Será necessário seguir os indicadores de recuperação das empresas e ver o aumento consistente das receitas, mas o cenário central da Schroders indica uma recuperação dos mercados accionistas para 2010, afirma Pedro Assis, sub-director geral da Schroders Spain & Portugal.
Que impacto terá nos mercados financeiros a remoção das medidas de política monetária não convencionais, admitidas pelo Conselho de Governadores do BCE?
O BCE, como outros bancos centrais, tem tido especial cuidado em informar o mercado dos seus cenários macroeconómicos e as consequentes medidas de política monetária a implementar. A remoção das medidas não convencionais, como também a eventual subida das taxas de juro, é algo que se discute mas não se prevê para o imediato. O Banco tem consciência perfeita que uma saída demasiado cedo poderia ter consequências dificilmente reversíveis e não as deverá arriscar.
Acredita que será possível retirar o dinheiro em excesso da economia sem criar sobressaltos no sistema financeiro?
Todos estamos conscientes de que esta é uma situação extraordinária da qual ainda não saímos, e que a própria aplicação das medidas necessárias para repor a normalidade implica riscos, mas acredito que é possível que isso seja feito sem grandes sobressaltos.
Considera que o actual nível de inflação é suficientemente conservador para evitar uma remoção apressada das referidas medidas?
Há vários factores que estão a contribuir para manter a taxa de inflação um nível muito baixo, entre os quais a capacidade produtiva ainda por utilizar na economia, e a falta de pressão de procura por parte dos consumidores finais. A actividade económica tem estado a ser liderada pela produção industrial, e que aos poucos voltamos a níveis de utilização de capacidade mais altos, mas até que a taxa de desemprego comece a diminuir e que as famílias tenham recomposto os seus balanços, reduzindo o volume agregado de dívida, o consumo privado continuará fraco. Nestas condições não vemos pressões nos índices de preços do consumidor no imediato, nem por essa razão nenhuma pressa em remover as referidas medidas.
O nível das taxas de juro está nos mínimos? Como espera que venha a ser a politica monetária e a evolução das taxas de juro ao longo de 2010?
Se desprezarmos os pequenos movimentos de curto prazo nos mercados, e nos focarmos no nosso cenário central de recuperação da economia mundial em 2010, podemos afirmar que estamos num mínimo cíclico nas taxas de juro. Acreditamos que as taxas dos bancos centrais europeu e americano se irão manter aos níveis actuais até meados de 2010, mas que até ao primeiro trimestre de 2011 irão começar a subir.
Acredita na recuperação sustentada dos mercados accionistas em 2010?
Sim. O nosso cenário central contém previsões bastante animadoras para o crescimento dos resultados das empresas, e por consequência para a valorização das acções. No entanto este cenário não é isento de risco, e haverá que seguir com muita atenção os indicadores de recuperação económica e a forma como essa recuperação se traduz em aumento de receitas para as empresas. A melhoria de resultados em grande parte por corte de custos a que assistimos este ano não é suficiente por si só para continuar suportar a subida do mercado.
O que está por trás da subida da cotação do ouro? Pode ser uma opção de refúgio?
Em parte sim, mas essencialmente a subida do ouro é o espelho da desvalorização do dólar norte-americano e de toda a realidade económica que lhe está na origem. O ouro não produz qualquer dividendo ou ganho a quem o detém. Procura-se ouro por especulação, quando há um aumento de aversão ao risco - porque se receia a queda do preço dos activos financeiros, seja em termos nominais ou reais - mas também genericamente para reserva de valor. A respeito deste último ponto é notório o interesse novamente revelado pelos bancos centrais pela aquisição de ouro para diversificação da sua base de reservas, actualmente demasiado concentrada em dólares e títulos representativos de dívida americana.
A subida do preço dos metais não preciosos reflecte o potencial de crescimento dos mercados emergentes, ou há muita especulação pelo meio?
Começou por ser um reconhecimento do potencial de procura dos mercados emergentes, depois de um enorme exagero de queda de preços em 2008 pela razão inversa. A este movimento inicial, fundamentado, seguiu-se uma segunda vaga de procura por necessidade tardiamente sentida de repor stocks, a que mais tarde se acrescentou procura por pura especulação. Como resultado há alguns metais a actualmente a transaccionar a preços que não se conseguem justificar com base numa análise de procura-oferta-stock disponível. Esses terão que ter uma correcção a médio prazo. A longo prazo acreditamos que a tendência é de valorização.
A crise pertence, ou não, ao passado? Vê algum risco com o crescimento dos valores de incumprimento quer dos particulares quer das empresas de uma maior fragilidade dos bancos? Poderemos estar de novo no início de uma nova crise financeira com a falência de bancos de referência?
A previsão central dos economistas da Schroders é de que passámos o pior em termos económicos e iremos ter uma recuperação em 2010. Se analisássemos ao detalhe veríamos que o crescimento trimestre a trimestre em determinado momento em 2010 terá um abrandamento em relação ao forte crescimento na segunda metade deste ano mas estamos confiantes de que conseguiremos evitar o chamado "double-dip", ou seja, evitaremos uma recaída numa mini-recessão de curta duração antes da recuperação final. Tendo disto isto é claro que vemos vários riscos, sendo um deles o risco de que o consumidor final se retraia mais do que o esperado e não ajude a consolidar esta recuperação. Outro é que a retoma demora mais do que o esperado e os deficits públicos continuem a aumentar, algo que é necessário no curto prazo mas não se pode permitir indefinidamente. Na eventual ausência de uma forte iniciativa privada as medidas para reduzir esse deficit poderiam então ser um entrave ao crescimento.
Como espera que seja o comportamento económico e a saída da crise? Iremos assistir a uma retoma económica prolongada em L ou U ou acha que estamos perante um elevado risco de vivermos a complexidade de uma evolução em W?
Nesses termos teremos um W inclinado para cima seguido de uma recuperação lenta. 2010 será melhor que 2009, mas incluirá um período de crescimento mais lento. O crescimento voltará depois a acelerar mas os países desenvolvidos demorarão muito até que voltem a alcançar os ritmos de crescimento potencial de que se falava em 2005 e 2006. Por um lado será necessário reduzir o nível de endividamento privado e público, o que no imediato reduz o crescimento, e por outro o sector financeiro não vai tão cedo voltar a ter as condições e a apetência para alavancar esse crescimento através da concessão de crédito ao ritmo a que o fazia até há dois anos.
Como pensa que será o comportamento dos níveis de desemprego e como pensa que será o comportamento do consumo em 2010?
Olhando para o panorama mundial, e apesar de alguns sinais encorajadores nos últimos meses, infelizmente há que reconhecer que a taxa de desemprego poderá ainda aumentar antes de começar a diminuir. As boas notícias vêm do segmento de trabalho temporário, que precede os movimentos no mercado de trabalho em geral, e da actividade industrial, que em breve irá voltar a gerar oferta de emprego. A recuperação do consumo começa por estar dependente da interiorização por parte dos consumidores destas expectativas de melhoria, mas em última análise da sua concretização.
Os mercados emergentes são a solução para os investidores com matriz mais agressiva?
Os países emergentes encontram-se numa posição muito diferente da do mundo desenvolvido. No seu conjunto na verdade não tiveram uma recessão em 2009, em grande parte porque já tinham passado por um fenómeno muito semelhante no período 1997-99 e passaram a última década a reestruturarem-se para garantir que isso não voltaria a acontecer. As suas contas públicas e externas apresentam os saldos positivos que faltam "à outra metade". Esses superavits e as formas encontradas para os aplicar poderão inclusivamente ter contribuído para o aumento exagerado de endividamento do mundo desenvolvido e a crise que se lhe seguiu. Se acrescentarmos as alterações demográficas e sociais potenciadoras de mais consumo privado podemos concluir que são estas as economias que apresentam as melhores condições para gerar um ritmo de crescimento elevado nos próximos anos.
No actual contexto e dentro daquilo que perspectiva em termos do comportamento dos mercados financeiros e do cenário de evolução macroeconómico, que conselho dá aos investidores portugueses?
O nosso conselho assenta na convicção de que 2009 é o primeiro ano de uma nova fase ascendente nos mercados financeiros. Nesse sentido estamos a aconselhar os investidores a, de uma forma prudente e na medida da sua tolerância ao risco, aumentar a exposição a activos mais arriscados e também mais rentáveis. Temos insistido no facto de que as aplicações de curto prazo e em dívida pública actualmente não oferecem uma boa rentabilidade, e em alternativa temos sugerido o investimento em obrigações de empresas e o regresso ao mercado de acções. Por último, e com as devidas chamadas de atenção para a volatilidade que os caracteriza, temos também apontado o maior potencial de valorização dos mercados emergentes.
Os portugueses estão a poupar mais. São tradicionalmente super conservadores e adversos ao risco, no entanto em termos técnicos nesta fase será aconselhável alocarem alguns fundos em activos de risco?
Por tudo aquilo que ficou exposto acreditamos que sim.