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Luísa Pestana: "A lógica é desenvolver em conjunto e dar autonomia aos parceiros"

17/05/11, 11:06
Por Gabriela Costa (texto) e Victor Machado (foto)

"A lógica é desenvolver projectos em parceria, desenhados de raiz, a partir das necessidades identificadas." Todos os sistemas desenvolvidos "são doados depois de um período-piloto e damos sempre formação aos parceiros envolvidos para que adquiram autonomia". É desta forma que Luísa Pestana, presidente da Comissão Executiva da Fundação Vodafone, sintetiza a actuação da fundação, que assinalou em Abril o seu décimo aniversário.

 

Que balanço faz de uma década de actuação em prol do desenvolvimento da Sociedade de Informação e do combate à info-exclusão em Portugal?

A Fundação Telecel Vodafone foi criada em 2001 (dando, em 2003, origem à actual designação), no âmbito das licenças de 3.ª geração, às quais se candidatou na área "Promoção da Sociedade da Informação em PT", comprometendo-se a fazer vários investimentos e a criar uma fundação, cujo objecto seria promover a SI, participando, em parceria, em alguns projectos em áreas de manifesta utilidade pública.

Desde logo identificámos as áreas onde as novas tecnologias de Informação e Comunicação teriam grande mais-valia - a saúde, a educação e inclusão de pessoas com deficiência, a segurança... Os primeiros projectos desenvolvidos foram softwares e programas especiais para pessoas com necessidades especiais, concretamente cegas ou com baixa visão.

A partir daí, fomos estendendo o âmbito da nossa actuação a outras áreas, como o ambiente ou a investigação científica e tecnológica.

A lógica da fundação é desenvolver projectos em parceria com outras entidades, desenhados de raiz, a partir das necessidades identificadas no parceiro, e nunca apadrinhar iniciativas já formatadas.

O balanço desta primeira década é muito positivo. Ao longo dos anos, concretizámos mais de sessenta projectos, apesar de o tempo de desenvolvimento de cada um ser sempre alargado, porque nós não damos donativos, implementamos as iniciativas de raiz: identificamos um problema e desenvolvemos uma solução para ser implementada em conjunto com o parceiro.

Por exemplo, na área da saúde, a fundação criou um sistema de Monitorização Remota de Epilepsia Pediátrica, em colaboração com neurologistas e pediatras, para o Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental - que compreende o Hospital de São Francisco Xavier e o Hospital Egas Moniz. Este sistema permite aos médicos, independentemente de estarem dentro ou fora do ambiente hospitalar, o acesso e a manipulação da informação, a partir da sincronização da imagem do paciente com o registo encefalográfico, o que resultou na monitorização de quase o dobro dos doentes, face à que era feita antes de existir este sistema. Além disso, os médicos passaram a monitorizar casos muito graves de outros pontos do País.

Este foi um processo que levou cerca de um ano e meio a instalar e demonstra como trabalhamos: todos os sistemas desenvolvidos são doados ao nosso parceiro depois de um período-piloto de teste da utilização da tecnologia e damos sempre formação aos parceiros envolvidos, antes de doar os equipamentos. O objectivo é que estes adquiram autonomia em relação aos projectos, os quais acompanhamos periodicamente, durante anos.

 

Partindo do recurso ao know-how tecnológico da Vodafone para o desenvolvimento de soluções em benefício de projectos sociais, que importância tem hoje a aplicação das TIC a uma lógica de intervenção social?

Vejo essa lógica com muito bons olhos. O objectivo é ajudarmos os outros com aquilo que melhor sabemos fazer, que é desenvolver sistemas tecnológicos. Com os projectos que temos no terreno, podemos pôr essa tecnologia ao serviço da sociedade e por isso é que decidimos desenvolver sistemas inovadores para aplicar na área social, em vez de darmos donativos para esta ou aquela causa.

O Táxi Seguro, por exemplo, é um sistema de alerta e seguimento das viaturas que estão em risco, que veio contribuir para resolver um problema levantado pela Secretaria de Estado da Administração Interna, depois do assassínio de alguns taxistas em 2005: não existia nenhum sistema de segurança que interligasse de forma directa os condutores de táxi com a polícia e, com o Táxi Seguro, o qual junta a tecnologia GPS (que dá a localização exacta em tempo real) a um serviço de SMS (por onde são enviadas as coordenadas em GPS da viatura), foi possível interligar todos os meios - PSP, GNR e esquadras -, testando a sua coordenação no terreno.

Depois de um teste-piloto com 900 viaturas e da formação tecnológica e operacional que a Vodafone e as forças policiais deram a mais de dois mil homens, incluindo agentes da PSP e da GNR, aos condutores dos táxis e aos seus proprietários, actualmente existem quase 1500 viaturas com este sistema a funcionar nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto. De sublinhar que, tal como o projecto da Epilepsia Pediátrica, este é um sistema aberto a que qualquer particular pode aderir por um custo acessível, já que negociámos um preço de venda ao público com o fornecedor equivalente ao que pagámos pela aquisição dos 900 equipamentos: 300 euros, incluindo a instalação.

 

Entre Abril de 2009 e Março de 2010, a fundação apoiou um total de 22 projectos, investindo cerca de 2,3 milhões de euros. Em relação ao primeiro ano de actividade, durante o qual financiaram com 832 mil euros doze projectos, como avalia o percurso traçado?

A fundação tem, em média, quinze a vinte projectos "ongoing". Como disse, o período de intervenção é alargado e, portanto, há sempre vários em funcionamento. Actualmente, e além do projecto de Monitorização Remota de Epilepsia Pediátrica e do Táxi Seguro, destaco o programa Praia Saudável, uma iniciativa lançada em 2005 que incide nas vertentes da segurança, acessibilidade, ambiente e sensibilização, abrangendo actualmente mais de 150 zonas balneares de Portugal continental e ilhas, incluindo fluviais.

A Marinha, o ISN, o Instituto da Água, o ICNB, o INR e a Associação Bandeira Azul são os parceiros deste projecto, que permitiu desenhar uma rede de comunicações privada (VPN) para os nadadores-salvadores que faz a intercomunicação entre os postos de praia, as capitanias de Porto, os Bombeiros e os números de emergência nacionais.

Uma rede de comunicações móveis acessível ao público permite que qualquer pessoa reporte, a partir da praia, situações de risco, como um afogamento ou uma criança perdida. Já nas zonas balneares não vigiadas instalámos mastros alimentados a painéis solares que permitem accionar um botão para reportar também emergências através de chamadas em alta voz para as autoridades competentes. O programa inclui ainda a disponibilização de equipamentos como veículos de salvamento GOES, motos de salvamento marítimo (existindo hoje mais de setenta disponíveis, depois de o piloto ter arrancado com vinte), macas flutuantes e torres de vigia.

A nível ambiental, realizam-se todos os Verões acções de sensibilização para os mais novos, a propósito das regras básicas de segurança na praia e este ano queremos marcar presença nos ATL. Paralelamente, distribuímos cinzeiros e temos equipado os municípios com máquinas de limpeza do areal. A pensar nos veraneantes com necessidades especiais, temos doado passadeiras especiais e cadeiras de rodas anfíbias.

De referir que a fundação investe na praia saudável mais de um milhão de euros anualmente, entre os meios novos que doa e a montagem, desmontagem e reparação de todos os equipamentos que integram o programa, o que é significativo no total da nossa actuação.

Finalmente, e na educação, criámos recentemente a primeira biblioteca online de Fernando Pessoa, integralmente digitalizada e que permite aceder a todos os livros da biblioteca pessoal do autor, bem como às suas anotações.

 

Face ao agudizar da crise, prevêem alguma alteração na vossa política socialmente responsável?

Não perspectivamos que o montante global de investimento nestas acções e nos projectos de RS da Vodafone diminua, face à crise, apesar da difícil conjuntura. As áreas de intervenção mantêm-se, e estamos sempre à procura de novos parceiros e projectos.

 

Acredita que as fundações devem ser agentes de mudança pela grande capacidade de resposta que têm, já que graças à sua dimensão e à reputação que alcançam, podem facilmente agregar ideias, projectos e organizações?

Acredito, aliás tem sido essa a nossa orientação desde o início: como é que podemos fazer a diferença, contribuindo para os resultados globais numa determinada área - seja a educação, a segurança ou as necessidades especiais? É este o nosso objectivo, contribuindo para que os nossos parceiros melhorem os seus recursos, trabalhando melhor.

A mentalidade está a mudar e as pessoas estão hoje mais despertas para se associarem a uma causa ou fazerem voluntariado. Por outro lado, há uma maior abertura por parte das empresas, das organizações públicas e das IPSS para fazerem parcerias em áreas concretas, de modo a atacarem determinados problemas, até porque os recentes problemas orçamentais das instituições levam-nas a congregar sinergias.

Se for continuado e não avulso, o trabalho das empresas nesta área pode trazer uma mais-valia às instituições, já que numa empresa habituamo-nos a trabalhar por objectivos e a ter uma boa capacidade de execução. Em princípio, estas são parcerias "win-to-win", para as empresas porque conseguem dar algo de volta à comunidade, e para as organizações, porque acabam por tornar-se mais profissionais em algumas áreas.

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