Portugal diferente da Grécia mas… pode estar a caminho um segundo resgate
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08/02/12, 10:08 Por Vítor Norinha (com agências)
Portugal e Grécia são diferentes, têm comportamentos díspares e a perceção dos analistas é de que um quer cumprir as regras e o outro nem por isso. Mais à frente está a Irlanda, que conseguiu distanciar-se. Os juros das obrigações em mercado secundário espelham as diferenças.
Paul Niven, director and Head of Asset Allocation da F&C, acredita que Portugal necessitará de uma segunda ajuda e não descarta a necessidade de um "hair cut". Pedro Pintassilgo, director de Gestão de Carteiras da F&C Portugal, disse, em encontro com jornalistas, que a yield das OT a nove anos já incorpora um desconto equivalente a 50%. Não acredita num hair cut, mas subscreve a perspetiva de analistas, que advogam um reforço da ajuda internacional da ordem dos 25 a 30 mil milhões de euros, tendo em que a Troika esqueceu a dívida das empresas públicas junto das instituições internacionais.
O Estado e a banca nacional têm substituído esses bancos, mas já se entrou num nível difícil. António Saraiva, o presidente da CIP, afirmou recentemente que serão necessários mais 30 mil milhões de euros, e personalidades que trabalham a área política não descartam essa possibilidade.
Ainda ontem, os economistas do BBVA, através do Observatório Económico para Portugal, consideravam como muito provável a impossibilidade do regresso de Portugal aos mercados em 2013, o que significará um novo resgate internacional. O Governo, através do chefe do executivo e através do ministro de Estado e das Finanças, têm reafirmado a capacidade do país em voltar aos mercados em 2013, mas os analistas externos têm fortes dúvidas e dão como exemplo a evolução das yields dos BT e das OT nas várias maturidades. O BBVA escreveu que "se o presente stress financeiro continuar, é pouco provável que Portugal consiga voltar a ter acesso aos mercados em 2013". Afirmam os mesmos analistas que, independentemente, desta opinião, "o país está a fazer as reformas estruturais" de que necessita, o que os leva a antecipar que não deverá haver necessidade de reestruturação da dívida pública.
Diferentes
Os economistas do BBVA consideram que Portugal é um caso "completamente distinto" da Grécia.
No entanto, o caso grego tem deixado a Europa à beira de um ataque de nervos e Portugal é, pela natureza das coisas, o país mais prejudicado se a negociação grega falhar. As desconfianças dos investidores privados irão aumentar e será mais difícil manter a perceção externa de que o país está a fazer tudo o que deve, quer em termos de consolidação orçamental, quer em termos de imposição de reformas estruturais.
A aversão à Grécia tem levado vários analistas e políticos, incluindo o presidente do Eurogrupo, a admitir a saída da Grécia da Zona Euro. Para vários analistas, a Grécia deixou de ser um problema sistémico e são eles que terão de tomar a decisão de que vão querer estar dentro ou fora.
Os gregos estão cada vez menos acompanhados. Aliás, um recente estudo da Emnid, uma empresa alemã de estudos de mercado, citada pelo El economista, revelava que um pouco mais de metade dos alemães considerava que a Grécia deveria voltar ao dracma, e apenas um terço opinava em sentido contrário, ou seja, que a Grécia se deveria manter no euro. Os alemães estão sintonizados com o Governo de Angela Merkel e, por isso, 80% opõe-se a autorizar o pacote de resgate, caso o país não aplique as reformas necessárias e exigidas pelos líderes europeus. A Grécia, entretanto, anunciou que iria cortar 15 mil postos de trabalho na função pública este ano, uma informação insuficiente para convencer os europeus, que querem verdadeiras medidas de austeridade, caso do corte dos subsídios de férias e a redução do salário mínimo.
Sem medidas drásticas, a Zona Euro não irá aprovar um segundo pacote de 130 mil milhões de euros, depois de ter aprovado o anterior, no montante de 110 mil milhões de euros, e aceitar "voluntariamente", incluindo os credores privados, um perdão equivalente a 70% da primeira ajuda.
A Grécia, entretanto, está debaixo de uma greve geral. Informações de agências noticiosas indicam que esta greve teve menos adesão do que a anterior. À hora de fecho desta edição, ainda não era conhecido o resultado da reunião de Lucas Papademos, o chefe do Governo helénico, com os líderes dos três partidos que integram a coligação. Ontem decorriam as negociações com a Troika, enquanto, numa outra frente, o primeiro-ministro grego negociava com o representante dos bancos no sentido de estes perderem, pelo menos, metade da dívida. Citada pela Lusa, Angela Merkel considerou ontem ser "possível" que as negociações na Grécia sobre um novo pacote de austeridade para combater a crise da dívida soberana estejam concluídas nesta quinta-feira. Nesse mesmo dia, está previsto que os ministros das Finanças do Eurogrupo se reúnam em Bruxelas, após a conclusão das negociações com o Governo de Atenas. A Grécia precisa de concluir a negociação esta semana, não apenas para abrir portas para um novo resgate, mas também para obter uma parcela de 14,5 mil milhões de euros, referente à primeira ajuda, já que tem de refinanciar fundos até 20 de março próximo. O Governo grego deverá anunciar, ainda hoje, um novo conjunto de medidas de contenção que são exigidas pela União Europeia para poder continuar a receber a ajuda externa.
Euro sobe
Entretanto, o euro está em alta, animado pela expectativa de acordo com a Grécia. Ontem, o crosse euro/dólar estava nos 1,32 US dólares, beneficiando das expectativas de acordo para esta semana. O conjunto de novas medidas de austeridade e de reforço daquelas que já tinham sido negociadas é um pré-requisito para que as reuniões corram bem entre os líderes políticos da UE e o Governo grego.
Os líderes europeus já estão a ficar impacientes. Nicolas Sarkozy já disse querer a situação grega resolvida de uma vez por todas. Citado pela Bloomberg, apelou à urgência. Merkel disse, por seu lado, que não encaixa a ideia da Grécia abandonar o euro, mas pressionou com a afirmação de que "o tempo está a esgotar-se". Adiantou que deve ser criada uma conta separada para assegurar o pagamento dos juros aos credores. Olli Rehn, o comissário europeu, também mostrou impaciência e frisou que a resposta tem de ser dada por Atenas, já que a Zona Euro fez tudo o que havia a fazer.