| true- Quinta-Feira 24 Maio de 2012
Informação financeira da Euronext, disponibilizada por
Comstock
- A Division of Interactive Data Corporation.
 20/12/11, 19:50 Por Vítor Norinha/OJE No actual contexto de grande volatilidade e incerteza nos mercados, Diogo Serras Lopes, director de Investimentos do banco Best, recomenda a diversificação dos portefólios. O objectivo é evitar a exposição a apenas um ou a dois riscos. A tendência emocional de ter apenas um instrumento financeiro é um erro no actual cenário. Diz ainda que a Zona Euro, numa perspectiva de longo prazo, terá de optar por uma maior integração das políticas fiscais e das balanças comerciais e de pagamentos. O ambiente gerado pós cimeira europeia de 9 de Dezembro levou a quedas fortes no mercado accionista. O que está na mente dos investidores? O aumento sentido na aversão ao risco - materializado através de quedas nos mercados accionistas - parece ter a ver essencialmente com o arrastar da crise europeia, e os receios que este impasse leve a um pior ambiente em termos macroeconómicos, em especial na Zona Euro. De facto, nesta altura o consenso das estimativas de crescimento económico para o ano de 2012 na UEM aproxima-se do zero, com várias casas a estimar mesmo um cenário recessivo, devido à aplicação simultânea de políticas fiscais restritivas em todos os países.
O que é que os investidores/mercados esperam dos decisores políticos europeus? Desde o início da crise, a resposta europeia tem sido, por um lado, muito mais reactiva do que proactiva e, por outro lado, tem existido uma tendência para adiar a resolução dos problemas. A desunião sentida, com várias vozes dissonantes, contribui para a noção de que a UEM está mais próxima de uma soma de nações, do que um verdadeiro projecto de integração europeia.
Uma solução de longo prazo tem de ter em conta a criação de mecanismos de correcção dos desequilíbrios macroeconómicos que se foram acumulando com o fim das taxas de câmbio. Esses desequilíbrios passarão, provavelmente, por uma maior integração económica, não apenas das políticas fiscais, mas também das balanças comerciais e de pagamentos dentro da UEM.
No entanto, a viabilidade de uma solução de longo prazo implica que os problemas de curto prazo sejam resolvidos. As tensões sentidas no sistema financeiro europeu foram, de alguma forma, acalmadas com as decisões recentes do BCE, mas, de forma nenhuma desapareceram. Também o potencial impacto recessivo das medidas de controlo da política fiscal, por serem simultâneas em toda a Zona Euro, podem tornar contraproducente o esforço de redução de dívida/PIB.
Que perigos é que os mercados financeiros vão registar perante a indefinição de medidas para restaurar a credibilidade na zona euro?
O mero facto de, recentemente, ser assumido pelos principais responsáveis políticos da Zona Euro que o projecto da moeda única poderá estar em risco, é algo de surpreendente dados os obviamente massivos custos envolvidos para todos os países - da periferia e do centro. Nesse sentido, a incapacidade de se encontrar um cenário de compromisso que permita o aprofundar do processo de integração europeia é o maior risco que se apresenta aos mercados para 2012. A potencial deterioração do contexto de crescimento económico, em toda a Zona Euro, poderá contribuir para uma flexibilização progressiva de posições que permita obter um consenso. Que activos da zona euro se podem considerar sem risco, ou com risco reduzido?
Os activos tradicionalmente com menor risco - depósitos a prazo ou obrigações de qualidade de crédito elevada e baixas maturidades, são os activos com risco mais reduzido e assim se devem manter.
A dívida soberana da generalidade dos países da zona euro deve ser tratado como um investimento de risco acrescido, ou é um exagero dos mercados? A resposta europeia à crise de dívida soberana tem dado azo a que a dívida pública passe a incorporar uma componente de risco de crédito que, até agora, estava ausente das análises do mercado. Como referi anteriormente, com a excepção provável da Grécia que se encontra numa situação muito diferente de todos os outros países europeus, é difícil conceber um cenário em que um incumprimento soberano não implique transformações profundas - e com custos elevadíssimos - da arquitectura actual da Zona Euro. Nesse sentido, parece-me existir algum exagero nos actuais juros em mercado secundário de muitos países europeus.
A incapacidade de a Alemanha colocar dívida soberana ao valor que queria, num recente leilão, indica que a desconfiança do mercado está a chegar ao "coração" da economia europeia?
Esse leilão ocorreu numa fase de indefinição aguda relativamente às soluções europeias, tendo a incapacidade estado provavelmente ligada às dificuldades de sentidas no sector financeiro europeu em termos de "funding" e também à falta de vontade do sector financeiro não europeu em deter activos de países da Zona Euro, sejam estes alemães ou da periferia. Nesse sentido, teve de facto o condão de demonstrar que, embora a níveis de juros muito diferentes, todos os países da Zona Euro estão no mesmo barco.
Que estratégia de investimento deve ser adoptada na Europa perante o actual cenário?
Momentos de particular incerteza, como o que estamos a viver, aconselham alguma cautela nos riscos presentes numa carteira de investimentos. No entanto, momentos de crise são historicamente bons momentos de entrada em activos de risco. Assim, e tendo sempre a perspectiva de longo prazo necessária a qualquer investimento, este é um cenário em que os investidores devem reforçar a diversificação dos seus portfolios para não estarem expostos maioritariamente a apenas um ou dois riscos. E também resistir à tendência meramente emocional para tomar decisões radicais de só terem um instrumento financeiro, por mais atractivo que este possa parecer no imediato.
Carteiras globais, com a exposição a risco adequada a cada perfil, bem diversificadas em termos de regiões, sectores e moedas continuam a ser a melhor resposta dado que ninguém tem a capacidade de adivinhar o futuro.
Que activos são mais defensivos e quais os activos que apresentam maior potencial de rendibilidade na Europa?
Os activos com maior potencial de valorização são simultaneamente os activos com maior risco, como seria de esperar. A generalidade do mercado accionista europeu encontra-se a níveis de avaliação historicamente muito baixos, o que indica uma oportunidade significativa de compra para o longo prazo. Claro que, num cenário de deterioração económica, isso não significa por si que estes activos não continuem a experimentar um nível de volatilidade elevado.
Os mercados emergentes são uma alternativa ou são um risco potencial?
São ambas as coisas. Representam uma alternativa, por existir uma diferenciação ao nível tanto dos sectores principais presentes nos índices, como ao nível do comportamento económico destes países. No entanto, embora seja uma realidade que os países emergentes são hoje menos dependentes das exportações para os mercados desenvolvidos, tal não quer dizer que sejam imunes a uma desaceleração económica nestes últimos. Para além disso, há uma série de riscos adicionais característicos dos mercados emergentes que não estão presentes na generalidade dos mercados desenvolvidos (riscos políticos, regulatórios e outros).
Ao nível das matérias-primas quais são as apostas aconselhadas, considerado um cenário de recessão na Europa e de crescimento de 5% na China?
O banco Best não realiza aconselhamento sobre matérias-primas específicas. De qualquer forma, num cenário recessivo no mundo desenvolvido e de desaceleração clara nos mercados emergentes, será expectável que as matérias-primas tendam a registar um comportamento negativo em termos de evolução de preços, dada a provável diminuição em termos da procura agregada.
Que moedas devem ser escolhidas numa estratégia defensiva a nível do mercado Forex?
As moedas de países com situações fiscais mais confortáveis deverão ser favorecidas num cenário defensivo. Os países nórdicos europeus e respectivas moedas, como a Noruega e a Suécia, enquadram-se nesta perspectiva.
Em que crosses está o maior potencial de volatilidade?
O banco Best não realiza aconselhamento sobre crosses cambiais específicos. No entanto, caso não existam eventos sistémicos específicos, os crosses mais voláteis, como AUD e NZD e JPY deverão manter essa tendência ao longo dos próximos meses.
Que peso tem a tensão político-económica do euro/dólar na evolução deste crosse?
Nem o bloco económico europeu, nem o norte-americano têm interesse em que as respectivas moedas valorizem de forma significativa. Pelo contrário, uma desvalorização controlada dessas moedas tem o efeito de no curto prazo amenizar os problemas económicos, ao tornar as respectivas exportações mais competitivas. Tem sido, aliás, uma evolução descendente de ambas as moedas face às outras moedas mundiais que explica a aparente estabilidade do cross euro/dólar.
É interessante o investimento a prazo em activos denominados em yuan?
A China, com um maior ou menor grau de crescimento económico no imediato, deverá continuar nas próximas décadas a sua afirmação como uma das principais potências económicas mundiais. Nesse sentido, a tendência do yuan para começar a assumir um papel de moeda de reserva no globo, deverá continuar a ser uma realidade. Há que ter em atenção, no entanto, que a moeda chinesa, e os seus movimentos face às principais moedas mundiais, continua a ser muito controlada pelas autoridades daquele país, o que aumenta o nível de incerteza relativamente à evolução desta.
O "back to basics" na área financeira significa voltar aos produtos de tesouraria e de "cash"?
Creio que não. Existirá certamente uma tendência de "back to basics", até por um expectável aumento da actividade regulatória, mas as necessidades de encontrar veículos que permitam canalizar as poupanças em investimento para a economia manter-se-á, apesar do contexto de crise. Os mercados accionistas e obrigacionistas reforçarão, provavelmente, o seu papel em termos de alocação de activos face a alternativas mais exóticas, ligadas ao aumento excessivo de crédito na economia, que surgiram em particular na última década.
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