Portugal não é a Grécia... definitivamente ![]() ![]() 22/02/10, 21:14 As medidas de politica fiscal aplicadas um pouco por todo o Mundo no final de 2008 e ao longo de 2009 cumpriram com o objectivo de estabilizar um processo de desalavancagem que, se tivesse continuado a progredir de forma descontrolada, teria tido certamente consequências gravíssimas para a economia. Foi portanto uma intervenção absolutamente necessária e inspirada em toda a experiência acumulada ao longo das piores recessões do século XX. É evidente que estabilizar a situação não é resolvê-la. É apenas o primeiro passo, no qual o Estado chamou para a esfera pública - que dispõe de outros meios e trabalha noutros horizontes temporais - um problema privado que, de tão disseminado por toda a economia, já era público em tudo menos no nome. Os desequilíbrios orçamentais e o volume de dívida pública que daí resultam são, sem dúvida, assustadores mas é importante que não percamos de vista o plano original. Criticar passados 12 meses os efeitos das medidas correctamente aplicadas para evitar uma crise só comparável à Grande Depressão do princípio do século passado é falta de coerência. É também esquecer as lições dos anos 30 nos EUA e dos anos 90 no Japão. Procurar o reequilíbrio rápido das contas públicas foi exactamente o que mergulhou as economias daqueles países em períodos prolongados de crescimento nulo ou negativo, depois de ao princípio se pensar que se tinha evitado o pior. A discussão torna-se mais relevante agora que se discute a questão Grega no âmbito da União, e que se volta a usar o acrónimo PIGS para o conjunto de países que outrora fizeram juntos o caminho da convergência. Como nome nunca foi bonito. Apesar de ser o acrónimo de "Portugal, Italy, Greece, Spain" é evidente que a palavra inglesa que assim se forma tem conotações pejorativas. Talvez por isso os departamentos de compliance dos bancos sedeados em países onde o politicamente correcto do século XXI faz por eles o que a boa educação do século XX não conseguiu, agora desaconselhem vivamente a sua utilização em documentos que possam vir a público. Mas, além disso, como classificação é bastante pobre. Estes países não são um grupo homogéneo e, apesar dos deslizes do comissário Almunia, Portugal não deve ser confundido com a Grécia. Se quiséssemos criar grupos homogéneos, a Grécia estaria na companhia da Letónia, Lituânia e Irlanda, mas infelizmente as iniciais não formam nenhuma palavra conhecida. As duas medidas mais relevantes na análise da presente situação são o deficit estrutural e o aumento dos custos de serviço de dívida em percentagem das receitas fiscais. Por estas medidas, o grupo de risco é na verdade composto pela Letónia, Irlanda, Lituânia, Grécia, Roménia, Espanha e Reino Unido. Este último com a vantagem - enorme, deve dizer-se - de ter uma divisa própria e poder por essa via fazer alguns dos ajustes necessários. Isto não quer dizer que Portugal não tenha problemas fiscais. Tem-nos, e graves, mas se queremos que os mercados de dívida pública posicionem correctamente o nosso risco de crédito no contexto dos outros países da União com base em algo mais que mnemónicas antigas, devemos não só ter um plano de reequilíbrio fiscal robusto e que reúna consenso interno, mas também a habilidade de o comunicar de forma clara. Os custos de não o fazer são claros: taxas de juro mais altas no financiamento da dívida pública e o risco de que nos sejam impostas "medidas de emergência" que poderão ter um impacto sério no crescimento económico dos próximos anos, já de si previsivelmente débil.
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