Bernardo Sá Nogueira: "Servimos de ponte de ligação entre a universidade e a empresa" ![]() 15/03/11, 11:32 A citação é do director-geral do portal Universia, a grande aposta de responsabilidade social corporativa do Banco Santander. Em entrevista, Bernardo Sá Nogueira traça o percurso desta rede que chega já a 14 milhões de estudantes e professores. E, com uma aposta premente no Emprego, avança a criação de uma nova plataforma que irá reunir universidades e empresas e "criar uma oportunidade única de melhorar o mercado de emprego em Portugal".
Como e quando surgiu a rede Universia e por que motivo a aposta no espaço ibero-americano? A Universia inicia a sua actividade em 2001 e é uma aposta clara por parte do Presidente do Banco Santander, na qual opta por eleger o ensino superior em termos de responsabilidade social corporativa. Com uma presença fortíssima na América do Sul e ao lidar com países com uma disparidade social muito visível, para além da questão do retorno à comunidade, existe uma vontade, de certa forma "egoísta", que preconiza também o objectivo de crescer com a comunidade. E a melhor forma de se ajudar uma comunidade a evoluir de forma positiva é, obviamente, através da educação e das ferramentas que possamos disponibilizar para que esta cresça e se eduque. E é assim que nasce o Universia, que pretende apostar nas universidades, através de uma plataforma online, para poder partilhar conhecimento, conteúdos e informação. Em suma, para contribuir para o crescimento dessas classes socialmente desfavorecidas.
Com uma comunidade que integra mais de 1200 universidades, de 23 países distintos e que chega a 14 milhões de estudantes e professores, como se gere todo este manancial de informação, culturas distintas e relacionamentos de cariz internacional? A forma como conseguimos fazê-lo é, obviamente, devido ao facto de termos uma plataforma online. Através da criação de uma rede global de partilha de informação é possível facilitar tudo o que é intercâmbio de ideias ou partilha de conteúdos, de uma forma organizada e eficaz, em que é possível fazer downloads e uploads. A aposta em conteúdos de qualidade nas parcerias com terceiros - seja ao nível da educação ou das empresas - permite-nos manter os conteúdos frescos e interessantes para a comunidade académica. A título de exemplo, posso focar a parceria com o MIT, através a plataforma OpenCourseWare, que visa a partilha de material docente entre professores. Outro exemplo de parceria, em termos de informação de gestão e economia, é a que estabelecemos com a Wharton School of Management.
Um dos objectivos da rede Universia é apoiar as universidades no desenvolvimento de novos projectos. Que tipo de apoio é mais comum e que projectos são possíveis eleger nesta área? Servimos, sobretudo, de ponte de ligação entre a universidade e a empresa. Ao estarmos associados a um grande grupo económico, temos o conhecimento de como funciona uma empresa. Por outro lado, o facto de termos esta ligação com as universidades permite conhecê-las bem por dentro. E é nesta dualidade que reside a nossa mais-valia: juntar as duas partes. Se hoje temos 1000 universidades sócias, por que motivo não teremos, no futuro, 1000 empresas associadas a este projecto? O nosso futuro passa, a meu ver, por multiplicar este potencial. É unir ambos os lados e desenvolver projectos e iniciativas, que respondam e juntem os seus interesses. Tanto as universidades como as empresas têm regras e costumes diferentes entre si. Portanto e conhecendo as duas realidades, podemos servir como esse elo de ligação de uma forma privilegiada.
É costume afirmar-se que em Portugal, e ao contrário, por exemplo, do que se passa nos Estados Unidos, as universidades e as empresas constituem-se ainda e em muitos casos como espaços sem ligação entre si. De que formas é que a Rede Universia contribui para este estreitar de relações? As universidades nos Estados Unidos são geridas muito mais como empresas do que em Portugal. Têm fundos próprios, têm uma gestão e o facto de a própria universidade ter uma cultura empresarial, ajuda à aproximação das empresas e promove um entendimento mais útil. Mas em Portugal já se verifica que as empresas têm um crescente interesse em comunicar com os alunos e com as universidades. E, sendo por vezes complicado, nós conseguimos alavancar esse contacto com determinados projectos. O mais óbvio, por exemplo, é a área do Emprego: através de uma plataforma de emprego, que cria uma mais-valia para empresa, para a universidade e obviamente, para o estudante. E este é um eixo estratégico do Universia, sendo a Bolsa Virtual de Emprego, claramente, um exemplo disso. E depois existem outros projectos.
Está a referir-se ao Innoversia? Exactamente. O Innoversia é um portal especialmente criado para fazer a ligação entre as empresas, as suas necessidades de inovação tecnológica e os investigadores ibero-americanos. No Innoversia, empresas de todo o mundo podem publicar as suas necessidades de desenvolvimento tecnológico e inovação, para que investigadores e cientistas proponham soluções pelas quais podem receber uma remuneração no caso de serem seleccionados. Este portal está a agora a ser criado e desenvolvido em Portugal e vai arrancar ainda este ano.
E no que respeita ao ciclo de conferências que também querem implementar? Sim, uma outra ideia é criar um ciclo de conferências com conteúdos que sejam relevantes para os alunos e onde possa haver um patrocínio por parte de uma empresa. O patrocinador torna a conferência uma realidade, os alunos e as universidades beneficiam dessa experiência e a empresa dá exposição à sua marca junto de uma comunidade que lhe interessa, do ponto de vista institucional. Mais uma vez juntamos três partes e todas ganham. E esta é a nossa filosofia.
Que produtos e serviços são de destacar para o fomento do primeiro emprego e da formação contínua? Destaco essencialmente a Bolsa Virtual de Emprego. Esta iniciativa está a funcionar desde Dezembro de 2007 e é uma feira presencial de emprego em 3D. A plataforma é dirigida essencialmente a estudantes universitários e a jovens profissionais à procura do primeiro emprego, mas também oferece estágios ou part-times. E, há duas edições atrás, criámos também aquilo que chamámos Bolsa Virtual de Emprego e Empreendedorismo. Com as dificuldades existentes para se encontrar um emprego qualificado, muitas vezes a única forma de o conseguir é através da criação do próprio emprego. Assim, a iniciativa de empreendedorismo é também uma área que pretendemos trabalhar e apoiar.
Que resultados podem divulgar relacionados com a Bolsa Virtual de Emprego? Nas sete edições de Bolsa Virtual, tivemos mais de 3,5 milhões de pageviews, mais de 250 mil pessoas passaram por elas e criámos mais de 5500 oportunidades de emprego. E, a partir de finais de 2010, a bolsa passou a estar permanentemente online, apesar de, em termos de comunicação continuarmos, como até então, com dois picos: e aproveitamo-los, por exemplo, para fazer "chats-colóquios" com convidados que, através de uma webcam, respondem a perguntas dos alunos. Este ano contámos com a Laurinda Alves e com o Tiago Forjaz, da rede StarTracker, ou seja, procuramos convidar personalidades que possam falar sobre temas que são relevantes para os jovens.
Um dos projectos que também está em desenvolvimento é um observatório para o futuro da Ciência e do Ensino Superior. Que objectivos tem este projecto e que resultados podem ser já apresentados? O facto de estarmos presentes numa série de países e de sermos imparciais na nossa actividade, permite-nos ter uma visão "helicóptero" da educação não só na Península Ibérica, como na América do Sul. Por exemplo, o Universia organiza, de cinco em cinco anos, encontros de Reitores das universidades que fazem parte da rede. Em 2010, contámos com a organização do Segundo Encontro Internacional de Reitores em Guadalajara, México. Reunimos mais de 1000 universidades representadas ao mais alto nível, com o objectivo de debater os desafios de um mundo globalizado em profunda transformação. E efectivamente, seis meses depois, nascem desta reunião uma série de compromissos: a uniformização de currículos; a abertura de quotas para a transferência de alunos de um sítio para outro; um processo de convergência em termos de estudos e titulações; um sistema de avaliação comum que fomenta a confiança mútua entre os países e um programa para o impulso das redes universitárias de investigação associadas ao desenvolvimento conjunto de projectos, à formação de professores e doutores e à transferência do conhecimento.
Está prevista, para 2011, a construção de uma plataforma que permite melhorar a forma como as universidades trabalham o mercado de trabalho. Que funcionalidades terá essa plataforma? Para além desta ligação empresa-universidade, o emprego é uma plataforma fundamental para nós. Estando já em funcionamento em vários países, em Portugal, o meu objectivo é implementar esta nova plataforma num período máximo de 18 meses. E a ideia é que todas as universidades possam partilhar a mesma plataforma de emprego, sem que percam o controlo da mesma - a plataforma é das universidades e não nossa - mas que permita, automaticamente, uma partilha a nível nacional das ofertas. Adicionalmente, se conseguirmos que as empresas passem a ter apenas um ponto de contacto para colocarem uma oferta que esteja visível em todas as universidades, será muito mais eficaz do que uma empresa ter que falar com X universidades, podendo estar a desperdiçar o talento de outras universidades que têm o mesmo potencial ou até melhor do que as "do costume". Só essa possibilidade permite-nos criar uma oportunidade única de melhorar o mercado de emprego em Portugal. ![]() ![]() |