À conversa com: Anaísa Raquel * e Andreia Madeira** ![]() 11/10/11, 11:20 Ouço, Logo Vejo? Sim, com a audiodescrição A audiodescrição é um recurso que proporciona a pessoas com deficiência visual igualdade de acesso a manifestações culturais. A Companhia de Actores quer implementar este recurso no maior número de equipamentos de teatro, cinema, dança ou música, mas reconhece que "muito ainda tem de ser feito, de forma a que o interesse dos produtores culturais em incluir a audiodescrição nas suas criações e a adesão do público-alvo cresçam. Foi graças à presença da audiodescritora Graciela Pozzobon na 1ª Mostra Internacional de Teatro de Oeiras, onde apresentou em conferência este recurso, que a Companhia de Actores fez nascer em Portugal o projecto audiodescriçao.pt - Ouço, Logo Vejo? Depois de, durante uma das peças da Mostra, contactarem "de forma mais profunda" com as características e resultados de um instrumento que "contribui para a igualdade de acesso às manifestações culturais por parte das pessoas com deficiência visual", missão deste projecto, os seus responsáveis criaram-no "de imediato", com vista à sua implementação nos produtos culturais portugueses. Esse é, alias, o principal objectivo de Anaísa Raquel, audiodescritora e produtora executiva do audiodescrição.pt e de Andreia Madeira, gestora de projecto: "pretendemos incluir o recurso de audiodescrição em todos os equipamentos culturais activos em Portugal Continental e ilhas", dizem, à conversa com o OJE Mais Responsável. A nível tecnológico, a audiodescrição pode ser feita ao vivo ou pré-gravada, resultando em diversas dinâmicas: nas peças de teatro, espectáculos de dança e de música ou programas televisivos em directo este recurso, "que se adapta à natureza da própria obra", apenas pode ser utilizado ao vivo. Quando realizado em cinemas, auditórios e teatros, o equipamento utilizado é o mesmo da tradução simultânea. Neste caso, os audiodescritores narram através de uma cabine para um microfone e o som é transmitido através de ‘headphones'. Já a audiodescrição pré-gravada é mais usada em cinema e programas de televisão pré-gravados, aos quais é adicionada uma segunda faixa de som opcional. De sublinhar que a produção de um qualquer espectáculo com este recurso "tem de passar por várias fases: estudo da obra a ser descrita; produção do guião; ajustes de tempos de entrada das informações descritas e do texto; aprovação do guião por parte de toda a equipa de audiodescritores; aprovação do guião por parte dos "conselheiros de conceitos"; ensaios; e, por último, audiodescrição da obra ao vivo ou gravação da locução da audiodescrição e inserção da locução numa segunda faixa de som. Ao cabo de um ano de actividade, o balanço do projecto "é positivo pois foi possível cumprir todos os objectivos propostos" para este período. No entanto, "acreditamos que muito ainda tem de ser feito no sentido de dar a conhecer o recurso, de forma a que o interesse dos produtores culturais em incluí-lo nas suas criações e a adesão do público-alvo cresçam, em proporção ao trabalho desenvolvido pela nossa equipa", constatam Anaísa Raquel e Andreia Madeira. Não obstante, é de destacar nestes últimos doze meses a realização de "boas parcerias, com a Portucale Vox, a Bolsa de Valores Sociais e a Fundação Calouste Gulbenkian". O projecto, que tem a característica "de ser um trabalho contínuo no que diz respeito à transformação e criação de hábitos de uma fatia da sociedade que, até então, não tinha à sua disposição os recursos e que por isso, ou por descrença, não fazia opções culturais", marcará presença no dia 22 de Novembro, no encontro nacional "Ouvir a arte e a Cultura - A audiodescrição na construção de produtos inclusivos". No encontro, que se realiza na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, "esperamos ter todos os agentes envolvidos nesta área juntos a debater formas de potenciar a implementação do recurso", apelam. A audiodescrição destina-se a toda e qualquer pessoa que tenha deficiência visual e que sinta necessidade e vontade de utilizar este recurso de forma a conseguir uma "leitura" mais completa da manifestação artística em causa. Neste contexto, e sabendo-se que existem em Portugal cerca de 160 mil pessoas com deficiência visual (segundo dados da ACAPO) que, consequentemente, são alvo de vários tipos de discriminação, "seja no acesso ao emprego ou simplesmente em termos de acessibilidade aos mais diversos níveis", "o acesso aos produtos culturais envolvendo componentes visuais é uma dessas áreas sensíveis". Mas em relação a esta matéria a Companhia de Teatro criou, desde o início, "uma postura de não paternalismo": "sabemos que estes dados são reais, mas também que a vida não é a preto e branco - existe uma faixa grande de cinzento - pelo que é essencial perceber as partes para entender o todo". E a comunicação, dizem as duas gestoras do projecto, é feita sempre em dois sentidos, neste caso talvez três: os órgãos de poder, os invisuais (e a diferença entre cada um deles é muito grande, por exemplo os que nasceram cegos, os que cegaram em adultos, os amblíopes) e a sociedade civil. "É necessário que o nosso público-alvo sinta que pode e deve exigir este tipo de recursos, que eles existem e que foram pensados para eles. O sentido desta frase será alterado à medida que as mentalidades forem mudando, e isso é algo que precisa de tempo e espaço". É neste caminho que acredita a equipa do audidescrição.pt e, embora seja longo, permite "nunca perder o foco e criar efectivamente oportunidade de escolha, para a pessoa com deficiência visual". Resta dizer que a cotação do projecto na Bolsa de Valores Sociais foi "essencial para o seu arranque, em primeiro lugar pela confiança demonstrada pela sua equipa e pela aposta feita, depois pela oportunidade de apresentar a audiodescrição à sociedade civil". Desta forma, a mesma pode hoje investir num recurso "até então desconhecido da maioria e que, como qualquer outra coisa nova, demora o seu tempo a ganhar espaço no dia-a-dia, de uma forma credível e séria". O financiamento conseguido na BVS será direccionado para a aquisição de material técnico indispensável à prática da audiodescrição em qualquer equipamento cultural, na sua maioria, não preparado para o efeito. *Produtora Executiva ** Gestora de Projecto Audiodescrição.pt - Ouço, Logo Vejo? ![]() ![]() |