Aparentemente vivemos num mundo "relativo", tudo tem um "
benchmark" com o qual nos devemos sistematicamente comparar, de modo a aferir a qualidade do nosso desempenho. Também é assim no universo da gestão de activos, a performance de um gestor é medida em função do seu comportamento relativo a um "
benchmark" previamente definido.
Um dos problemas da abordagem actual, gestão com "
benchmark", é gerir num profundo clima de incerteza, quer pelos factos relevantes e inesperados, quer pelas balizas credíveis que o deixaram de ser, como por exemplo as agências de rating, que hoje não oferecem suficiente robustez ao mercado, ou por exemplo, as estatistícas trazidas ao mercado pelo anterior governo grego e que não eram credíveis, etc. Assim, todas as variáveis se tornam também elas relativas: risco, retorno e avaliação. Por último e muito importante, os investidores já devem estar cansados de ouvir um gestor justificar uma performance negativa como sendo óptima porque é superior à do "
benchmark"...
A virtude da gestão de um património financeiro passa em grande parte pela flexibilidade de gestão, por poder adequar a exposição a cada classe de activos (acções, obrigações e matérias primas) em função do ciclo económico, mas também pela simplificação dos investimentos: procurar valor em activos, ajustados ao perfil de risco e objectivos de cada investidor, e comprá-los a um preço que potencie uma margem de conforto.
Ora, quando a gestão de um património tem um "
benchmark" altera quase sempre o comportamento do gestor, porque a análise de um determinado investimento passa a ser feita relativamente ao "
benchmark" (esta empresa consta do "
benchmark" ? em que percentagem?) e não em termos absolutos (esta empresa, a este preço é um bom investimento?). Porque a medida de risco, o
tracking-error, mede a margem de erro da performance do portfolio face ao desempenho do "
benchmark" (e o ‘medo' de errar pode levar o gestor a estar sempre 100% investido e com uma exposição próxima do "
benchmark").
Ainda relativamente a esta abordagem, a análise do risco de um investimento é hoje quase resumida a um único número, volatilidade, que expressa a oscilação da cotação desse investimento num determinado período histórico (normalmente as últimas 52 semanas). Se observarmos o gráfico 1, a volatilidade do mercado de acções dos E.U.A. (S&P500) no final de 2007 era muito inferior à verificada no início de 2009, no entanto o comportamento do mercado nos meses seguintes a cada um destes 2 períodos atesta que o risco não é igual a volatilidade. A volatilidade cria oportunidades!
O risco deve ser um conceito que analisa o potencial de perda do capital investido em função do: risco de avaliação (pagámos o preço justo?), risco de negócio (estaremos a correr riscos específicos de um determinado tipo de activo?) e risco financeiro (no caso de existir
leverage).
Por último, a avaliação de um investimento num portfolio monoproduto tradicional é também muito subjectiva, porque ou estamos perante um portfolio de obrigações ou de acções e existem alturas em que devemos investir noutras classes de activos (um portfolio 100% acções deve ter a mesma exposição quando o Price Earnings Ratio de mercado está a 30X e quando está a 10X? vide gráfico 2).
A escolha de um gestor para o seu património deve ser feita, não com base simplesmente na performance relativa, mas em resposta a 3 questões essenciais: você confia no seu gestor? Percebe a forma como ele gere o seu património? A performance tem sido satisfatória face aos seus objectivos pessoais?
Bons e flexíveis investimentos!
Ricardo Rodrigues, director de Investimento da MNF Gestão de Activos