Sustentabilidade: Arrábida e turismo de qualidade: será possível? ![]() 12/07/11, 12:48 Por Pedro Vieira* Candidata a património da humanidade e detentora de uma beleza ímpar, talvez só encontrada nas mais remotas ilhas gregas, a Serra da Arrábida, parte integrante do Parque Natural da Arrábida (PNA), é provavelmente a jóia da coroa dos parques naturais portugueses mais subaproveitada e ameaçada.
Haverá condições instaladas para integrar os roteiros turísticos de natureza associados a elevados parâmetros de qualidade tão necessários e desejados? A resposta imediata é, seguramente, não. A longo prazo, depende dos investimentos planeados, mas, sobretudo, da mudança radical de mentalidades e atitudes no enorme labirinto de organismos públicos que tutelam esta zona. O PNA abrange mais de 10 mil hectares espartilhados entre os limites do caos urbano de Sesimbra e as industrializadas cidades de Setúbal e Palmela onde, com raras excepções, o investimento em turismo de qualidade, infelizmente, ainda não abunda. A falta de planeamento estratégico é assustadora, começando pela desorganização imobiliária nas faldas do parque, passando pelas gigantescas pedreiras e enorme cimenteira em plena laboração, acabando na falta de simples caixotes de lixo. A vegetação mediterrânica que alberga matas de reserva integral está em estado de abandono, com zonas impenetráveis pelo crescimento desmesurado de mato onde já não restam trilhos utilizáveis para a prática de pedestrianismo, fonte de forte atracção turística em parques idênticos à volta do globo. O trânsito caótico nos acessos às praias não ajuda e os desajustados apoios de praia dignos de uma Costa da Caparica dos anos 70, são mais uma grave falha causada pelo atraso na implementação do Plano de Ordenamento da Orla Costeira, aprovado pela Assembleia da República em 2003! Plano esse que não prevê reposição de areias numa costa que tem como ex-líbris o Portinho da Arrábida, considerado a praia das 7 Maravilhas Naturais de Portugal, mas que se encontra quase sem areia devido a uma acelerada erosão costeira. A prática da náutica de recreio ordenada, que representa uma atracção turística importante em zonas de parques marinhos, está aqui praticamente abafada por imposições desajustadas da realidade local. Por último, a escassíssima oferta hoteleira de qualidade na região (Tróia pertence ao distrito de Grândola) afastam seguramente quaisquer estadias de relevo. Perante este negro cenário, haverá esperança de um futuro sustentável apoiado em turismo de qualidade, alicerçado sobre o que a natureza da Arrábida tem para oferecer? Tenhamos fé em que as várias entidades envolvidas na candidatura a património da humanidade assim o consigam com sucesso.
*Presidente do Clube da Arrábida ![]() ![]() |