Até agora, só se falava em perdas com a eventual saída da Grécia do euro. Analistas e políticos admitiram-no. Portugal poderia ser afetado, assim como toda a confiança na estrutura da União Europeia. Há "fumo branco" com o acordo político na coligação grega e passou a falar-se de ganhos e de vencedores.
Os juros da dívida portuguesa estiveram em queda acentuada na sessão de ontem, as bolsas subiram rapidamente, tanto as europeias como a de Nova Iorque, e até o petróleo reagiu em alta. Os analistas ligam estes efeitos positivos ao acordo do Governo grego e ao desbloquear político da situação.
Assumidamente, Portugal ganha com o acordo grego. Os investidores passaram rapidamente a exigir um prémio menor pelo investimento em dívida soberana nacional. Os juros da dívida, que vinham com tendência de queda, associada às intervenções do Banco Central Europeu (BCE), revelaram uma descida muito rápida, sobretudo no médio prazo, concretamente nos dois anos. A yield nesta maturidade registava, ontem, uma quebra de mais de 100 pontos de base, depois de terem atingido máximos há duas semanas. Teoricamente, os investidores estão menos receosos de que o país necessitaria de uma novo pacote de ajuda ou que necessitará de reestrutura a dívida. A yield a dois anos recuava cerca de 104 pontos a meio do dia, para os 15,28%, enquanto os três anos caiam ligeiramente para os 17,44%, e nos 10 anos, o recuo era de apenas 22 pontos, para os 13,31%. Nos cinco anos, verificava-se uma ligeira subida para os 17%. Só para se ter um comparativo com o benchmark da yield a dois anos na Alemanha, esta situava-se nos 0,236% e França, que sofreu um downgrade, tinha uma yield a dois anos de 0,553%.
Também os juros gregos iniciaram uma importante queda, de acordo com dados da Bloomberg. Nos dois anos, a yield caia 150 pontos de base para os 182%.
A ganhar com o acordo na Grécia esteve também a moeda única. O euro apreciava ontem 0,58%, para os 1,3206 dólares, quando ainda não eram conhecidos os contornos do acordo grego e ainda não tinha fechado o encontro de Paris entre autoridades gregas e a banca privada. A expectativa é a de que o conjunto de medidas que Atenas irá apresentar ainda esta semana aos líderes europeus seja suficiente para avançar com um novo pacote de ajuda e desbloquear a parcela do primeiro empréstimo, que deverá cobrir uma necessidade de 14,5 mil milhões de euros a 20 de março. A divida europeia ganhou espaço relativamente ao dólar e ao iene. Entretanto, ao final da tarde, o ministro grego das finanças anunciava, em Bruxelas que o país tinha chegado a acordo com os credores privados sobre a redução da dívida soberana e pedia a "aprovação política" deste acordo por via do Eurogrupo. Citado pela Lusa, Evangelos Venizelos afirmou: "Depois de um longo e difícil período de negociações, finalmente temos um acordo com a Troika para um novo, forte e credível programa (de ajustamento económico). Temos também um acordo com os credores privados.
Entretanto o comissário dos Assuntos Económicos disse que a Grécia tem de convencer os seus parceiros da Zona Euro de que vai efetivamente adotar as medidas necessárias para beneficiar de um novo programa de ajuda. Olli Rehn disse, à entrada da reunião do Eurogrupo: "Cabe agora, ao Governo e ao parlamento da Grécia, convencer os seus parceiros europeus, através de compromissos fortes e ações concretas, em termos de assegurar a consolidação orçamental e as reformas estruturais".
Aliás, a perda de força do dólar levou à subida da matéria-prima petróleo, que se transaciona naquela moeda. Analistas afirmam que, para além da questão cambial (relevante, porque os ativos denominados em dólares tornam-se mais apelativos para os investidores), também o tema Grécia impulsionou o preço do crude, que, em Londres, chegou aos 117 USD/barril. Claro que, nesta "commoditie", as compras da Ásia têm sido relevantes, com destaque para a China e Índia, que têm contribuído para que as vendas para esta região do mundo tenham atingido o volume mais elevado dos últimos oito anos.
Os mercados financeiros também evoluíram animados e Wall Street registou uma subida apreciável, ao nível do índice S&P 500. As ações norte-americanas abriram ontem animadas, depois de terem passado por um ciclo positivo. A resolução da crise grega permitiu a continuação da "onda" positiva.
O programa grego
O acordo entre os partidos da coligação grega era essencial para que a Troika pudesse continuar a trabalhar num novo programa de ajuda da ordem dos 130 mil milhões de euros, a par de um programa de perdão de uma parte significativa do empréstimo de 2010, e que poderá atingir os 100 mil milhões de euros, equivalente a 70% do total do programa.
O volume global do défice grego em percentagem do PIB andará pelos 350 mil milhões de euros, ou seja, 160% do PIB, um nível insustentável. O objetivo com a racionalização dos gastos públicos e o perdão da dívida é trazer aquele mesmo rácio para os 120% em 2020. No pacote de acordo da coligação grega está um conjunto de poupanças da ordem dos três mil milhões de euros, que inclui a redução em 20% do salário mínimo nacional, nos 751 euros/mês, e ainda no despedimento de 15 mil funcionários públicos.
Entre as dúvidas que se mantinham ontem estava a envolvência do BCE no processo. Mario Draghi, o presidente da instituição, recusou-se a confirmar ou a infirmar as informações de véspera da comunicação social, onde se dava eco da possibilidade de o BCE aceitar não cobrar juros e o valor global do cupão da dívida pública grega que foi adquirindo. Isto significaria uma poupança elevada para aquele país e também poderia ser um "drive" para que Portugal solicitasse o mesmo benefício, aliviando o país no pagamento de parte da dívida. O BCE detém cerca de 11 mil milhões de euros de dívida nacional e que foram adquiridas a desconto no mercado secundário.
O modelo que a comunicação social tem avançado para o envolvimento do BCE passaria pela venda dos cerca de 40 mil milhões de euros de dívida grega que tem em seu poder ao fundo de estabilização europeu, o FEEF ao preço de aquisição, sem direito ao valor global do cupão e sem juros. O BCE, recorde-se, não pode fazer financiamento direto aos Estados. Mario Draghi tem dito que, se avançar com dinheiro ou se assumir perdas, isso equivale a financiamento monetário. Analistas vão mais longe e afirmam que o BCE tem margem para aceitar perda no valor das obrigações gregas sem que isso signifique uma perda efetiva, dado que comprou a desconto. O perdão não poderá ser superior ao desconto, o que significa que registará perdas meramente contabilísticas. A operação de novo resgate passa pela troca de obrigações antigas pelas novas, com o novo valor aceite pelos credores. Recorde-se que Angel Gurria, o secretário-geral da OCDE, já se tinha mostrado aberto a que o BCE registasse perdas, desde que com isso ajudasse a Grécia.
A reunião do Eurogrupo estava ontem a decorrer e não eram conhecidos os resultados à hora de fecho desta edição, mas a expectativa era de que seria aprovado um segundo resgate à Grécia no montante de 130 mil milhões de euros, depois das declarações do ministro grego. A agência de notação financeira Standard & Poor's (S&P) voltou à carga e ameaçou considerar que, mesmo depois do perdão, o montante de dívida pública grega continuava a ser impossível de pagar. Frank Gill, responsável pela gestão das notações da dívida soberana europeia, mostrava-se céptico quando à viabilidade da operação, considerando que a componente de dívida que será perdoada é "reduzida". A Grécia poderá sofrer um novo downgrade para "SD", o que significa incumprimento seletivo com a dívida reestruturada.