A transferência dos fundos de pensões para a segurança social teve um impacto muito forte nos prejuízos do Millennium, BPI e BES. A exposição à Grécia foi dramática para o BPI e o BCP. No entanto, o esforço de capitalização dos bancos fez com que estejam ao melhor nível de sempre em termos de solvabilidade. Os depositantes estão a corresponder à expetativa, com o aforro a crescer rapidamente.
O Millennium bcp registou um prejuízo de 786 milhões de euros, seguido do BPI, com um resultado negativo de 203,9 milhões, e do BES, com 108,8 milhões de euros. O Santander, por outro lado, conseguiu um lucro de 64,1 milhões de euros, piorando face aos lucros de 439,6 milhões de euros de 2010.
No BCP, os fatores extraordinários ascenderam a 972 milhões de euros, a grande fatia dos quais devido às imparidades relacionadas com a Grécia. O core tier 1 do BCP atingiu, no ano passado, o valor mais elevado de sempre, nos 9,4%, "o dobro do que tinha quando começou a crise", frisou o presidente Santos Ferreira, durante a apresentação das contas. No final de 2010, o core tier 1 do BCP era de 6,7%.
O BES revelou um prejuízo de 108,8 milhões de euros em 2001, com origem na atividade doméstica. O prejuízo de 108,8 milhões de euros em 2011 contrasta com o lucro de 556,9 milhões de euros, registado em 2010, uma queda que o banco liderado por Ricardo Salgado atribui ao desenvolvimento do processo de desalavancagem financeira, ao reforço das imparidades e à contabilização de encargos de natureza extraordinária no total de 378,3 milhões de euros. A fraca rendibilidade no BES Vida e a transferência do aforro de seguros para os depósitos a prazo tiveram influência. O BES adianta que, "excluindo os factos de natureza não recorrente, o resultado teria sido positivo em 166,6 milhões de euros".
O BPI apresentou um resultado líquido negativo de 204 milhões de euros, valor que compara com o lucro de 184,8 milhões de euros alcançado em 2010. O banco atribui este prejuízo, "sobretudo, (...) ao impacto de imparidades resultantes da exposição à dívida grega (339 milhões de euros negativos) e da transferência do fundo de pensões para a Segurança Social (71 milhões de euros negativos)".
No BCP a imparidade relacionada com a dívida pública grega, calculada com base num "hair cut" de 65%, ascendeu a 346 milhões de euros. Já o goodwill da Grécia custou 147 milhões de euros, enquanto o market to market da dívida pública portuguesa impactou em 91 milhões de euros. O banco registou ainda 271 milhões de euros em imparidades definidas pelo Programa Especial de Inspeção (SIP da Troika). Quanto à transferência do fundo de pensões para a Segurança Social, a mesma teve um custo de 117 milhões de euros. Os recursos de balanço de clientes aumentaram 3,3% para 53 060 milhões de euros a 31 de dezembro de 2011, "potenciados pelos depósitos de clientes", avançou a instituição. Os depósitos de clientes aumentaram 4,2%, para 47 516 milhões de euros. A carteira de crédito desceu 6,4% para 71 533 milhões de euros, com o rácio de transformação de depósitos em crédito evoluiu favoravelmente para 145% no final do ano passado (há um ano era de 164%).
O rácio de crédito vencido há mais de 90 dias ficou nos 4,5%, "traduzindo a atual envolvente económico-financeira", explicou o banco, e o rácio de cobertura situou-se em 109,1%. A margem financeira cresceu para 1579,3 milhões de euros, enquanto os custos operacionais subiram para 1634,2 milhões de euros.
Ajuda pública
O BCP adiantou que, a 20 de janeiro, quando entregou o seu plano de recapitalização ao Banco de Portugal, já se previa a necessidade de utilização de dinheiro do Estado para se recapitalizar. O BCP diz ainda que tem recebido "manifestações que permitem contar com a participação de investidores de referência em futuro aumento do seu capital". O BCP torna-se, assim, o primeiro banco português a pedir oficialmente o apoio estatal para se recapitalizar, que será fornecido através dos 12 mil milhões de euros reservados do empréstimo da Troika a Portugal, no âmbito do Programa de Assistência Económica e Financeira, especificamente para a recapitalização da banca nacional.
Entretanto, Santos Ferreira, o ainda presidente do BCP (que será substituído por Nuno Amado depois da AG de final de fevereiro), disse, em conferência com jornalistas, que os depositantes do banco podem manter as suas poupanças na instituição, considerando, por outro lado, que a atual cotação das ações do BCP não reflete o valor do banco. Santos Ferreira revelou que não está a 100% em termos de saúde e que, face à intenção dos acionistas alterarem o modelo de governação do banco, é natural a sua saída da liderança.
Os acionistas defendem a adoção do chamado modelo monista anglo-saxónico, composto por um conselho de administração, compreendendo uma comissão de auditoria e comissão executiva, e a criação de um conselho estratégico internacional, com vista ao desenvolvimento de "uma estratégia de expansão internacional".
BES volta aos lucros
O presidente do BES, Ricardo Salgado, disse que o banco espera regressar aos lucros já no 1.º trimestre deste ano, depois de ter tido prejuízos de 108,8 milhões de euros em 2011. O banco explica o resultado sobretudo com "encargos de natureza extraordinária", como a transferência dos fundos de pensões para a Segurança Social (76 milhões de euros líquido de impostos), perdas no investimento na BES Vida (144 milhões euros líquido de impostos) e prejuízos de 55,4 milhões de euros na venda de créditos internacionais, "necessários para conceder crédito a empresas portuguesas e cumprir com o programa de desalavancagem". Sem estes fatores extraordinários, o banco teria tido lucros de 166,6 milhões de euros, acrescentou.
Aquele prejuízo compara com o lucro de 556,9 milhões de euros, registado em 2010, uma queda que o banco liderado por Ricardo Salgado atribui ao desenvolvimento do processo de desalavancagem financeira, ao reforço das imparidades e à contabilização de encargos de natureza extraordinária, no total de 378,3 milhões de euros. No comunicado ao regulador do mercado, o banco ressalva que a solidez financeira foi reforçada: o rácio Core Tier I passou para 9,2%.
O presidente do BES, Ricardo Salgado, disse: "Os resultados não foram nada brilhantes, mas também não foram maus de todo". O BES não vai recorrer à linha de recapitalização pública de 12 mil milhões de euros, estando a preparar um aumento de capital na holding que controla o BES, adiantou o presidente do banco.
"Quanto a recorrer à linha do Estado, o BES tinha, no fim de 2011, um rácio core tier 1 de 9,2%, o ajustamento que temos de fazer até junho é módico, não contamos recorrer à linha do Estado", afirmou o presidente do BES.
Ricardo Salgado disse ainda que o Estado português vai comprar ao BES cerca de 500 milhões de euros em créditos a empresas públicas este ano. Na quinta-feira, o BPI tinha anunciado que o Estado lhe vai comprar 700 milhões de euros em créditos ao setor público, sendo estes empréstimos a empresas públicas e a autarquias.
BES na China
Ricardo Salgado disse ainda, na conferência com jornalistas, que os bancos vão iniciar road shows após as apresentações de resultados. Adiantou que essas ações serão importantes para convencer os mercados do "bom" trabalho que está a ser feito.
Disse: "Portugal está fazer bem o seu trabalho, mas ainda não é reconhecido. E as estatísticas oficiais demoram tempo sair, o défice de 2011 só será conhecido em março". O banqueiro considerou que a viagem que o ministro das Finanças fez esta semana a Londres "foi positiva" e afirmou que os road shows que os bancos vão iniciar servirão não só para afirmar a sua solidez junto dos investidores (apesar dos resultados negativos de 2011) como para demonstrar a eficácia do programa de ajustamento que está a ser levado a cabo pelo Governo.
Quanto ao BES, espera regressar aos mercados em 2013, acrescentou Amílcar Pires, administrador financeiro do banco. Para isso, adiantou Salgado, o banco espera "diversificar mercados", indo "além dos tradicionais", e já está a terminar a avaliação de rating da chinesa Dagong, de modo a "explorar" os mercados asiáticos. Até lá, o banco quer começar a reduzir a dependência do BCE, aumentar os depósitos e abrandar a concessão de crédito.
Ainda assim, o banqueiro sublinhou que o crédito a empresas, que em 2011 caiu 3,1%, subiu 2% se excluído o efeito da venda de créditos internacionais. Além disso, acrescentou, o crédito a empresas exportadoras avançou 12%.
Salgado referiu ainda o rácio de transformação de depósitos em crédito, que no banco ficou em 141% em dezembro, afirmando que tem "esperança" que "possam ser atenuados" os 120% que os bancos têm de atingir em 2014.
Por seu lado, o Santander Totta obteve um lucro de 64,1 milhões de euros o ano passado, menos 85,4% do que em relação a 2010, quando foi de 439,6 milhões de euros.
António Vieira Monteiro, o novo presidente executivo do banco que substitui Nuno Amado, estreou-se na apresentação dos resultados do Santander Totta em Lisboa, referindo que, para as contas, contribuíram a venda de créditos e títulos realizados no início do ano por 2,5 mil milhões de euros, bem como o reforço de imparidades e provisões de crédito.
Segundo António Vieira Monteiro, a conta de resultados "reflete a opção estratégica de privilegiar a solidez do balanço, a qualidade dos ativos e a redução da posição junto do Banco Central Europeu, continuando a gerar rentabilidade positiva".
No comunicado distribuído na conferência de imprensa, o banco refere que teria apresentado um lucro de 144,9 milhões, menos 60,2% que em 2010, se não fossem os efeitos recorrentes, que prejudicaram as contas.
No seu balanço, o Santander revelou que, durante 2010, houve um aumento dos depósitos em 12,1% e uma redução do crédito em 12,6%, "em linha com os objetivos de desalavancagem", refere o comunicado.
Em termos de rácios de solidez e solvabilidade, o Santander fechou o ano com um core capital de 11,2% e um core tier 1 de 11,7%, muito acima do que é exigido que os bancos tenham no final de 2012 pelas autoridades bancárias e pela Troika. O banco fez, em 2011, um grande esforço de desalavancagem no rácio de transformação, passando de 189,5% em 2010, para 139,5% o ano passado.