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À conversa com - Maria José Dinis, fundadora da Associação Sócio Terapêutica de Almeida (ASTA)
Construir, reconstruir e acreditar sempre no amanhã

14/12/10, 11:38
OJE

Dar apoio e integrar pessoas com deficiência mental e/ou multi-deficiência num contexto terapêutico de cariz comunitário e familiar, promotor de um desenvolvimento holístico e dignificador é a missão da ASTA, vencedora este ano do Prémio Manuel António da Mota. Segue-se a sua história, contada pela fundadora, Maria José Dinis


 

Mudar de vida aos 37 anos "deixando tudo o que era suposto conter os requisitos de um viver normalizado, como seja o emprego, o casamento, a vida social" foi o que fez Maria José Dinis, mãe do Marco, um menino com deficiência mental e fundadora da Associação Sócio Terapêutica de Almeida (ASTA). Sedeada na pequena aldeia de Cabreira do Côa, no distrito da Guarda, a finalidade desta IPSS é a de oferecer às pessoas necessitadas de cuidados especiais (essencialmente jovens a partir dos 15-16 anos com deficiência mental e multi-deficiência), uma alternativa de vida válida e plena de sentido, contribuindo para a sua integração social, humana e económica. A ASTA não tem a intenção directa de normalizar mas, sobretudo, de individualizar, para que cada um encontre o caminho mais adequado. Constituída juridicamente em Outubro de 1998, iniciou a sua actividade efectiva no dia 2 de Outubro de 2000, dia do aniversário do Marco. Todavia, a história da ASTA começa muito antes, em Lisboa, onde Maria José Dinis vivia com o filho, seguida da partida de ambos "para uma pequena comunidade terapêutica no Alentejo que convivia com pessoas com deficiência de uma forma inovadora", como explica Maria José. "Aí estive com o Marco durante um ano em regime de voluntariado e foi nesse ano que coloquei em causa os meus valores e os meus saberes", acrescenta. Acreditando em "sinais e circunstâncias conjugadas", Maria José acabou por ir para a Suíça onde se formou em Pedagogia Curativa e Sócio Terapia e, quatro anos depois, quando voltou, a "enorme vontade de criar um espaço que dignificasse as pessoas com deficiência, crescia e ia tomando forma", recorda. Com várias visitas à aldeia que a viu nascer, Maria José Dinis foi alimentando o seu sonho com um melhor conhecimento dos jovens com deficiência da sua região. Com a ajuda do irmão, que lhe pôs à disposição "um terreno que reunia todas as condições para o espaço sócio terapêutico que vislumbrava" e, como conta Maria José, "contactei as instituições convenientes para auscultar opiniões e dar a conhecer o meu projecto e era com simpatia que a minha visão era acolhida (com cepticismo também da parte de muitos, soube depois)". Reunidas as condições para a formação jurídica da Associação, convidou para associados os amigos mais crentes no projecto e mudou-se definitivamente para Cabreira para trabalhar a tempo inteiro na constituição humana e organizacional da ASTA. Com a ajuda do arquitecto Fritz Wessling, que vivia num contexto sócio terapêutico na Casa Stª Isabel, sabendo exactamente as pretensões da fundadora, o projecto de construção foi elaborado, seguido de uma candidatura ao PIDDAC que, depois de vários obstáculos, nomeadamente o facto da comissão deste ter-se negado a viabilizar a construção neste sítio "atrás do sol-posto", não levou à desistência da fundadora. Nem do sonho nem do local. Como afirma, existem sempre "mas" no caminho, "que podem servir para desistir, para transformar ou para seguir por um atalho". E foi isso que a fez pedir um empréstimo à banca: "fiz algumas obras na minha casa de família. De uma antiga oficina onde meu pai trabalhava a madeira, e do estábulo ao lado, no pátio, nasceu o primeiro atelier multifunções para o primeiro grupo da ASTA: o Marco, o Luís, a Gina, o Flávio e o Zé Manel". E graças ao protocolo com a Segurança Social da Guarda, que acreditou no nosso projecto, as portas abriram-se em 2000. Desde então, a ASTA recuperou a Casa da Oliveira, depois a Casa Cristalina, formou núcleos familiares onde, com os jovens, foi recriada a família com os afectos e responsabilidades inerentes. "Éramos cidadãos activos, com as nossas idiossincrasias, numa aldeia em vias de desertificação e que começou a reviver", sublinha. Em 2004, a ASTA inaugura o seu equipamento de raiz no Alto da Fonte Salgueira e, com "os ateliers espaçosos (Carpintaria, Olaria, Tecelagem, Jardinagem, entre outros) e a Casa da Fonte, para os jovens menos autónomos, foi possível outra respiração e outra dinâmica agora mais enriquecida com a já estabelecida na aldeia", esclarece. Neste momento, a ASTA recebe 34 pessoas com deficiência, 22 das quais vivendo em regime de lar residencial ou em núcleos de autonomia, contando com 24 colaboradores e quatro voluntários. "Há dois anos implementámos dinâmicas agrícolas por forma a aproveitarmos as terras cedidas e procurar, em simultâneo, a sustentabilidade e a saúde. A terra é uma fonte terapêutica, pelo trabalho que nos permite fazer e pelos frutos que nos dá", afirma. A ASTA é um dos projectos cotados na Bolsa de Valores Sociais e foi, este ano, a vencedora do Prémio Manuel António da Mota, que distingue associações que se destaquem no combate à pobreza e à exclusão social. E o que vai fazer a ASTA com o prémio de 50 mil euros? "Vamos acentuar a nossa actividade agrícola, comprando alfaias e um tractor e ainda vedar terrenos onde pastam os nossos animais", afirma sem hesitar Maria José. Mas, como acrescenta esta mulher de armas, "o valor deste prémio vai muito além do pecuniário. Ele é um estímulo, uma força, uma esperança de amanhã, um testemunho a imitar do que é responsabilidade social". Sem dúvida.

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