Ao preparar-me para escrever este artigo, apercebi-me que passaram já quatro anos desde que iniciei a colaboração com o OJE.
Não poderia ter havido período mais interessante para acompanhar a evolução da conjuntura económica e dos mercados financeiros. A crise do crédito
subprime em 2007; a falência da Lehman Brothers e a ameaça de colapso do sistema financeiro em 2008; a profunda recessão vivida por várias economias em 2009; as crises do risco soberano e da Zona Euro em 2010; e as respostas inéditas de política monetária e orçamental que acompanharam todos estes eventos, foram temas fascinantes (e ao mesmo tempo assustadores), que muitas pessoas (e, em particular, economistas) não tiveram a "sorte" de acompanhar ao longo de décadas. Mas que nós presenciámos, de forma concentrada, em apenas quatro anos. Como diz a maldição tradicionalmente atribuída aos chineses: "Que possas viver em tempos interessantes!"
Apesar das dificuldades e incertezas geradas por esta sequência de eventos (e, sobretudo, apesar do sofrimento associado aos aumentos do desemprego e das situações de pobreza), nem tudo foi mau neste período. A verdade é que a economia mundial e os mercados financeiros mostraram uma enorme capacidade de resistência às adversidades. Se, há cinco anos atrás, alguém nos tivesse descrito o que aí vinha, provavelmente teríamos achado que mais valeria vendermos tudo o que tínhamos, comprarmos um grande stock de provisões, escondermo-nos num lugar seguro e esperarmos que tudo passasse. No entanto, a posteriori, vemos que esses receios teriam sido exagerados.
De facto, não obstante todas as preocupações que ainda se mantêm, a primeira metade de 2010 foi marcada por uma recuperação da actividade económica global. Incluindo a Zona Euro, tão fustigada nos últimos tempos. Este ponto pode ser ilustrado pelo registo, recentemente divulgado, da produção industrial na Alemanha em Maio - uma variação mensal de 2.6% e um ganho homólogo de 12.4%. A economia alemã tem beneficiado da recuperação dos fluxos de comércio internacional e da tendência de depreciação do euro observada ao longo dos últimos meses. Em termos mais globais, refira-se a revisão em alta das perspectivas de crescimento do PIB mundial levada a cabo pelo FMI. O Fundo espera agora que a economia mundial cresça 4.6% em 2010, o que representa uma subida de 0.4 pontos percentuais face à anterior previsão.
Dito isto, a generalidade dos indicadores é consistente com a ideia de que teremos já passado o "pico" deste ciclo de aceleração da actividade, esperando-se, assim, uma desaceleração do crescimento na segunda metade do ano (ainda que não espere o chamado double dip, ou regresso a uma recessão). O esgotamento gradual dos estímulos de política levados a cabo ao longo do último ano, a inversão do ciclo positivo na acumulação de stocks, a persistência de níveis elevados de desemprego nos Estados Unidos e na Europa e a adopção de políticas económicas mais restritivas são alguns dos factores a suportar um cenário de moderação do crescimento global nos próximos trimestres. Adicionalmente, persistem (em meados de Julho) as dificuldades de funding em algumas economias da Zona Euro (sobretudo na "periferia") e subsistem os receios e as incertezas em torno da capacidade de resistência do sector financeiro à actual crise.
Em suma, vivemos um momento de alguma indefinição. É certo que, nos tempos mais próximos, não se esperam crescimentos muito fortes nas economias da Europa e dos Estados Unidos. Mas uma recuperação da confiança dos investidores (sobretudo em relação às finanças públicas e ao sector financeiro europeus), acompanhada por alguma reabertura dos mercados monetário e de crédito (sobretudo em relação à periferia da Zona Euro), poderia melhorar significativamente o outlook para 2011. Os factores que poderiam contribuir para isto seriam, acima de tudo, uma reacção favorável do mercado aos resultados dos stress tests aos bancos europeus, a constatação de um crescimento maior que o esperado na Europa em 2010 e a divulgação de resultados positivos na redução dos défices públicos na periferia da Zona Euro. Por outro lado, uma reacção negativa aos stress tests e um eventual prolongamento dos problemas de funding na Europa são factores de risco a ter em conta. Em todo o caso, para mal ou para bem, deveremos continuar a viver "tempos interessantes" nos próximos meses.
Carlos Almeida Andrade, economista-chefe do BES