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Montepio
O BCE e a tensão nos mercados

22/02/10, 20:49

O apoio explícito à Grécia por parte dos outros Estados-membros acalmou a ansiedade dos investidores e, agora, todos os olhares se dirigem para o BCE, nomeadamente como a tragédia grega condicionará a sua política monetária. Os investidores interpretam (a postura) como uma limitação na margem de subida dos juros na Europa e como uma debilidade para o euro.
A realidade é que dentro de uma união monetária não há atalhos e um banco central pouco pode fazer. No entanto, a Grécia tem um sério problema de liquidez, já que tem de renovar metade dos seus vencimentos (dos empréstimos) em 2010, em Abril e Maio, e o apoio financeiro coordenado pelo banco central será a chave. No entanto, a sustentabilidade da dívida de um país no longo prazo exige que o crescimento potencial supere a taxa de juro real de financiamento, caso contrário a dívida crescerá exponencialmente. Em 1992, vivemos episódios de tensão ao nível da dívida pública europeia e não houve problemas por ter de se pagar, durante alguns anos, um diferencial elevado relativamente à dívida alemã.
A curto prazo, a chave estará no saneamento dos desequilíbrios e, no longo prazo, será tomar medidas e aplicar reformas que aumentem o crescimento da produtividade e o respectivo crescimento potencial. Outro caminho poderá ser o reconhecimento que se vive acima das possibilidades, reduzindo os salários e ajustando-os à sua paridade internacional.
O problema está no facto de apesar de tudo o que temos vivido nos últimos dois anos, continuamos a acreditar no mito de que o preço dos activos financeiros reflecte, em cada momento, os fundamentais económicos. A crise financeira de 2008 que esteve quase a converte-se numa crise bancária sistémica e numa depressão económica global era uma novidade e foi apenas a acção dos Estados e o aumento da dívida pública que conseguiu evitar o desastre. No entanto, a crise da dívida europeia de 2010 não era nenhuma novidade, pois recuperava, em muito, a situação do Sistema Monetário Europeu de 1992.
Naquela altura, os investidores, atrás do "não" dinamarquês ao Tratado de Maastrich e do "pequeno sim" francês, apostaram que o euro nunca veria a luz, mas equivocaram-se. No entanto, durante quatro anos, mantiveram a aposta errada, com um elevado custo para os países que sofreram ataques especulativos.
O grande problema europeu (acaba por ser) a debilidade crónica do consumo alemão. No entanto, se a locomotiva alemã voltar a funcionar, o resto dos países aumentará o potencial de crescimento e melhorará, significativamente, as perspectivas fiscais e da dívida pública.
O problema está em que o processo de consolidação fiscal e de reformas nos vários países será lento e a recuperação do consumo alemão também, pelo que teremos de estar durante alguns anos a conviver com tensões nos mercados de dívida.

 
Pertencer ao euro tem custos, no entanto os benefícios são muitos. Continuamos a aproveitar as taxas de juro historicamente baixas, o que facilita em grande medida o ajuste necessário, ainda que cada país seja responsável por aplicar as mudanças necessárias para voltar a um modelo de crescimento sustentando, incluindo a Alemanha.

 
José Carlos Díez, economista-chefe da Intermoney (Madrid)

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