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Montepio
"Mercado de crédito está a gerar oportunidades"

27/01/09, 01:00

Spreads historicamente elevados, com risco acrescido estão, na óptica de Gian Luca Giurlani, vice-presidente da PIMCO Europe, a gerar fortes oportunidades para os investidores.
Alerta para a necessidade de apostar em sectores "protegidas" pelas ajudas públicos dos governos e, preferencialmente, em empresas com rating "triple A", devido ao forte risco de incumprimento na indústria mundial.

O que é expectável da nova política económica e fiscal norte-americana? Os EUA têm capacidade para inverter a conjuntura recessiva mundial?

Não será, concerteza, o presidente Obama que decidirá se a crise financeira e económica terminará este ano. Obama terá um grande trabalho e uma dessas grandes obras será controlar o défice público norte-americano que atingiu níveis historicamente elevados. Esse será a chave da sua política económica e fiscal. Quanto à implementação da estratégia com a injecção de fundos, isso é algo que para o mercado será crucial.

 

Qual será o impacto no sector privado, nomeadamente na indústria, de toda este crise financeira?

Do ponto de vista do investidor financeiro, a melhor opção é estar próximo daquelas que são as empresas/sectores "protegidos" pelos governos. Ou seja, investir próximo dos activos que estão "sob a protecção" das políticas dos vários governos e não nas empresas que estão longe dessa "protecção".

Claro que é preciso ter capacidade para antecipar o investimento nas empresas que ainda não estão e potencialmente poderão vir a estar, no âmbito dessa "protecção" pública. Ressalvo que não se deve arriscar muito para além disto, pelo facto do risco de incumprimento de crédito ser muito elevado por parte das grandes empresas industriais.

 

Que impacto antevê nos países mediterrânicos com o downgrade da dívida de alguns desses países ou com a passagem a "negativ Outlook"?

Ainda não chegámos a esse pormenor de análise, mas claro que há países dessa geografia em grande stress devido à quebra das notações de rating das respectivas dívidas e isso é algo que terá de ser tido em conta nas revisões que fizermos sobre este 1º trimestre do ano. Veremos o que os nossos analistas irão concluir mas, de momento, não temos uma leitura sobre as consequências imediatas desses factos.

 

Quando comparar as obrigações, acções e divida soberana, o que escolheria nas actuais condições de mercado?

Do meu ponto de vista, estritamente pessoal, as obrigações apresentam-se muito mais atraentes, com menos risco e maior retorno. Potencialmente serão interessantes as obrigações com produtos estruturados, globalmente e nas actuais condições, o investidor está seguramente mais protegido com um portfólio de obrigações do que de acções.

 

Acredita que há uma maior capacidade de recuperação do investimento em dívida de empresa do que em obrigações em acções?

Os portfólio de obrigações estão em melhor posição do que outros activos para assegurar retornos, e isto porque em caso de incumprimento da remuneração ou resgate das obrigações, a companhia vai à falência e, logo, este é o activo que os emitentes mais preservam. Em contraste, os gestores podem decidir não propor o pagamento de dividendos face à situação de mercado da empresa.

 

Nas condições actuais, o mercado monetário e interbancário não está a funcionar a 100%. Acredita que esta instabilidade poderá permanecer durante muitos mais meses?

Penso que levará algum tempo até o mercado monetário voltar à normalidade. Estamos num cenário invulgar que oficialmente ainda não é uma depressão, porque os governos não o querem chamar dessa forma, mas estamos num momento em que os bancos não querem emprestar e, em simultâneo, o sector privado evita pedir financiamentos aos bancos.

Estamos perante uma contradição e os governos estão a tentar tudo para voltar a normalizar a mecânica do mercado monetário, depois de terem injectado triliões de dólares no mercado nos últimos seis meses. Algum desse esforço já surtiu efeito, mas serão necessários mais 6 a 12 meses para se verificar uma inversão da tendência.

 

O que poderá o BCE fazer mais? A política ao nível das taxas de juro tem sido a mais assertiva e poderá a taxa de referência chegar ao zero?

Não temos uma visão de zero nas taxas de juro na Europa, mas antecipamos que os juros poderão descer um pouco mais.

 

Que análise pode ser feita do ponto de vista do investidor?

Os responsáveis pela política monetária estão sob grande stress e o BCE tem estratégia e modelo de actuação diferente do regulador americano ou britânico. São diferentes formas de ver a estratégia da política monetária. Considero que a visão do BCE é mais limitada sobre a capacidade da política monetária vir a influenciar a economia.

 

Considera que as intervenções públicas nos vários países europeus têm sido as mais correctas?

É algo difícil de comentar. Todos os países têm uma forma própria de intervenção para ajudarem a superar a crise interna, basta ver as diferenças das políticas no Reino Unido, Alemanha, França Itália ou Espanha, que está muito exposta ao sector imobiliário, enquanto outras regiões não estão absolutamente nada expostas a este tipo de activos. Portugal, como é sabido, teve de intervir em vários bancos.

 

Qual será o impacto da subida histórica dos custos dos CFD´s  na Europa?

Não tenho elementos precisos sobre essa matéria.

 

Quais as perspectivas da PIMCO para este ano no que respeita à dívida e às obrigações?

Acreditamos que este ano será excelente ao nível do investimento em crédito, já que haverá muito mais companhias a terem de emitir dívida. Daqui resulta que será muito mais vantajoso e menos arriscado estar a investir do lado das obrigações do que das acções. Verificámos, por outro lado, um grande fluxo de financiamentos, ao longo dos últimos meses, de institucionais para a resposta às propostas dos emitentes de dívida. Claro que o nível de liquidez terá de corresponder às expectativas para que o mercado funcione e, desta forma, se ajude as empresas.

Também terão de existir propostas muito boas, o que está actualmente a acontecer devido ao elevado nível dos spreads praticados neste mercado. Considero que nas actuais condições de mercado se poderão comprar obrigações até maturidades a 5 anos com excelentes retornos.

Sublinho que existem excelentes oportunidades para ganhar dinheiro no mercado de crédito, com os spreads historicamente elevados, embora com os riscos de incumprimentos também elevados.

A grande questão que se coloca aos investidores é saber se querem posicionar-se no mercado accionista, onde o dividendo não é uma prioridade para os gestores das empresas, embora no longo prazo, o activo possa valer mais, mas não é desprezível o nível de risco. Ou se, pelo contrário, querem concentrar-se nas oportunidades potenciadas pelas estruturações de capitais nas companhias.

Neste caso o investidor terá de saber muito bem qual a emissão que está a comprar e por outro lado, precisa de saber que crédito está a comprar, porque existe um número muito limitado de emitentes com rating "triple A", o que obriga a grandes cautelas. Na PIMCO somos, por isso, muito prudentes, temos uma grande e experimentada equipa de analistas com a única função de escolher as obrigações correctas nas empresas certas. Repito que um dos nossos focus é procurar sectores empresariais que serão os "protegidos" pelos governos.

No final do ano ou no início do próximo as yields poderão ser diferentes, tudo dependerá dos resultados efectivos das intervenções que estão a ser feitas pelos vários governos e bancos centrais nos mercados.

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