Investimento sustentável é o mesmo que dizer investimento com risco controlado e amigo do ambiente.
Erol Bilecen, director do Banco Sarasin na área dos investimentos sustentáveis, explica a estratégia e as opções que estão a atrair muitos investidores para este banco suíço privado, fundado em 1841.
O Banco Sarasin é um líder nos investimentos sustentáveis. O que é que isso significa no novo enquadramento económico e financeiro no período pós-Lehman?
Dá-nos novas e reais oportunidades, pois depois do colapso de Setembro houve clientes que não se sentiram bem com seus gestores financeiros. Aquilo que procuram é voltar às origens. Verificamos isso pelo nível de activos que estão a entrar no banco Sarasin. Temos novos e grandes clientes, que estão enfocados na gestão de activos e não querem nada mais para além disso.
Como o volume de activos sob gestão do Sarasin?
Globalmente tínhamos 52,4 mil milhões de euros a 30 de Junho último, sendo que 6,6 mil milhões em gestão de activos ligados à sustentabilidade.
O que diferencia o Banco Sarasin de outros gestores de fortunas?
Em geral somos mais uma boutique de investimento. Não tentamos oferecer tudo porque estamos conscientes que dessa forma, não poderemos ser os melhores em nada, à semelhança do que tentam os grandes bancos.
Sustentabilidade, investimento temático, análise quantitativa, é o que oferecemos aos nossos clientes. Podemos também oferecer produtos estruturados e, nesse caso, aconselhamos os melhores de acordo com o respectivo perfil e ambições.
O que significa o conceito sustentabilidade. Tem modelos de análise em termos de rating qualitativos e quantitativos?
Temos mecanismos de análise quantitativa. No entanto, essa é uma análise orientada para o passado, para aquilo que foram resultados do passado e nós queremos também ter opções quanto ao futuro e isto porque todo o investimento terá de ser orientado para o futuro. A imagem que posso dar é aquela em que se analisa uma empresa com base nos resultados passados e ninguém está interessado naquilo que já aconteceu. A análise das companhias tem de se basear na análise e na sustentabilidade que oferecem, de acordo com os nossos parâmetros.
Os analistas têm de reduzir essa informação a ideias e a números com o objectivo de os comparar com outras companhias. Chamamos quantitativo porque estamos a colocar os números numa espécie de check-list.
Sobre o nosso conceito de sustentabilidade, resume-se àquilo a que chamamos o senso comum. Basicamente não nos podemos fixar apenas no conceito económico, mas também no enquadramento ambiental e em todos as decisões que envolvam esta temática.
Não queremos ver apenas a companhia e aquilo que mais impacta nos resultados da companhia. Com a sustentabilidade podemos reduzir alguns riscos e podemos ver outras oportunidades que irão melhorar a performance.
Pode explicar a estratégia e as oportunidades dos vossos fundos sustentáveis nucleares?
Temos de questionar quais os desafios do futuro próximo como, por exemplo, a produção de energia. Com 7 mil milhões de pessoas a viverem neste planeta, todas dependem da energia em termos de bem-estar e todos sabemos que o petróleo ou o urânio são recursos finitos. O que virá a seguir? A resposta estará nas energias limpas: vento, biomassa e todas as outras. Haverá, por isso, fontes de energia diversificadas.
O próximo tópico para a sustentabilidade do planeta será a questão da água. Muitas regiões do Mundo registaram variações climáticas com países a esbanjar estes recursos, enquanto outros estão sofrer com secas severas.
Como podemos aproveitar isto. De acordo com as Nações Unidos existem 1,1 mil milhões de pessoas que vivem em regiões com falta de água. Como lidar com estes factos, sabendo nós que a água é um recurso crítico para as vidas dos seres humanos e para as economias. Recordo um relatório que publicámos em 2005 onde se dizia que a água poderia vir a tornar-se um grave problema ao nível do crescimento económico no sudeste da Ásia. Dois anos depois, em 2007, chegou-se à conclusão de que tudo o que se disse se tornou realidade. Outro tópico de investimento poderá ser a saúde. Barak Obama está a tentar alterar o modelo assistencial nos EUA, permitindo o acesso aos serviços de saúde de forma gratuita a todos os cidadãos.
E como evoluíram os resultados dos fundos do Sarasin? Tem fundos que histórias de sucesso, mas também tem fundos com resultados negativos?
Ter resultados negativos é ter fundos de acções nos últimos anos.
No entanto, hesito em responder porque tenho de saber do investidor qual é o seu tempo de investimento e saber o que realmente lhe interessa, se é a rentabilidade, o posicionamento ou a questões ambientais, entre muitos outros tópicos.
Temos um exemplo bom para responder a essa pergunta, com um fundo de obrigações lançado em Janeiro de 2000. Tem tido resultados animadores mas quando comparado com fundos de obrigações convencionais, o nosso fundo ficou abaixo da performance de concorrentes. E isto porque desde 2003 até Setembro do ano passado, os fundos concorrentes investiram em CDO e em ABS, ou seja, investiram em activos "triple A" e com yields elevados. Logo, o nosso fundo parece estar "underperform". Mas entretanto, veio a "prova dos 9" com o colapso da Lehman e todos ficaram preocupados e o entendimento que passaram a ter do nosso fundo de obrigações é que é excelente, quando visto à luz dos últimos meses, mas desinteressante quando analisado ao longo dos últimos anos. Por isso hesito sempre em dizer que algo é um "flop" ou está acima de qualquer "flop". Na verdade, não podemos aspirar a ter fundos de investimento que todos os anos estejam acima da média, isso é uma ilusão.
Os investidores actuam com a cabeça ou com o coração?
Investem com ambos os orgãos mas, no fundo, o que importa é o senso comum. Porque nos hão-de colocar dinheiro sob a nossa gestão se não estão suficientemente convencidos? Têm de ter um modelo de negócio que convença. Por isso, a decisão é muito racional lá no fundo, mas também vem muito do coração. Tentamos ser racionais, mas também temos de ter paixão sobre aquilo que fazemos.
Que impacto sentiu na gestão dos fundos do banco perante o avolumar de problemas dos mercados financeiros?
Se estamos no mercado sofremos com o mercado. Se temos um fundo público aberto, não podemos estar expostos apenas com liquidez. Se somos um fundo de acções, temos de ter acções. Isto significa que estamos a trabalhar muito em paralelo com o mercado. Em 2006 conseguimos, na generalidade dos nossos fundos, uma performance 10% acima da média do mercado, para em 2007 estarmos 14% acima. Em 2008 o que se esperava? Fomos com o mercado e ficámos apenas 2% abaixo da média, mas agora com a retoma do mercado estamos, novamente, acima da média do mercado, cerca de 3%, considerando o índice MSCI World.