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"Devemos ajudar os outros com aquilo que sabemos fazer"

11/05/10, 01:00
Por Helena Oliveira

O que têm em comum uma gralha-de-bico-vermelho, um sistema de monitorização remota para crianças com epilepsia, equipamentos de ajuda aos incêndios e praias seguras e com acessibilidades? Na Vodafone, tudo! A história socialmente responsável desta empresa, que atingiu a maioridade, conta-se pelos inúmeros projectos a que se dedica e que, tal como afirma Luísa Pestana, "primam por trazer para o terreno acções e tecnologias concretas que possam ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas".


 


Como é definida, em termos estratégicos, a responsabilidade social da Vodafone?
Tendo feito 18 anos em Outubro de 2009, a Vodafone é uma empresa já com alguma história e que, desde a sua fundação, começou a preocupar-se com a responsabilidade social, uma área que foi sempre acarinhada pelo seu presidente na altura, o Dr. António Carrapatoso. E se, no início, se pautava por uma perspectiva mais expectante, cedo apostámos numa postura mais proactiva, no sentido de começarmos a integrar a Responsabilidade Social em todas as suas vertentes. Algumas actividades que, na altura, estavam dispersas em outras direcções acabaram por ser todas agregadas nesta área, sendo que o nosso departamento de Responsabilidade Social existe já há muitos anos e tem desenvolvido um trabalho importante em diversas áreas de actuação.
Sublinho, igualmente, a criação da Fundação Vodafone há oito anos, e que está organizada de acordo com grandes temas. 


Mas o que privilegia, verdadeiramente, a política socialmente responsável da Vodafone?
A Vodafone, em termos de política de apoios, privilegia o trabalho desenvolvido em parceria com entidades públicas ou privadas credíveis, em detrimento do mero donativo, que obviamente também é importante. Mas a nossa filosofia é que devemos ajudar os outros com aquilo que nós sabemos fazer bem. Como o nosso know-how é muito tecnológico, e também ao nível da gestão de projectos, o que nos move é desenvolver projectos em parceria com entidades governamentais ou não governamentais em que se concretize um projecto que faça sentido para nós, mas que também ajude o nosso parceiro.
A ideia é que, no final do ciclo do projecto que engloba o desenvolvimento, o período de teste, ou seja, o projecto-piloto, exista também tempo para o testar, montar, dar formação, para que o nosso parceiro fique com os meios e as ferramentas que lhe permitam ser auto-suficiente e não necessite, pelo menos para aquele fim específico, de pedir mais apoios.
E no que respeita mais especificamente à Fundação Vodafone que, entre o período de Abril de 2008 e Março de 2009, investiu mais de 3 milhões de euros em projectos diversos?
Quando, há 8 anos, surgiu o concurso de atribuição de licenças para a nova geração, um dos critérios de avaliação dessas propostas - e com um peso muito significativo -, consistia na promoção da Sociedade de Informação. A título de exemplo, os programas do e-escola e do e-escolinha provêm desses compromissos. Nessa candidatura, a Vodafone obrigou-se a criar uma Fundação que desenvolvesse realmente projectos nessa área específica.
A Fundação privilegia igualmente projectos de integração de pessoas com necessidades especiais, segurança e protecção civil, educação e ambiente. Posso-lhe dizer que, em média, gerimos cerca de 18 a 20 projectos em simultâneo. Como já referi, os projectos são desenvolvidos em parceria, e como, na generalidade, são projectos-piloto  desenvolvidos em áreas novas nas quais se pretende testar novas metodologias de trabalho, novas tecnologias e novas formas do nosso parceiro poder trabalhar, têm um tempo de desenvolvimento bastante alargado.


Essa é, então, a mais-valia da forma como trabalham a responsabilidade social da empresa?
Achamos que a nossa mais-valia é dotar o nosso parceiro de algo útil para a sua acção. Como a Vodafone é uma empresa inovadora e que, nas áreas tecnológicas, tem surpreendido o mercado ao longo dos anos, entendemos que a nossa mais-valia é exactamente desenvolver projectos inovadores, que tentem testar coisas novas e que recorram às novas tecnologias. E é neste ponto que consideramos ter uma postura que nos diferencia de outras empresas. Não é só dar o apoio financeiro, mas primar por trazer para o terreno acções e tecnologias concretas que possam ajudar a melhorar a vida das pessoas.


Sendo que a história da RS da Vodafone se escreve pelos vários projectos que concretiza, pode começar por dar um exemplo concreto da vossa filosofia?
Um bom exemplo é o projecto "Floresta mais Verde" e que foi um dos primeiros a vir para o terreno. Seguiu-se à vaga de incêndios de 2003, numa altura em que foram inúmeras as empresas que deram o seu apoio financeiro para que se pudesse atenuar as consequências desta catástrofe. Contudo, a Vodafone, de acordo com a sua filosofia, pensou que era mais  importante trazer para o terreno um projecto que envolvesse uma nova metodologia de trabalho que prevenisse e combatesse os fogos. Por isso fizemos, em Leiria, um projecto que juntou uma entidade privada, a nossa Fundação, ao Governo Civil, aos Bombeiros Voluntários e Sapadores e outras entidades, no sentido de testar e aplicar uma nova metodologia.
Dado que os focos de incêndio acabam por tomar grandes proporções, porque os carros de grande porte não conseguem penetrar na mata para fazer um ataque rápido ao fogo, adquirimos nove viaturas mais pequenas e duas aeronaves ultra ligeiras que voam a baixa altitude para detectarem os focos de incêndio. Equipados com um sistema de georreferenciação e fotografia para enviarem para o centro de comando as imagens do que estava a ocorrer e a sua localização, equipámos também as viaturas que doámos com um sistema que detecta não só a sua posição no terreno, mas também informa quem está a comandar o teatro de operações sobre a quantidade de carga de água que tem nas viaturas ou o seu posicionamento, para que seja possível avisar mais facilmente os meios no terreno. Equipámos igualmente mais de 100 viaturas já existentes com este mesmo sistema. Demos formação e apoiámos essas entidades ao longo de uma série de anos.
Mais tarde, foi-nos pedido pelo Governo que estendêssemos este piloto a mais dois distritos - Santarém e Castelo branco -, o que foi traduzido numa nova forma de trabalhar entre os três distritos.


O Grupo Vodafone tem como objectivo reduzir em 50%  as emissões de CO2 até 2050. Que iniciativas estão já a ser implementadas pela Vodafone Portugal para atingir estes resultados?
Temos desenvolvido, nos últimos anos e no terreno, alguns projectos nessa área. Como a rede consome cerca de 90% dos nossos recursos energéticos, sendo os restantes 10% consumidos nos escritórios e lojas, foi nela que apostámos.
A introdução de um novo sistema de micro-produção eólica, em conjunto com outros programas na área da eficiência energética iniciados há dois anos, permite obter reduções de 15 a 20%, tanto do consumo global das estações-base, como das emissões de CO2. A sua implementação está em curso em trinta e duas estações-base de telecomunicações da Vodafone em todo o país. O sistema tem como principal elemento um aerogerador de 3,5KW instalado na torre de telecomunicações que, a partir da energia do vento, fornece parte da electricidade necessária ao normal funcionamento dos equipamentos, incluindo a climatização do espaço em que se encontram. A utilização das videoconferências, em detrimento das viagens, inúmeros projectos de reciclagem e o lançamento, para muito em breve, de um carregador a energia solar constituem outros exemplos de cumprimento com os objectivos que pretendemos atingir na redução das emissões.


Sendo este o Ano Internacional da Biodiversidade, há algum projecto que a Vodafone acarinhe nesta área?
Temos o projecto da gralha de bico-vermelho em colaboração com a Quercus que, mais uma vez, ilustra a nossa linha de realizar no terreno projectos concretos. Quando tivemos a presidência portuguesa [da UE] e no âmbito de uma iniciativa que se chamava Business & Biodiversity, pedia-se o contributo de várias empresas para um fundo específico. Nós, Vodafone, não contribuímos. Mas comprometemo-nos a pôr em prática, com parceiros, um projecto na área da biodiversidade, apoiando uma espécie em vias extinção e que ainda não estivesse a ser ajudada. Essa parceria foi estabelecida com a Quercus e o animal proposto foi a gralha de bico-vermelho, porque tinha a ver com a Vodafone - a gralha fala, fala e tem o bico vermelho. Esta gralha está ameaçada porque se alimenta de insectos que habitam junto aos solos.
Propuseram que limpássemos os terrenos cobertos de mato, o que impedia a ave de se alimentar. Contudo, considerámos que esse não seria o melhor caminho, pois uma vez esgotada a verba por nós dedicada a esta causa, tudo voltaria ao princípio. Seria apenas uma maneira de adiar a extinção, o que não fazia sentido, dado que pretendíamos fazer um projecto que fosse sustentável. Foi então realizado, na serras de Aire e Candeeiros, um projecto que fomenta a actividade económica local e em que a preservação da gralha é uma consequência de toda a dinâmica económica que é gerada ali.
Fizemos um protocolo com uma cooperativa local, a Terra Chã, e que nos dá o apoio logístico local. A fase inicial foi limpar uma grande extensão de terreno. Depois compraram-se cabras serranas, animais típicos da zona que asseguram o pastoreio necessário, recrutaram-se pastores para guardar os rebanhos e, com a ajuda da cooperativa, estamos a apoiar um trabalho na área da certificação do queijo de cabra e da carne de cabrito.
Este projecto ilustra bem o que começámos por dizer: gostamos de desenvolver novas ideias, novas formas de fazer as coisas para ajudar as populações a melhorarem a sua qualidade de vida.


A área da saúde tem também uma enorme expressão na vossa política de Responsabilidade Sei que são vários os projectos em curso, mas gostaria que salientasse alguns.
A área da saúde é mais recente, mas acreditamos que, realmente, neste campo, as novas tecnologias podem trazer uma enorme mais-valia. Começámos por fazer um projecto muito simples com o Instituto Português de Sangue.
A ideia foi substituir as tradicionais cartas que eram enviadas a apelar à doação, por sms. Neste caso, a Fundação apoiou o Instituto Português de Sangue para fazer um projecto-piloto nesta área, começando por uma actualização das suas bases de dados e de seguida, através do apoio nas comunicações, o IPS começou a enviar a todos os dadores o apelo à dádiva via sms. O que foi também uma mais-valia porque, no caso de grupos de sangue específicos ou de uma falha específica, é possível direccionar o apelo muito mais facilmente. Quando o nosso apoio terminar, o Instituto acabará por ter um investimento muito menor do que tinha e passa a poder negociar, com qualquer operador que deseje, um pacote de comunicações anual, para além de ter ficado com uma base de dados mais adaptada.


Têm, contudo, projectos mais complexos, nomeadamente com alguns hospitais...
Sim, estabelecemos, com o Hospital de Santa Marta, um projecto que, neste momento, tem já centenas de doentes cardíacos a utilizá-lo. É o sistema AirMed, que foi estudado em conjunto com o hospital e visava uma metodologia que fosse ao encontro não só das necessidades dos doentes, mas também com as do próprio do hospital. O sistema foi doado e fez-se um piloto com cerca de 100 doentes, escolhidos, devido às suas características, pelo hospital. Entre as várias funcionalidades susceptíveis de serem utilizadas, estão já em funcionamento a monitorização do índice de coagulação do sangue dos doentes submetidos a transplantes ou outras intervenções cirúrgicas em que é de crucial importância a manutenção dos valores daquele índice em determinado intervalo. Uma vez que este índice necessita de uma vigilância apertada, traduzida em medições a intervalos regulares e com um espaço de tempo curto entre as mesmas, os doentes (e, em muitos casos, também os seus acompanhantes que, por sua vez, perdem dias de trabalho) são obrigados a frequentes deslocações ao hospital. Com esta nova ferramenta, reduzem-se substancialmente os tempos despendidos com as deslocações para análises, que podem ser feitas junto das suas residências, bem como o tempo de espera pelos resultados, dado que, através do recurso à tecnologia móvel e via sms, os próprios resultados, as prescrições médicas, eventuais parâmetros fora dos valores normais e a possibilidade de marcar nova consulta, são imediatamente comunicados.


Um outro projecto lançado pela Vodafone é o Sistema de Monitorização Remota de Epilepsia Pediátrica...
Iniciámos este projecto há cerca de 3 anos, com o Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, com os hospitais Egas Moniz e São Francisco Xavier. Este projecto, basicamente, aumentou consideravelmente o número e a capacidade de sucesso das intervenções cirúrgicas em crianças com epilepsia, para quem, em muitos casos, a medicação não é uma solução suficiente, especialmente na epilepsia refractária, sendo por vezes, nessas situações, necessário recorrer a intervenções cirúrgicas de remoção de determinadas áreas do cérebro, responsáveis pelas convulsões.
Para tal, são efectuados exames prévios extremamente rigorosos de modo a detectar com precisão essas áreas susceptíveis de intervenção. Nesses exames é frequente suspender o tratamento medicamentoso, no todo ou em parte, facilitando o aparecimento das crises. Por esta razão, é preciso que a criança esteja internada em ambiente pediátrico com experiência no controlo das crises epilépticas e é necessária a análise rápida dos traçados para minimizar a duração do exame e do período de risco. Com a introdução deste novo Sistema, graças ao recurso às comunicações móveis e à implementação de uma aplicação informática específica, os médicos passam a poder observar esses exames (vídeo-EEG ou vídeo electroencefalograma) num computador ou PDA, à distância e a qualquer momento, mesmo fora do ambiente hospitalar. Isto é, podem efectuar essa observação essencial em mobilidade, a partir de qualquer ponto do país ou do estrangeiro e interagindo com o sistema, graças à aplicação informática desenvolvida para o efeito. Durante o período compreendido entre Março de 2008 e Março deste ano o número de doentes monitorizados passou de 36 para 59 (um aumento de 64%), sendo especialmente relevante o aumento de doentes propostos para cirurgia que passou de três para 25 (um aumento de 733%), traduzindo o sucesso deste projecto.
Este foi, realmente, um projecto que muito acarinhámos, pois também nele vimos a importância do nosso envolvimento e do nosso know-how.


Falemos numa outra área de acção, a educação que, entre as várias iniciativas que contemplam, lhe pedia para me falar escola móvel [projecto dedicado aos filhos dos profissionais itinerantes]
A escola móvel teve como objectivo actualizar o conceito da antiga tele-escola [antigo programa da RTP2]. Em conjunto com o Ministério da Educação, os conteúdos programáticos foram adaptados a esta nova plataforma. O piloto foi feito inicialmente com poucos alunos mas, actualmente, integra já um número significativo de miúdos. Ou seja, os alunos vão à escola, num horário específico, têm um professor que está na aula e todos os alunos estão ligados, com a diferença que não estão juntos fisicamente, mas virtualmente. Como estão todos ligados à mesma plataforma, o professor sabe quem está na aula ou quem faltou, quem está a tomar atenção e quem não está e tira dúvidas por chat. Sempre que se inicia um novo trimestre, os alunos têm uma semana de aulas presencial, em Lisboa, para se conhecerem entre si. Todos estão equipados com um computador e com comunicações de banda larga.
Devo referir que o aproveitamento escolar tem sido fantástico e que existe uma enorme dedicação por parte dos miúdos e também dos professores. Fazem os trabalhos, submetem-nos na plataforma e são avaliados por testes, como os outros alunos. A escola móvel tem funcionado muito bem e o Ministério da Educação está muito satisfeito com os resultados.


 


 

O Sol, quando nasce, pode ser mesmo para todos

O "Praia Saudável" é um projecto com seis anos que, neste momento, abrange cerca de 150 zonas balneares costeiras e fluviais, sendo o que mais parceiros envolve. A sua operacionalização
no terreno é muito complexa e envolve vários parceiros: Instituto da Água, Instituto de Socorros
a Náufragos, Administrações das Regiões Hidrográficas, Capitanias de Porto, Câmaras Municipais, Instituto da Conservação da Natureza, Instituto Nacional para a Reabilitação e Associação Bandeira Azul. A Fundação Vodafone assegura a pesada gestão logística do Programa, sempre com a ajuda dos parceiros. O programa está centrado num sistema de comunicações de segurança para os nadadores-salvadores, que os interliga com a Polícia Marítima, 118, bombeiros locais e todas as entidades que têm relevância no salvamento. É tudo parametrizado praia a praia. Os postos de vigia e os meios de salvamento (motas de água com macas acopladas) foram doados ao ISN. Também aqui o papel de trazer alguma inovação, de estudar meios alternativos, demonstrar que eles fazem sentido
e levar os parceiros a adoptar esses meios é fundamental. O Programa Verão de Campeão, que percorre as praias abrangidas pelo projecto, ensina aos mais novos os comportamentos de segurança
e ambiente que devem ter na praia, tornando-a mais segura e limpa. Também instalámos meios tecnológicos em praias não vigiadas. Em parceria com a Câmara Municipal de Mafra, iniciámos, no Verão de 2007, em 12 zonas balneares do Concelho, a instalação de um sistema de alerta e apoio ao salvamento em praias não vigiadas. Este sistema, alimentado a energia solar, estabelece, quando accionado, uma comunicação directa com as entidades que têm competência no salvamento na zona balnear onde está instalado o sistema. As praias fluviais estão também a ser equipadas, o mesmo acontecendo com as praias acessíveis com a doação de cadeiras anfíbias, para o banho, e instalação de passadeiras no areal, muito úteis para as pessoas com mobilidade reduzida (cadeiras de rodas, carrinhos de bebé).

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