A ComuniDária e a cidadania plena ![]() 11/05/10, 01:00 "Empreendedoras, trabalhadoras, mães que trazem ou deixam os seus filhos nos países de origem, geram novas necessidades que vão além dos aspectos económicos, merecendo também atenção nos âmbitos da saúde e educação, sem falar do reflexo e das mudanças geradas no estilo de vida nos países de origem". A complexidade dos papéis e o desafio que as mulheres imigrantes procuram concretizar no novo país de destino deu origem à criação de uma organização sem fins lucrativos que visa alertar e ajudar a ultrapassar inúmeras situações críticas de que é vítima este grupo Chama-se ComuniDária e o nome pretende ser uma junção entre comunidade e solidariedade e, como explica a sua fundadora, Magdala de Gusmão "a ComuniDária nascia feminina e com D maiúsculo, apelando a um novo conceito de comunidade ou simplesmente lembrando o conceito real de comunidade". Tendo como missão intervir na promoção da inserção social e laboral da população em risco de exclusão social, nomeadamente imigrantes e minorias étnicas, através de medidas preventivas, de sensibilização, consciencialização, educativas e culturais na busca de uma cidadania plena e sustentável, a ComuniDária nasceu há cerca de dois anos e é um dos projectos actualmente cotados na Bolsa de Valores Sociais (BVS). Tem como pano de fundo o projecto Cidadania Plena, que é explicado, pela sua fundadora, como uma tentativa de responder a uma nova realidade, urbana e globalizada, gerada pela actual tendência dos fluxos migratórios nos países do sul da Europa, especificamente Portugal e Espanha. Contudo, a ComuniDária possui um público-alvo específico: as mulheres imigrantes. E porquê? "A mulher passou a representar a maioria no perfil imigrante de algumas nacionalidades, como o Brasil e alguns países africanos mas, em conjunto com a feminização da imigração, existe também a feminização da pobreza", esclarece Magdala. Traçando o perfil desta imigração no feminino, "são mulheres com ou sem filhos, ‘doutoras' ou não, mulheres em idade economicamente activa mas, especialmente, que vêm desacompanhadas e que já não imigram apenas pelo reagrupamento familiar". Desta forma, os objectivos principais da ComuniDária são "poder colaborar com a cidadania plena e efectiva da pessoa imigrante que já reside em Portugal, contribuindo, desta forma, com o desenvolvimento humano, reduzindo a desigualdade entre os de cá e os de lá e colaborando com a integração efectiva e não periférica destes colectivos", esclarece a responsável, ela própria com experiência das realidades que agora se transformaram no seu projecto de vida. Há cinco anos na Europa, Magdala de Gusmão veio do Brasil para Portugal, passou igualmente por Espanha, onde realizou um curso de especialização na Universidade Complutense de Madrid e desenvolveu um projecto independente sobre a mobilidade social e laboral das mulheres estrangeiras residentes naquela cidade. De regresso a Portugal, decidiu iniciar o projecto, atendendo mulheres estrangeiras em situações críticas e tendo contado, inicialmente, apenas com os apoios de duas paróquias, que cederam as salas para o atendimento e a formação de grupos de trabalho. Para já, a organização sem fins lucrativos conta com uma página na rede social Facebook que serve, diariamente, para divulgar diversos materiais sobre a temática da pessoa imigrante: quizzes, vídeos anti-discriminação, reportagens, música de outras culturas, entre outros. No terreno e como explica Magdala de Gusmão, "lançámos há três semanas um curso de dois meses em alfabetização digital, que visa instrumentalizar cada mulher no uso da Internet e nas plataformas disponíveis para a cidadania em Portugal, criámos um módulo em cidadania imigrante no qual orientamos sobre a lei da empregada doméstica como principal foco e, à mulher não imigrante, mostramos também alguns preconceitos que são construídos por grande parte dos media e também o que não se pode fazer ao contratar uma empregada imigrante". Tudo com vista a incentivar à contratação ética e à construção de uma comunidade mais solidária e justa. A ComuniDária organiza igualmente palestras com grupos informais de imigrantes, tem sempre como tema a cidadania plena e "apresenta, de uma forma objectiva, o resumo de algumas leis que têm um efeito directo na cidadania de qualquer imigrante". No que respeita a ser um dos projectos cotados na ainda recente Bolsa de Valores Sociais, Magdala afirma que tal significa "o reconhecimento do nosso trabalho, a grande abertura institucional da ComuniDária em Portugal, com a ‘cara que realmente temos': a do empreendedorismo social que visa realmente a transformação da sociedade com a participação do outro, e também um aumento da nossa responsabilidade e compromisso com cada investidor, a par da qualidade e continuidade das nossas acções na sociedade como um todo". Quando questionada sobre os principais problemas das minorias étnicas em Portugal, Magdala de Gusmão não hesita em responder: "a presença da discriminação de género e nacionalidade associada principalmente a alguns colectivos e, como maior exemplo, considero a mulher brasileira, vítima, ironicamente, da sua própria expressão cultural". ![]() ![]() |