Pedro Líbano Monteiro: "Tenho esperança de que possamos recuperar os princípios de caridade e solidariedade" ![]() 15/11/11, 13:40 A frase é de Pedro Líbano Monteiro, responsável pela área de Relações Institucionais com o Terceiro Sector do Montepio, que, em entrevista, fala do presente e do futuro da economia social e solidária. A afirmação de identidade, a agregação do sector, a capacitação dos actores e os apoios ao empreendedorismo social constituem, a seu ver, as quatro fases por excelência para o fortalecimento do mesmo na economia nacional. A história mutualista do Montepio é de peso. Pode sintetizar em que medida o Montepio constitui o maior exemplo do associativismo mutualista português? O Montepio foi fundado em 1840 - com o objectivo de gerar modalidades partilhadas de organização capazes de responder às dificuldades que decorriam da inexistência de sistemas públicos de previdência - e cresceu a ponto de hoje se afirmar como a maior associação mutualista portuguesa (reúne mais de 500 mil associados), como uma instituição de dimensão social e financeira incontornável e como um grupo de empresas com serviços que vão dos seguros à gestão de centros residenciais. A singularidade resulta da natureza mutualista, da gestão participada e do facto de ter por objectivo colocar a economia ao serviço da sociedade, criando valor e assegurando uma actuação sustentada no associativismo participativo, na ética, na transparência e numa responsabilidade social activa e orientada para as pessoas. O exemplo de associativismo mutualista que o Montepio constitui não pode ser desligado da vida em sociedade e da necessidade que todos sentimos de ajuda mútua. De que forma(s) é que o Montepio se distingue na especial atenção que concede às organizações de Economia Social? O Montepio, pelo quadro de valores que inspira a sua actuação, sempre assegurou relações próximas e colaborantes com as organizações da economia social e solidária, estruturando a sua actuação a partir de três áreas: filantropia, associativismo e aconselhamento financeiro. As iniciativas no âmbito da responsabilidade social e filantrópica estão a cargo da Fundação Montepio e são complementadas, por exemplo, através da acção de mais de 700 colaboradores-voluntários aos quais a instituição concede tempo para que, durante o horário de trabalho, possam realizar trabalhos e participar em projectos nas áreas da solidariedade social e saúde, ambiente, educação e formação..., apoiando, desta forma, um elevado número de iniciativas. A Associação Mutualista faz um acompanhamento solidário e dinamiza a vertente associativa, concedendo benefícios de segurança social destinados a prevenir ou reparar as consequências de factos contingentes à vida e à saúde dos associados, seus familiares e beneficiários. Já a Caixa Económica responde às necessidades destas organizações através da disponibilização de produtos e serviços financeiros específicos, de que constituem exemplo as soluções Montepio IPSS, Montepio Misericórdias, Montepio Conta Dupla ou o Seguro Montepio Voluntariado; do estabelecimento de protocolos, acordos e parcerias, mas também de canais de atendimento próprios e de equipas especializadas e dedicadas ao sector. Lidera a área de Relações Institucionais com o Terceiro Sector. Quando, por que motivos e com que objectivos nasceu esta área específica dentro do Montepio? O comportamento ético e transparente e o reconhecimento pela comunidade de que o Grupo Montepio se distingue pela responsabilidade e confiança, instigaram-nos a ampliar o contributo social. Nesta perspectiva, e porque a abordagem bancária às instituições de cariz social não pode ser realizada em moldes semelhantes à que é prestada a clientes particulares ou empresa, entendemos criar, em 2009, uma área comercial exclusivamente dedicada a clientes do Terceiro Sector (IPSS, santas casas, fundações...), adequando a oferta, prestando um serviço específico e adoptando modelos de gestão de risco ajustados à concessão de financiamento a este sector. Quais as principais funções (e missões) da rede de gestores de negócios "especializados e dedicados" que inclui na área que lidera? Ao Gestor do Terceiro Sector, profissional com competências próprias na área social, cabe a missão de prestar um serviço personalizado, rápido e de elevada qualidade e de actuar segundo três pilares institucionais fundamentais: valores, ética e responsabilidade. Nesta linha, o acompanhamento distingue-se pela proximidade e pelo profundo conhecimento do sector, das suas necessidades e especificidades. Gostaria que, face à Europa, definisse o papel da economia social em Portugal. Além do papel social, o Terceiro Sector desempenha um papel financeiro basilar na economia nacional. Em Portugal, emprega mais de 250 mil pessoas e representa aproximadamente 5,5% do PIB. Na restante Europa Ocidental, o valor cresce para 10% do PIB. Ainda que haja caminho a percorrer, é indiscutível que as instituições da economia social e solidária assumam uma importância crescente na criação de emprego para todos, incluindo para os mais desfavorecidos, na prestação de valências fundamentais e complementares aos sectores privados e públicos e na actuação alinhada com as necessidades específicas das famílias... e são muitos os que beneficiam dos serviços prestados por instituições sociais, nomeadamente ao nível da infância e da senioridade. Sem este complemento, seria muito difícil desempenharem o seu papel na sociedade. Num mundo que tende a apostar nos melhores, estas instituições suportam segmentos menos protegidos pela sociedade, sejam crianças, idosos, portadores de deficiências, mães solteiras, sem-abrigo ou vítimas de doença. Muitas vezes, verifica-se uma substituição do papel do Estado e das próprias famílias, sem nunca esquecer o seu princípio orientador: o primado da pessoa humana. Nesta altura particularmente complexa, que presente e que futuro para o Terceiro Sector em Portugal? O presente passa pela gestão e sustentabilidade das valências de cada instituição e pelo combate ao natural emagrecimento das "receitas de caridade". Já o futuro, que se avizinha complexo, passará, muito provavelmente, por quatro fases: afirmação de identidade, agregação do sector, capacitação dos actores e apoio ao empreendedorismo social. Perante este quadro de desafio, entendemos que o sector só será forte quando estiver consolidado em torno de uma missão única e de um código de valores e objectivos claro. Os últimos anos foram de expansão e proliferação de organizações susceptíveis de integrar o sector social da economia, pelo que agora se afigura importante evoluir no sentido da convergência, da união e de uma rentabilização de recursos que permita a qualificação progressiva e o crescimento sustentado. Importa tornar mais exigente o reconhecimento destas entidades, analisar o seu potencial, equacionar possíveis fusões e afirmar e credibilizar a economia social enquanto solução de crescimento, inclusão social e sustentabilidade. Para tal, será necessário reforçar a qualificação dos agentes, dirigentes e profissionais, definir perfis e reforçar os critérios de exigência nos processos de recrutamento e formação de voluntários e de profissionais. Finalmente, é de extrema importância apoiar o empreendedorismo social, entendendo o seu potencial de criação de mercados, produtos, serviços, conhecimentos, experiências e emprego. Também na área do microcrédito, o Montepio tem vindo a desenvolver parcerias. Quais as que elege como mais importantes e que objectivos se destacam para a sua promoção? Do ponto de vista puramente bancário, e para a generalidade dos bancos europeus, o microcrédito traduz-se em margens residuais ou negativas. No entanto, o direito ao crédito encontra--se perfeitamente integrado na responsabilidade social que o Montepio tem a seu cargo, bem como nos objectivos de combate à exclusão social, promoção do auto emprego e apoio aos mais carenciados. Por ser esta a nossa perspectiva, concretizamos o microcrédito a partir de linhas protocoladas e concedemos financiamento a indivíduos indicados pelos nossos parceiros - a EAPN e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa - que, pelo trabalho que desenvolvem no terreno, estão em condições de acompanhar os micro-empresários. Como funciona o Microcrédito Montepio? Entendemos o microcrédito como uma ferramenta de desenvolvimento, inclusão social e emprego, mas também como um instrumento promissor de "empowerment" que potencia as competências pessoais, a inovação, o espírito empreendedor e o desenvolvimento do tecido social. Nesta linha, aproveitamos a proximidade com as instituições de solidariedade social para identificar aqueles que mais precisam e, através de parcerias, actuamos com base numa rede própria, capaz de assegurar mecanismos de avaliação de risco diferenciados e cobertura geográfica de âmbito nacional. Desta forma, e a partir de equipas que gerem a relação com os parceiros e os micro-empresários, mas também de tutores de proximidade, que são colaboradores voluntários do Montepio e acompanham todo o projecto de negócio, potenciamos uma resposta que sabemos inovadora nos princípios e desafiadora nos métodos e promovemos novas oportunidades junto de quem se encontra excluído do mercado de trabalho. Na área que lidera, e face ao aumento do endividamento das famílias, do desemprego e da pobreza, com tendência para agravamento em 2012, tem algum "plano de crise" pensado para o próximo ano? Temos vindo a actuar nas diferentes dimensões de sustentabilidade e a construir várias respostas. Uma delas é o Programa de Educação Financeira, que responde às necessidades das famílias e que, sendo dirigido a crianças e adultos, actua no sentido da promoção da literacia financeira, da sensibilização para a importância da poupança e do combate ao sobreendividamento. Além da crise económica, Portugal vive uma crise de valores. Tenho esperança de que os momentos de dificuldade que se avizinham permitam recuperar os princípios de caridade e solidariedade. Apoiar as instituições do Terceiro Sector na qualidade de voluntários, promotores ou beneméritos é promover um sector de economia social mais forte e, consequentemente, minorar os danos causados pelo desemprego e pela pobreza. ![]() ![]() |