À conversa com: Gizzella Mendoza* ![]() 12/07/11, 12:20 "Promovemos a reflexão do espectador sobre a sua realidade"
O GTO LX trabalha a metodologia do Teatro do Oprimido em bairros carenciados, dinamizando encenações a partir de situações reais vividas por pessoas desfavorecidas. O objectivo é promover a reflexão do espectador sobre a sua realidade, gerando "uma consciência comunitária direccionada para a resolução conjunta dos problemas". As comunidades envolvidas "são muito criativas e solidárias", já que se identificam rapidamente com os retratos da vida real que inspiram os espectáculos, sublinha a presidente deste Grupo, Gizella Mendoza.
O Grupo de Teatro do Oprimido - Lisboa (GTO LX) nasceu informalmente em 2004, trabalhando directamente com jovens dos bairros da Cova da Moura e Estrela d'África, após um período de aprendizagem prático na metodologia do Teatro do Oprimido em Moçambique, em 2002. Em 2005, torna-se numa associação sem fins lucrativos, a fim de desenvolver um trabalho sustentável e em parceria com outras organizações locais. O GTO LX trabalha a metodologia do Teatro do Oprimido em bairros onde existe um conhecimento prévio do trabalho da associação. Segundo Gizella Mendoza, normalmente são as próprias organizações locais que contactam o projecto: "O GTO LX nunca entra num bairro para convencer a população a trabalhar com o Teatro do Oprimido. A nossa abordagem passa muito pelo trabalho em parceria". Nas sessões de trabalho, "o mais importante é o convívio e o espaço para ser ouvido, contar e discutir as realidades de cada um", sublinha. Realidades que "surgem de forma espontânea, através dos jogos e exercícios do arsenal do Teatro do Oprimido". Após um trabalho prático de criação, reflexão e produção colectiva de um espectáculo, o qual é apresentado à comunidade, o grupo decide se quer dar continuidade ou não ao trabalho. A continuidade pressupõe o aprofundamento da análise social das situações discutidas, as suas ligações ao poder, as suas origens e, sobretudo, a procura conjunta de soluções, explica ao OJE Mais Responsável a presidente do GTO LX. Como vêm cumprindo a missão de estimular a participação activa e consciente dos cidadãos na construção da sociedade, envolvendo as comunidades na discussão directa de estratégias de actuação? O processo de estimular a participação activa dos cidadãos desenvolve-se dentro do grupo (o trabalho regular nas sessões é de diálogo e de confronto, e a criação é um processo democrático onde todos participam) e dentro da comunidade (as apresentações públicas do grupo dentro da comunidade criam um espaço de discussão aberto, no qual, com base no espectáculo e na procura conjunta de soluções para a situação apresentada, a comunidade dialoga construtivamente sobre o que fazer, enquanto comunidade). As apresentações das peças de teatro do GTO Lx às comunidades, apelando à participação do espectador, que entra em cena para improvisar, como protagonista, soluções alternativas ao problema encenado, têm um balanço "extremamente positivo", garante Gisella Mendoza, para quem "as comunidades são muito criativas e solidárias na procura conjunta de soluções". Disposto a lutar contra as injustiças de que é alvo, o público identifica-se rapidamente com as situações da vida real que inspiram os espectáculos e "intervém com muita determinação e firmeza". Os fóruns nas comunidades "são extremamente ricos", não só em termos de conteúdo, mas em termos de solidariedade e justiça social, conclui. Mas em que consiste a metodologia do Teatro do Oprimido, desenvolvida por Augusto Boal nos anos 60, e hoje praticada em mais de setenta países? Trata-se de uma prática teatral cujo objectivo é promover a reflexão do espectador sobre a sua realidade, expondo o modo como a sua conduta resulta da sua percepção das relações de poder e de processos de dominação e exclusão social. Pretende-se, com esta metodologia, clarificar estes processos, dando ao sujeito modos de agir com conhecimento e em liberdade, a partir de técnicas como o Teatro Imagem; o Teatro Invisível ou o Teatro Fórum. Neste último, os espectadores podem intervir e o palco torna-se num espaço neutro para a exposição e discussão de ideias, "desenvolvendo a participação cidadã, pois todos têm direito a exprimir as suas ideias e vê-las contestadas pelos outros", defende a presidente do GTO LX. Esta reflexão "gera uma consciência comunitária direccionada para a resolução conjunta dos problemas". Ao longo do processo de empowerment social, os beneficiários aprendem a dominar as técnicas do Teatro fórum enquanto as usam para criarem espectáculos que reflectem as suas realidades específicas e que envolvem activamente a toda a comunidade. Numa fase mais avançada, tornam-se eles próprios multiplicadores da metodologia, orientando grupos autónomos que promovem a transformação social dentro das suas comunidades. O trabalho com os grupos ao longo do tempo "provoca muitas mudanças nos seus elementos: os jovens ganham uma visão mais crítica sobre si mesmos, sobre a sociedade e sobre o seu papel enquanto cidadãos participativos, tornam-se mais interventivos e actuam como mediadores de conflitos. Alguns deles voltam à escola porque entendem que o seu futuro passa por uma educação melhor. Tornam-se modelos dentro das suas comunidades e embaixadores das mesmas fora delas". Com a experiência, os elementos dos grupos tornam-se formadores e assumem então responsabilidades de gestão e acompanhamento de grupos. O GTO LX está interessado na formação contínua dos grupos comunitários de Teatro do Oprimido para que estes possam dar continuidade ao trabalho de forma autónoma. Por isso, alguns elementos dos grupos comunitários trabalham enquanto assistentes ou responsáveis da criação e formação de outros grupos comunitários, tendo assim um espaço de experimentação em contexto de formação. Faz parte do trabalho dos grupos a dinamização de jogos, a estruturação de acções de formação e a estruturação do seu próprio processo de aprendizagem. "Todos os elementos dos grupos são incentivados a assumir as funções de formadores/as", nota Gisella Mendoza. O GTO LX realiza acções de formação abertas ao público em geral, para dar a conhecer, numa perspectiva prática, o trabalho do Teatro do Oprimido. Existem vários tipos de formação: Acções de sensibilização, Formação Inicial, Formação Avançada e Formação de Curingas (dedicada ao trabalho dos curingas, que promovem o diálogo entre o público e o palco). Resta dizer que o trabalho voluntário é fundamental para o GTO LX, tendo em conta a diversidade de actividades que o projecto desenvolve. No Festival Internacional de Teatro do Oprimido, realizado em Maio, por exemplo, a participação de vários voluntários foi "a chave de sucesso" do evento.
*Presidente do Grupo de Teatro do Oprimido - Lisboa ![]() ![]() |