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Um sénior acompanhado é um idoso menos só
À conversa com: Catarina Augusto

12/04/11, 10:49
OJE

A Associação Vivamus nasceu com um objectivo primordial: actuar a nível preventivo nos processos de envelhecimento. De acordo com a presidente da Direcção desta associação que dinamiza o projecto "Um Sénior Acompanhado", "quem mais necessita destes programas é certamente quem não os pode financiar". Só no concelho de Lisboa há mais de 35 mil pessoas idosas a viver sós, alerta Ana Catarina Augusto


 

Salvo nas questões de doença, como um AVC, o processo degenerativo não é algo que aconteça da noite para o dia: "assistimos ao isolamento progressivo dos nossos idosos saudáveis por inúmeras razões, seja porque enviuvaram, porque as suas patologias se vão agravando, ou porque, simplesmente, perdem a motivação para a vida e começam a não querer sair de casa, ou seja, a desistir", explica Catarina Augusto, presidente da Direcção da Associação Vivamus.


Se há pessoas que têm as competências necessárias para não cair neste flagelo, muitas há que não as têm e só com um pequeno auxílio se podem alterar estes hábitos, essas desmotivações, de modo a conseguir travar esse processo degenerativo, diz ao OJE Mais Responsável. Por outro lado, existem ainda os problemas que afectam inúmeras pessoas que perderam a sua mobilidade, em consequência de um acidente ou de um AVC e se vêem presas nas suas casas, pois residem em andares altos, em prédios sem elevador, conclui.


"Sabemos que só no concelho de Lisboa há mais de 35 mil pessoas idosas a viver sós. Como chegar a elas? Será fácil perceber que quem mais necessita destes programas é certamente quem não os pode financiar." Defendendo que a responsabilidade social deve ser exercida por qualquer empresa, seja ela micro, média ou grande, e contrariando a ideia de que são necessários grandes orçamentos para se integrar a RS na estratégia das empresas, o projecto "Um Sénior Acompanhado" nasceu para assegurar o acompanhamento de idosos - na sua saúde primária, transporte e participação em actividades lúdicas, recreativas, acções de formação e passeios -, a partir do "apadrinhamento" de um utente da associação. A iniciativa pode partir de uma autarquia, de uma empresa ou de qualquer cidadão, através do pagamento de um valor mensal à associação.


Convicta de que "com a envolvência de todos, através de pequenos contributos", é possível contribuir para diminuir a solidão "de tantas pessoas que vivem tristes e solitárias, os nossos séniores", a Vivamus concentra-se no desenvolvimento de programas que consistem em prestar assistência, acompanhamento e orientação às pessoas séniores, principalmente às que residem sós e sem acompanhamento familiar. Combater o envelhecimento e o isolamento social, proporcionando aos idosos ocupação de tempos livres através de uma intervenção de natureza biopsicossocial, que contribua para a sustentabilidade das suas vidas, são os grandes desafios a que se propõe a Vivamus, através de actividades recreativas e culturais (visitas orientadas a museus, idas ao cinema, a concertos ao teatro, visitas a exposições, pintura, expressões plásticas, percursos pedestres, música); cuidados de saúde (avaliação e acompanhamento dos principais indicadores de saúde primária, como tensão arterial, índice de massa corporal, colesterol, glicemia, audição e visão); e de acções formativas, de sensibilização e de desenvolvimento pessoal (tertúlias sobre diversas temáticas, terapias ocupacionais com animação cognitiva, expressão e comunicação, dinâmicas de grupo, workshops, formações e pequenas tarefas ocupacionais de acordo com os interesses do utente).


O valor deste acompanhamento, "com tudo o que ele implica, é de setenta euros por mês, por utente", sublinha Catarina Augusto: "Basta que uma empresa, ou qualquer um de nós, queira ser o ‘patrocinador' desse utente para que tenhamos mais uma pessoa idosa a usufruir, de forma gratuita, do nosso projecto. Como se ‘apadrinhássemos' essa pessoa. Uma grande vantagem deste programa é o facto de se poder vir a estabelecer laços de amizade com as pessoas idosas que ajudaram a sair da solidão", adianta ainda.


O financiador "saberá sempre quem é o sénior ou seniores que financia", garantindo assim uma total transparência da actividade do projecto "Um Sénior Acompanhado". O utente pode mesmo ser referenciado pela própria empresa (por exemplo, um seu reformado ou familiar de um colaborador). A Vivamus considera ter o dever de "prestar contas", para que as empresas possam sentir que esse exercício de RS, que é também um exercício de cidadania, está de facto a fazer a diferença na vida de alguém.


Este projecto surge fruto de dois anos de trabalho, durante os quais a associação vem acompanhando cerca de cem pessoas. Não obstante, "conseguir que uma autarquia ou o Estado financiem o projecto tem-se revelado uma missão quase impossível. Daí o nosso apelo às empresas, ao envolvimento de todos", salienta Catarina Augusto.


O envelhecimento é uma realidade que cada dia se torna mais evidente.
A precariedade económica dos seniores, grupo etário no qual apenas 25% das reformas são superiores à pensão mínima de velhice, são factores que por si só justificariam a envolvência das empresas neste projecto, adianta. Na sua opinião, nem sempre é fácil para uma empresa de pequena ou média dimensão incluir a RS nos seus objectivos estratégicos. Projectos como este podem fazer com que haja uma maior envolvência e participação, fazendo a diferença.
Para este ano, a Vivamus tem também outros projectos, realizados maioritariamente com trabalho de voluntariado e parcerias estabelecidas com outras instituições, como é o caso do projecto "Coração" e dos espaços Salutare.


No caso do projecto "Um Sénior Acompanhado", a associação espera reunir apoios para a sua manutenção, já que "é preciso e é urgente evitar que o "banco do jardim" ou os dias em frente à televisão sejam a única alternativa para muitas pessoas idosas". Algo que só será possível "com o envolvimento de todos".

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