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"Portugal deu um grande exemplo de mobilização colectiva"

14/12/10, 12:32
Por Gabriela Costa

Há "um novo entendimento" sobre o papel que o tecido económico tem a desempenhar sobre as questões da pobreza. Numa entrevista de balanço, Edmundo Martinho, coordenador nacional do Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social, garante que a mobilização das empresas foi "exemplar" e, sobretudo,
"esperançosa". Agora é preciso "que esse contributo continue a afirmar-se naquilo que são as práticas
empresariais".

 

Que balanço faz do Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social (AECPES)? Julga que representou uma oportunidade para as organizações melhorarem as suas práticas ou a sua participação circunscreveu-se ao âmbito das iniciativas do próprio Ano?
Faço um balanço muito positivo do AECPES, o qual, em termos pessoais, foi de uma enorme riqueza porque, de facto, hoje as empresas estão mais conscientes. Foram organizadas muitas acções ao longo do ano e a nível local houve imenso empenhamento. Conseguimos atingir a mobilização em torno de um objectivo: assumirmos que as questões da pobreza dizem respeito a todos nós, e não apenas ao Estado ou às organizações não governamentais. Dizem respeito às empresas, inclusivamente, e a sua resposta foi muito positiva, mesmo por parte de actores que não vemos habitualmente associados a estas questões. Esse fenómeno é notável e, sobretudo, bastante esperançoso. E é algo que me deixou muito satisfeito, à medida que fui assumindo a função de coordenar iniciativas deste Ano Europeu.
O AECPES desempenhou um papel relevante ao nível das políticas públicas nacionais, mas teve também um impacto fundamental na mobilização a nível local. Trata-se de um grande papel que tem de ser desempenhado pelas pequenas organizações e houve, de facto, empresas muito empenhadas nas iniciativas que promoveram, dentro das suas capacidades. Julgo que um dos aspectos mais salientes deste Ano é que nos deixa mais motivos para acreditarmos que é possível, todos em conjunto, dar a volta à actual situação e conseguir uma melhoria significativa das condições de vida dos portugueses que vivem pior. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso e devo sublinhar o enorme contributo que as empresas deram ao AECPES.
É preciso agora que esse contributo continue a afirmar-se naquilo que são as práticas empresariais a todo o momento, e que não esteja apenas associado às iniciativas deste Ano Europeu. O que é importante é que estas preocupações não se percam a partir de Janeiro, mas eu estou convencido de que haverá uma continuidade nos esforços iniciados e acredito francamente que a forma como esse empenho foi visível vai significar uma outra forma de entender e de olhar para a realidade da pobreza em Portugal, por parte do meio empresarial. Este ano deixou bem claro, por parte das muitas empresas que participaram, que a Responsabilidade Social é um exercício diário, permanente e não apenas um exercício episódico a propósito de uma ou outra iniciativa. Há um novo entendimento sobre as questões da pobreza e do papel que o tecido empresarial, económico, tem a desempenhar nesse domínio.

 

Como é que compara a celebração do AECPES em Portugal com a dos outros países europeus, atendendo às experiências que conheceu através dos restantes coordenadores nacionais?
Temos encontros regulares e devo dizer que - embora me fique mal, mas pergunta-me e eu tenho de responder -, acho que Portugal deu um grande exemplo de mobilização colectiva. Quer por parte das empresas, insisto, quer por parte das ONG e do conjunto de entidades que têm responsabilidades nas áreas da pobreza e da exclusão social. Foram realizadas iniciativas muito esforçadas e, desse ponto de vista, tivemos das melhores performances a nível europeu. Conseguimos, de facto, uma mobilização exemplar que só foi possível graças à grande resposta das entidades ao apelo deste Ano. Nesse sentido, tivemos parceiros essenciais, que não se pouparam a esforços.

 

Fala das grandes empresas, que habitualmente se associam a estas iniciativas, ou também das PME locais?
Não me refiro só às grandes empresas. É óbvio que, a nível nacional, recebemos o apoio de grandes organizações como o Montepio, que foi um parceiro de tempo inteiro, o grupo Auchan, e, por exemplo, a Ogilvy, na área da publicidade. Mas também recebemos sempre o apoio de entidades a nível local. Isto é algo que devemos sublinhar, pois temos sempre a tendência para diminuir a nossa capacidade de nos mobilizarmos.

 

Qual é, para si, a importância de se assinalar o AECPES na actual conjuntura de agravamento das situações de pobreza e de pedido de ajuda a organizações como a Cáritas e o Banco Alimentar Contra a Fome, associado ao crescimento galopante do desemprego?
Quando a Comissão Europeia decidiu dedicar este Ano às questões da pobreza, durante a Presidência portuguesa, em 2008, não se tinha ainda a consciência plena do impacto que a extensão dos problemas iria ter sobre a vida das famílias. Estávamos longe de perceber como esses problemas nos afectariam a todos, em termos europeus. Até por isso, este é um Ano que nos tem obrigado a uma grande reflexão.
Pode-se dizer que o AECPES nos ajudou a perceber o que estamos a fazer bem e o que podemos fazer melhor. O objectivo tem de ser esse: face às situações que vamos vivendo, conseguirmos aproveitar os mecanismos que nos são colocados à disposição, por escassos que eles sejam. Também desse ponto de vista, o AECPES foi um Ano importantíssimo que nos confrontou com as nossas fragilidades e nos obrigou - tem de continuar a obrigar-nos - a esta reflexão sobre para onde é que estamos a caminhar e o que podemos corrigir para fazer melhor.

 

Em tempos de crise, quais são, para si, as grandes prioridades sociais?
A prioridade tem de ser assegurar que ninguém que precise dos apoios que a sociedade pode dar fique de fora, sejam estes quais forem. Essa tem de ser a prioridade também da Segurança Social: temos de ter condições para não permitir que quem precisa de apoio deixa de o ter. 

 

Nesse contexto, e como presidente do Instituto de Segurança Social, como vê as medidas sociais contidas no plano de austeridade em curso, como o aumento do IVA?
Estas medidas vão traduzir-se numa diminuição no rendimento médio das famílias e, como disse, isso exige-nos uma atenção particular às situações de maior fragilidade. O confronto com essa exigência de fazermos melhor do que temos feito, utilizando os recursos disponíveis é, de facto, um grande benefício que sai deste Ano Europeu.

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