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Prevenção precoce gera projectos de vida

17/05/11, 10:26

À conversa com Ana Tojal, Vice-presidente e coordenadora-geral da Associação Jerónimo Usera (AJU)

 

Ajudar a organizar e capacitar famílias desfavorecidas dando-lhes novos modelos e oportunidades de mudança, prevenindo assim comportamentos de risco, é o grande objectivo da Associação Jerónimo Usera, que permite às crianças da freguesia de Alcabideche, em Cascais, encontrarem um projecto de vida. Tudo parte da prevenção precoce, garante a coordenadora da AJU.


 

A AJU (Associação Jerónimo Usera) é uma IPSS criada em 2001, no contexto de um dos bairros de realojamento social do concelho de Cascais. Nasceu com a missão de ajudar crianças em situação vulnerável, e respectivas famílias, motivando-as a encontrar o seu projecto de vida. Inspirada na vida e obra do P.e Jerónimo Usera, a AJU, "reconhecida pelo seu trabalho e intervenção na comunidade", tem por objectivo a promoção integral da pessoa humana e da família, atendendo em especial os mais desfavorecidos e marginalizados.

Segundo a coordenadora-geral da AJU, "reconhecemos os nossos limites e estamos dispostos a aprender com o que vamos experimentando. O nosso sucesso depende exactamente disso, estarmos abertos, envolvendo as pessoas, partilhando o que já foi feito e não deixando de ousar". Para Ana Tojal, ainda mais importante "é a noção absoluta de que queremos que as pessoas que vêm ter connosco se sintam de facto acolhidas. Tentamos compreender para melhorar, de forma a garantir a missão à qual nos propusemos: dignificar a pessoa humana na sua totalidade".

Hoje, a intervenção da AJU vai "muito além" do trabalho desenvolvido no bairro de realojamento social da Abuxarda, estendendo-se a uma área geográfica mais abrangente, que é a freguesia de Alcabideche, uma das mais vulneráveis do concelho de Cascais.

Numa lógica de intervenção junto das famílias, surge a necessidade de dar resposta a problemas específicos, como a monoparentalidade, a emigração, problemas de saúde mental, carências económicas, desemprego e a fraca coesão social, explica. Identificados os principais problemas, o trabalho em rede, a "articulação privilegiada" com a Câmara Municipal de Cascais e com a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens, paralelamente ao estabelecimento de alguns protocolos, "permitem-nos dar respostas mais eficazes".

Ana Tojal defende a importância extrema do trabalho que a AJU desenvolve junto das famílias: "Acreditamos na intervenção precoce." O objectivo da associação é ajudar a organizar e capacitar as famílias dando-lhes novos modelos e oportunidades de mudança, prevenindo assim comportamentos de risco. A promoção de passeios em família, por exemplo, que a AJU organiza com regularidade, proporciona a troca de experiências e saberes, envolvendo a comunidade local na organização e dinamização das actividades.

Na sequência do trabalho desenvolvido pela AJU, o projecto Crescer surge "como resposta às necessidades identificadas junto da população que apoiamos". O objectivo principal da iniciativa consiste em promover a inclusão sociocultural das crianças e jovens mais desfavorecidos e marginalizados, motivando-as a encontrar o seu projecto de vida. Ou, nas palavras de Ana Tojal, abrindo-lhes horizontes, dando-lhes opções de escolha e ajudando-as a criar hábitos e estilos de vida saudável.

Na opinião da responsável da AJU, neste momento de crise, as estruturas familiares estão cada vez mais fragilizadas, as crianças estão cada vez mais tempo sozinhas e as famílias investem cada vez menos na educação dos seus filhos. "Não querendo substituir os pais, propomo-nos a ser parceiros das famílias", sublinha.

Com a criação do Projecto Crescer, a associação investe no presente - gerando coesão nas famílias -, prevenindo no futuro situações de marginalidade e isolamento social, concretamente o abandono escolar. Numa lógica de "proximidade e valorização do sucesso escolar", a AJU oferece um espaço de estudo individual ou em grupo adaptado às necessidades específicas de cada criança ou jovem, "motivando-os a dar continuidade aos seus estudos".

No âmbito deste projecto, promove-se ainda o desenvolvimento de competências sociais, pessoais e culturais através da ocupação saudável de tempos livres. Desporto, educação pela arte, oficinas de pintura, música ou teatro são algumas das opções, conclui Ana Tojal. A AJU quer "estreitar e estimular os laços entre a escola e a família e criar novas formas de acompanhamento". Com o apoio do gabinete de psicologia, um dos objectivos específicos é "mudar as atitudes dos pais" através de sessões de formação parental e do grupo de encontro de pais.

Através de dez projectos activos que se completam, a AJU presta assistência mensal a cerca de 250 famílias num total aproximado de 850 pessoas. A experiência do dia-a-dia "ajuda-nos a compreender o que é realmente necessário", diz, e os projectos vão sendo criados de forma a responder a problemas específicos: desde o Projecto Bebé ao Colo até ao Clube Sénior, passando pela distribuição de alimentos (Projecto Recolhas), Loja de Roupa, Colónias de Férias e Projectos como o Recriar ou Ser Capaz.

"Somos confrontados com todo o tipo de carências e é exactamente por isto que sentimos a necessidade absoluta de criar mudança: novos padrões e a promoção de valores que consideramos fundamentais. Acreditamos que as pessoas podem ser agentes da sua própria mudança, todos temos de estar prontos a mudar e é com este espírito que abordamos cada questão. Estarmos atentos, abertos ao outro, ao mais frágil e carenciado, dá-nos uma perspectiva nova e ajuda-nos a descobrir outros caminhos", explica Ana Tojal.

Os projectos vão sendo reavaliados, adaptados e reajustados conforme as necessidades com que a associação se depara, pois "é esta forma de estar que nos impele a ir mais longe e a fazer melhor". Entusiasmo, esperança, esforço, amor e criatividade são ingredientes essenciais, em maior ou menor dose, para "fazer a diferença", defende.

Com uma equipa coesa composta por voluntários e técnicos, a AJU aceita desafios em conjunto, "desenvolvendo estratégias de coesão entre incluídos e excluídos e criando laços e sentido de comunidade". A cotação do projecto Crescer da AJU na Bolsa de Valores Sociais (BVS) é um bom exemplo disso mesmo: a BVS traz à AJU "a possibilidade da boa prossecução destas respostas e da divulgação das mesmas, de forma a garantir a sustentabilidade do projecto". Sublinhando a "clareza e transparência" com que a associação se dedica a uma intervenção na área social, Ana Tojal acredita que "o conceito inovador da Bolsa de Valores Sociais vem dar ainda mais sentido à nossa forma de estar".

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