez mais visível no panorama nacional, o mesmo acontece com "o compromisso de quase todos para contribuir para reduzir a pobreza e a exclusão social", garante Nathalie Ballan.
Não só a nível interno - de que são exemplo programas de empregabilidade ou de integração de pessoas com deficiência -, mas também a nível externo, como comprovam os montantes investidos na comunidade e que privilegiam áreas tão diversas como a criação ou adaptação de produtos e/ou serviços para os tornar acessíveis a populações normalmente excluídas, ou a criação de ferramentas financeiras alternativas para pessoas que não podem recorrer ao sistema bancário tradicional. E, nesta categoria, são cerca de 80% as empresas que abraçaram e estão a cumprir este compromisso.
Causas conhecidas são as mais apoiadas
No que respeita às causas mais apoiadas, a solidariedade, que integra o apoio a instituições de solidariedade e o envolvimento em campanhas lideradas também por instituições, encabeça o ranking, sendo seguida pela educação (com enfoque nas crianças e jovens) e pela cultura. Estas áreas eram já as preferidas das empresas, na primeira edição do estudo. Mantém-se também a tendência para apoiar causas que tenham atingido já um certo patamar de visibilidade ou seja, de privilegiar "quem já é (muito) visível", aponta o documento.
Na opinião de Nathalie Ballan, "no caso dos projectos sociais, ainda há pouco trabalho feito sobre os impactos e, como as empresas não podem relatar tudo o que fazem, porque seria informação a mais, tendem a privilegiar o que é mais conhecido ou lhes pode dar mais visibilidade".
A título de exemplo, na área cultural, entidades como a Fundação de Serralves ou a Fundação Casa da Música e, na área social, o Banco Alimentar contra a Fome ou a EPIS - Empresários para a Inclusão Social - são as que lideram as "preferências" das empresas auscultadas.
O apoio a idosos, a pessoas com dependências e a própria deficiência continuam a ser as causas menos divulgadas pelas organizações em questão. Mas, em contrapartida, é notório o crescente envolvimento em projectos educativos para a promoção de temáticas como a educação para a saúde, a prevenção rodoviária ou a protecção ambiental, nos quais as empresas trabalham numa lógica de proximidade com as entidades públicas, assumindo os encargos financeiros das iniciativas que apoiam.
Por último, e quando se fala na visão estratégica do papel da empresa na comunidade, o estudo aponta para uma tentativa crescente, por parte das empresas, de estruturarem a sua área de envolvimento: a "grande maioria" das empresas entende os benefícios de ter políticas de envolvimento com a comunidade que estejam alinhadas na sua estratégia geral de sustentabilidade, mas "é diariamente sujeita a diferentes pressões. A gestão da alocação de recursos é extremamente complexa e não pode ser vista só à luz do que diz a estratégia", explica a especialista.
Pese embora o facto de, muitas vezes, esta estruturação não ser ainda fruto de uma reflexão estratégica para definir, com eficácia, o papel da organização e as suas formas de actuação, a ligação entre as estratégias de envolvimento com a comunidade e as estratégias de sustentabilidade tornou-se também mais clara nos últimos dois anos, face aos resultados da primeira edição do estudo.
Investimento nos colaboradores cresce com a crise
Um caminho que parece conduzir a "novas abordagens" de actuação social, que é "o que nos parece mais interessante", afirma Nathalie Ballan, para quem existem exemplos "altamente inspiradores e coerentes com a missão e cultura do mundo empresarial, é, por exemplo, o "negócio inclusivo", promovido pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), e o social business de Muhammad Yunus". As empresas podem usar parte do orçamento disponível para a filantropia e investir num destes modelos, passando de uma atitude de "caridade" para uma postura de "investidores", conclui.
O social business, modelo empresarial criado para responder a necessidades sociais, visa a auto-suficiência, o desenvolvimento da actividade e o fim da "subsídio-dependência", o que permite à estrutura concentrar-se na sua missão social, em vez de passar uma grande parte do seu tempo a angariar fundos.
Como recorda a sócia fundadora da Sair da Casca, a grande vantagem deste modelo de negócio, face ao tradicional, é que depois do reembolso do investimento, os lucros são reinvestidos na comunidade ou na empresa.
Contudo, é sempre necessário medir os impactos dos projectos na comunidade e, a esse nível, o número de empresas que o fazem continua a não ser expressivo. Segundo Nathalie Ballan, em relação à medição do impacto, "estamos numa fase embrionária, não apenas em Portugal. É normal haver uma tendência para uma exigência maior pelo menos a nível da organização dos projectos, dos resultados, eventualmente dos seus impactos". Mas, no que respeita ao retorno para a sociedade, este "é ainda um tema quase experimental".
Ora, com o agravar das condições económicas do país, a questão impõem-se: existem dados que comprovem que as empresas estão mais preocupadas em praticar uma Responsabilidade Social voltada para o seu interior ou, pelo contrário, há agora um maior esforço para ajudar a comunidade? É "mais comunicada e mais visível" a preocupação das empresas com a sua Responsabilidade Social interna, ou seja, para com os seus colaboradores, esclarece Nathalie Ballan. Cerca de 80% das empresas analisadas, segundo dados relativos a 2010, assumem um compromisso, por exemplo, através da criação de condições de empregabilidade ou de programas de integração de pessoas com deficiência, conclui.
O que não significa que, anteriormente, as empresas não tivessem estas práticas, mas sim que, provavelmente, não lhes davam tanta visibilidade. De resto, as empresas continuam a investir na Responsabilidade Social "externa", mas "o foco interno tornou-se mais evidente e claro".