Quinze anos a "Despertar Consciências" ![]() 13/10/09, 01:00 Convicta de que "a pobreza não se resolve construindo fortalezas à sua volta mas libertando e dignificando quem se tornou sua presa", a Associação CAIS assinala este ano quinze anos de actuação ao serviço da população social e economicamente vulnerável. À conversa com Henrique Pinto, damos conta do trabalho extraordinário que a CAIS desenvolve, não só em prol de pessoas em situação de sem abrigo como para quebrar o ciclo de exclusão social em Portugal. A revista CAIS, como instrumento de capacitação de pessoas em situação de pobreza extrema e de sensibilização do público em geral, foi a primeira grande aposta da Associação de Solidariedade Social sem fins lucrativos fundada em 1994. Hoje, "permanece como o rosto mais visível da sua missão, inserida num quadro de intervenção sociocultural e politica mais alargada". Impedida por razões, sobretudo, económicas, de criar outros projectos de apoio à população sem abrigo, a CAIS, ao longo dos seus primeiros oito anos, "reivindicou o direito à autonomia humana através do exercício do direito ao trabalho, ao colocar, lado a lado, o sem abrigo (utilizador de serviços) e o sem abrigo (vendedor da revista CAIS)". Mas, ao longo desta década e meia, a associação concretizou muitos outros projectos, consolidando-os em sucessivas novas edições. Para além de todo o trabalho diário de acompanhamento psicossocial, o Congresso CAIS já vai na sua 8ª edição e o Prémio de Fotografia REFLEX na 6ª. Acções de solidariedade, feiras sociais, publicações, formação de competências, prémios que ganharam notoriedade, como o Manus (que distingue projectos de apoio e ajudas humanitárias) ou iniciativas como o Pão de Todos, a CAIS Digital, o Futebol de Rua e o AventurArte, sedimentaram o percurso da CAIS, que vem permitindo a muitas pessoas encontrarem um "seu lugar" na sociedade portuguesa. Para assinalar o seu 15º aniversário, a CAIS realiza a 17 de Outubro um Jantar de Solidariedade no Porto. O evento destina-se à angariação de fundos para a construção de um atelier de formação profissional no Centro CAIS Porto. Também no âmbito desta data, comemorada a 20 de Maio de 2009, a associação lançou em Junho, na FNAC do Chiado, em Lisboa, a colecção 15 anos.15 contos. Na presença do ministro da Cultura, foi apresentado um conjunto de pequenas histórias literárias escritas por grandes autores, como José Saramago, Manuel Alegre, Lídia Jorge e Mia Couto, numa iniciativa promovida em parceria com a Escola Ar.Co e a Editora Padrões Culturais. Também em Junho, a CAIS realizou em Lisboa a tertúlia "Portugal Desigual: 15 anos com a revista CAIS" que reuniu personalidades públicas como Maria Barroso Soares, Leonor Beleza, Rui Marques e Fernando Nobre no apelo pela inclusão social, questionando a natureza e contornos da pobreza instalada no País. Duas agências, uma noticiosa e outra de monitorização e certificação de projectos sociais, ligadas ao Prémio Manus, e a criação de uma Panificadora, para gerar postos de trabalho e alguma riqueza, "são três novos projectos que estão a ser trabalhados, e que muito contribuirão, caso se concretizem, para a sustentabilidade da CAIS", explica Henrique Pinto. A este nível, a associação trabalha para ser auto-sustentável, mas "exigirá sempre que o Estado Português cumpra o seu papel social, garantindo através de uma legislação adequada à situação real das pessoas o acesso de todos a bens e serviços", sublinha. Reconhecida como pessoa colectiva de utilidade pública, a CAIS tem como missão contribuir para melhorar as condições de vida de pessoas sem lar e em situação de privação, exclusão e risco. Crítico, Henrique Pinto sabe que "com alguma facilidade se supõe como pobre ou de pouca qualidade qualquer estratégia criada para inverter os níveis de pobreza em Portugal". Defendendo que há ainda quem endosse "uma atitude que advoga, na prática, que a miséria é repugnante", o director da CAIS propõe que "às pessoas presas na teia da pobreza" não se ofereçam "peixes tão fétidos quanto a sua confrangedora pobreza, nem canas de pesca tão quebradas quanto a sua dilacerada estrutura, mas a melhor habitação, saúde, educação, alimentação... e os melhores instrumentos que garantam o acesso a estes e demais direitos". Lamentando "a falta de vontade política e a quase crónica indiferença, por parte da população, em relação ao combate à pobreza", o director da CAIS acredita que esta "não se resolve construindo fortalezas à sua volta mas libertando e dignificando quem se tornou sua presa, e este caminho só será possível quando a sua redução fizer parte do programa de todas as políticas públicas". Felizmente, o número crescente "dos que vão adquirindo uma consciência maior sobre a dignidade do ser humano", tornam o projecto da CAIS numa "personificação, no terreno", desta mesma consciência e no "rosto de infinitos gestos de cidadania. Um caminho "na direcção do Impossível, concretizado na transformação de políticas sociais". ![]() ![]() |