Paranoika ![]() 29/11/11, 00:10 Como a um esquizofrénico em pleno momento de lucidez, as premissas da realidade das nossas finanças públicas aparecem agora perturbadoramente límpidas. Sempre as conhecemos, mas o distúrbio mental sistemático das últimas décadas - agravado pela crise internacional - alterou a percepção da realidade e impediu a sua valorização. Percebida a causa do transtorno delirante, vemos, finalmente, sem psicose, o diagnóstico cristalino: a despesa a cargo do Estado vai sendo progressivamente superior à receita. Por isso, e para solver compromissos, endividámo-nos. E hoje, deprimidos, pagamos a conta dos juros que acrescem à nossa despesa. Ao mesmo tempo, dizem os números, não produzimos, não criamos riqueza e não somos competitivos. O tratamento passa por cortar na despesa onde ela pesa mais - segurança social, aposentações, saúde e educação - e por gerar receitas com recurso aos impostos. Ao contrário de outras nações, resulta claro, não soubemos manter a sanidade das contas do Estado Social. Na melancolia da actual austeridade, há que criar condições para investir, criar emprego e produzir. Há ainda que envergar, aviltantemente, o colete de forças (modelo Memorandum) que temos vestido - isto se queremos ver transferida, da Europa, a medicação anti-psicótica que nos permite suportar este estado das finanças. Num contexto de dificuldade de acesso ao crédito e de fragilidade mental do euro, as tarefas implicam, no mínimo, uma capacidade bipolar para produzir um equilíbrio entre a insanidade do corte a direito e a criatividade geradora de riqueza. Hoje, o estado mental do doente é inequívoco e evidente para todos. O esforço que tem sido feito nos primeiros socorros é meritório e deve ser apreciado. Ainda assim, dizem muitos observadores, o estado actual das finanças públicas e da economia não deve ser respaldo para a programação de lobotomias há muito em desuso. A prática clínica liberal, castigadora de maus hábitos, crente nos efeitos da regeneração da psique colectiva, não deve recorrer a terapias que deprimam de morte os investidores, os consumidores e... os cidadãos. Fazer mais do que o que é exigido, não negociando prazos, impondo mais trabalho - e não melhor trabalho -, criando impostos encapotados, cortando a alguns e não a todos, sabemos, obviamente, que não trará a cura. E não queremos que resulte no internamento do catatónico doente. O que se espera é ciência e não um milagre. O que esperamos, com o tempo, são reformas e a racionalização da despesa. Não o renascimento a partir de cinzas. ![]() ![]() |