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Os valores e a Gestão do Instante – Do Desporto para a Sociedade

25/07/12, 00:40
Filipe Castro Soeiro, professor convidado da NOVA School of Business and Economicse membro do Board of Directors da APBA - Associação Portuguesa de Business Angels

A otimização da tomada de decisão pode ser estimulada não só pela nossa experiência, pela nossa capacidade de aprendizagem com os próprios erros e com erros dos outros, ou por meio da catálise e da transferência de processos de aprendizagem aplicada a múltiplos contextos, mas também pela nossa abertura a situações novas, pela criatividade e pela capacidade de gerir o instante.  


Recentemente, o "Financial Times" publicou, pela mão de Frank Partnoy, professor de Direito e de Finanças da Universidade de San Diego e autor de vários bestsellers, o último intitulado "WAIT: The Art and Science of Delay", um artigo intitulado "Waiting Game", que sublinhava que a análise dos melhores jogadores de ténis do mundo em Wimbledon podia ajudar-nos a tomar melhores decisões nas nossas vidas. Para Federer, Djokovik, ou Nadal, o processo de controlo das variáveis para a otimização da tomada de decisão visando o aumento da probabilidade de obtenção êxito não é de todo indiferente.

Por exemplo, a concentração, o foco aplicado a um gesto técnico, os recursos energéticos despendidos, a capacidade de instantaneamente criar a melhor solução são levados a um patamar próximo do ótimo! Estas explicações são também válidas quando consideramos, como exemplo, o futebol e observamos Leonel Messi ou Cristiano Ronaldo, ou no karate, com o campeão do mundo italiano Luca Valdesi.  

A otimização dos processos de aprendizagem é a chave! As reações químicas suportam esses processos. A catálise é a mudança de velocidade de uma reação química devido à ação de uma substância, o catalisador, que participa na reação, mas que não é consumida e, por isso, não se transforma em produto no final da reação. Os catalisadores, neste caso, aumentam a velocidade de aprendizagem e a probabilidade de êxito. Tal como na gestão ou na inovação social, fatores como a concentração, o foco associado aos objetivos e a criatividade são críticos. Os catalisadores agem quimicamente provocando um novo caminho reacional com menor energia de ativação.  

Os fatores que reduzem a velocidade das reações chamam-se inibidores. O stress pode funcionar como um inibidor da tomada de decisão ou concorrer até para o seu erro. Quer isto dizer que decisões mais rápidas são melhores? Não necessariamente. Por vezes, muito pelo contrário. Os melhores atletas sabem quando têm que fazer uma pausa, mesmo que apenas por uma fração de segundo, antes de decidir. O início do processo caracteriza-se por não-decisões em velocidades mais lentas. O super atleta observa primeiro, processa e mapeia em termos funcionais, utilizando o menor número possível de recursos e atua no último momento possível. Este processo de procrastinação é contextualizado exemplarmente, no karate do, pelo estado de equilíbrio entre a distância espacial (maai) e a cadência e o ritmo (hyoshi) entre dois atletas, durante o qual a consciência está desfasada do movimento físico e é possível, por antecipação temporal, tomar a decisão (yomi).

Há uma arte e uma ciência para a gestão do atraso (apenas alguns milissegundos) e depois e para a antecipação. Essa é, de facto, a gestão instantânea. Mas, pode o contexto afetar o decisor e o processo de aprendizagem? E que lições se podem levar de um contexto para outro? Pode o investigador, o empreendedor, ou o gestor aprender com o atleta? E podem todos aprender uns com os outros durante uma negociação, jogo ou uma competição? Claro que sim.  

O professor Giacomo Rizzolatti, do departamento de Neurociências da Universidade de Parma, ilustra esse processo de aprendizagem através dos neurónios-espelho, segundo o qual estes participam, por simples observação, na compreensão sobre como as ações são executadas e quais os motivos ou valores que as suportam. Essas ações podem ser físicas (nos movimentos de uma modalidade desportiva), podem estar associadas ao discurso (na aprendizagem da fala) ou até associados à compreensão das intenções das ações dos outros (no caso do autismo).

Seja qual for o contexto, as experiências podem ter um efeito de soma e, além disso, é possível aprender de modo contínuo e estruturado com um parceiro durante um processo interativo. Há, contudo, uma premissa - é necessário que esse contexto esteja associado a um referencial de valores. Sem esse referencial, todo o processo perde eficácia e eficiência porque torna indiferente ou neutro o julgamento da decisão.  

O desafio que se coloca é, pois, aplicar estes modelos dinâmicos de aprendizagem aos múltiplos contextos - alguns deles em situação limite - da nossa sociedade de modo a promover uma melhoria contínua sobre nós próprios. Dá que pensar antes de agir, não?  
 
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