| true- Quinta-Feira 24 Maio de 2012
Informação financeira da Euronext, disponibilizada por
Comstock
- A Division of Interactive Data Corporation.
30/05/11, 17:53
As valorizações relativamente moderadas e o crescimento económico que evidenciam, justificam o investimento em acções nos mercados desenvolvidos, afirma Carlos Firme, administrador do Banif Gestão de Activos. Sobre a China, o gestor afirma que a economia vai crescer dentro de um novo modelo e que os investidores não estar a dar a devida atenção aos novos sinais Que impacto é que poderá ter nas economias ocidentais o abrandamento do crescimento do Produto na China? Mais do que o abrandamento da economia chinesa, que os principais organismos internacionais continuam a apontar como pouco significativo nos próximos 2 anos (o FMI nas perspectivas mais recentes continua a apontar para um crescimento de 9,5% para 2011 e 2012, após um crescimento de cerca de 10,3% em 2010), os principais impactos deverão resultar da implementação do 12º plano quinquenal chinês, recentemente aprovado, e que vem preconizar uma alteração significativa do posicionamento da economia chinesa, promovendo uma maior capacidade de competir em indústrias com maior valor acrescentado. Essa alteração poderá ter repercussões sobre o crescimento das economias ocidentais, sobretudo naquelas que baseiam o seu modelo na capacidade de exportar produtos de elevado valor acrescentado. A percentagem de produtos "high tech" no total das exportações chinesas tem subido significativamente nos últimos anos e o impacto disruptivo das empresas chinesas nos mercados internacionais vai estender-se das áreas de menor valor acrescentado para indústrias com maior valor acrescentado sobretudo devido a i) crescente "expertise" tecnológico, suportado pelo forte investimento em I&D nos últimos anos; ii) baixos custos salariais; iii) suporte governamental; iv) forte crescimento de aquisições de empresas internacionais por parte de empresas chinesas. Neste sentido, muitas empresas chinesas estão neste momento a apresentar-se como competidores internacionais em muitas das indústrias que beneficiaram do crescimento económico chinês na última década. O 12º plano quinquenal chinês, ao qual não se tem dado particular relevo, procura criar as bases para uma alteração significativa do modelo de crescimento chinês, tentando fazer subir a economia na cadeia de valor e colocando o foco na construção de rede de protecção social que permita o aumento do peso do consumo privado. O plano define um conjunto de indústrias como estratégicas e compromete um montante equivalente a 1,5 triliões de dólares para o seu desenvolvimento. O governo chinês também reconhece a necessidade da criação de marcas para a expansão das empresas chinesas e criou recentemente o China Branding Strategy Committee para coordenar os esforços governamentais no reconhecimento global das marcas chinesas. Neste sentido, a alteração do padrão de crescimento chinês nos próximos anos, mais do que a redução desse crescimento, poderá ter impacto significativo sobre as economias ocidentais. Que repercussões é que o maior controlo da política monetária chinesa, nomeadamente para conter a bolha da inflação, poderá ter no crescimento das empresas ocidentais?
Uma política monetária mais restritiva por parte das autoridades chinesas, que tem sido prosseguida principalmente através da subida quer das taxas de juro directoras quer dos coeficientes de reservas de caixa que os bancos são obrigados a deter junto do banco central, visa sobretudo arrefecer as pressões internas sobre os recursos, num contexto de forte crescimento do investimento e do consumo. As autoridades chinesas têm prosseguido esta política tentando ao mesmo tempo evitar a apreciação excessiva do renmimbi, que poderia ser negativa para a competitividade dos produtos chineses nos mercados internacionais. A ser bem sucedida, esta política tenderá a arrefecer a procura interna na China, o que poderá ter dois tipos de consequências: por um lado, uma menor pressão sobre o preço das commodities, favorecendo a estrutura de custos das empresas ocidentais, e por outro lado, uma menor procura por importações, reduzindo eventualmente as vendas das empresas para a China. O impacto final sobre as empresas ocidentais é, no entanto, incerto.
Mesmo em face deste cenário, há analistas que mantêm a recomendação de forte aposta nos mercados accionistas maduros. Concorda com essa posição?Essa posição pode fazer sentido, já que estes mercados podem oferecer boas oportunidades de investimento nesta altura. As economias dos países desenvolvidos estão nos momentos iniciais do processo de recuperação económica e as empresas encontram-se em geral em boa situação, beneficiando de elevados ganhos de produtividade e alavancagem operacional, e apresentando valorizações relativas favoráveis. Paralelamente, existem boas oportunidades em empresas com estratégias de internacionalização sólida e/ou política de remuneração accionista atractiva. Neste contexto, estes mercados oferecem boas oportunidades de investimento. O tema inflação preocupa os investidores e os mercados europeus? O que é que isso pode significar?Para já a inflação não é o tema dominante nos mercados europeus, porque todas as questões relacionadas com os problemas da dívida soberana têm polarizado a atenção dos investidores. No entanto, existe a consciência que os países "core" da zona euro, nomeadamente a Alemanha, a França e a Holanda se encontram já a crescer a um ritmo superior à sua tendência de médio prazo, o que significa que os "output gaps" que resultaram da recessão de 2008-9 se estão a começar a fechar e que, mais cedo ou mais tarde, as condições monetárias na zona euro terão de ser mais restritivas. A grande questão neste momento prende-se com a fórmula que o BCE terá de encontrar para, por um lado, respeitar o seu mandato de prosseguir como objectivo a estabilidade de preços, removendo a liquidez excedentária no sistema e, por outro, atender às necessidades de financiamento das economias periféricas cujo acesso ao mercado por parte dos respectivos sistemas financeiros está fechado e dependem exclusivamente do BCE para canalizar essa liquidez. É, de facto, um equilíbrio muito difícil de obter e só essa situação explica a forma parcimoniosa como o BCE tem subido as taxas de juro directoras. No entanto, não creio que para já se corra o risco de a inflação ficar descontrolada, já que ainda existe ampla capacidade disponível nas economias que pode ser mobilizada sem criar pressões sobre os preços e a subida dos preços nas várias economias tem sido provocada pelas componentes energéticas e pela subida de impostos indirectos. Até onde podem subir os juros por parte do BCE, tendo em conta uma inflação média 2,8% na zona euro?O processo de normalização das condições monetárias está apenas no seu início, tendo o BCE procedido a apenas uma subida das taxas de juro, de 0,25%, partindo de um nível mínimo histórico. Pelas razões expostas acima, creio que o BCE continuará com uma política cautelosa de reposição progressiva de condições monetárias, até porque o nível actual de inflação está mais relacionado com factores temporários do que com uma tendência inflacionista endógena. Existe condições para o regresso ao investimento em acções? Prefere as estratégias oportunísticas, o investimento selectivo ou o investimento temático? O regresso ao investimento em acções justifica-se, sobretudo após a forte recuperação verificada em activos com risco percepcionado mais baixo, como as obrigações. Todas as estratégias acima definidas são possíveis, atendendo às necessidades e preferências dos investidores. As estratégias oportunísticas estão mais ligadas a posições de curto-prazo, mais motivadas por questões específicas à empresa do que por uma visão de médio prazo sobre o seu desempenho ou o do sector em que se insere. O investimento selectivo deve ser prosseguido quando existe capacidade de análise que permita escolher as melhores oportunidades em cada sector. Quando essa capacidade não existe, a opção deve recair sobre uma exposição diversificada a um sector ou mercado, através por exemplo de ETFs. O investimento temático está normalmente relacionado com uma análise económica global e com a identificação dos principais temas/"drivers" de investimento nos próximos anos, procurando depois a exposição a esses sectores para beneficiar do crescimento previsto (como exemplo temos as empresas tecnológicas no final da década de 90 ou as energias renováveis no final da década de 2000). Em acções, recomenda mercados maduros ou emergentes? Que geografias específicas pode recomendar? Creio que neste momento os mercados desenvolvidos apresentam melhores oportunidades para o investimento em acções, não só porque continuam com valorizações relativamente moderadas atendendo ao padrão histórico, como pela diversidade e profundidade desses mercados em termos de empresas e sectores. Paralelamente, as melhores condições económicas e a existência de ampla liquidez nos mercados desenvolvidos poderão motivar a intensificação do fenómeno de M&A nos próximos anos, o que trará animação para a classe de acções. Numa óptica de regresso de apetência ao risco, que produtos financeiros podem ser susceptíveis de interessar ao investidor não institucional? Para o investidor não institucional, o fundamental é entender claramente o tipo de risco em que se está a investir. Produtos financeiros mais complexos, que incluam alavancagem ou que combinem exposição híbrida ao risco de dívida e de capital na estrutura das empresas podem ser de compreensão mais difícil por parte dos investidores. Creio que a classe de acções oferece boas oportunidades de investimento e de participação no processo de recuperação da economia global, sobretudo atendendo ao facto de as empresas estarem a entregar resultados muito favoráveis em ambos os lados do Atlântico e de as acções apresentarem múltiplos de valorização abaixo do padrão histórico.
A aposta em obrigações de empresas é actualmente uma oportunidade? Essa oportunidade foi muito presente em 2009 e na primeira metade de 2010, quando o risco se encontrava em níveis máximos e a dívida das empresas, em particular "high yield" e dívida do sector financeiro, ofereciam taxas de retorno do tipo daquelas que se podem esperar no investimento em acções. No entanto, as fortes valorizações que se assistiram nesta classe desde então retiraram muita da atractividade por estes instrumentos, que convergiram para taxas de retorno mais consentâneas com o tipo de risco que representam. As yields geradas em títulos soberanos da periferia compensam o risco? Devem fazer parte de um portefólio que quer alta rendibilidade? A análise de risco de um Estado soberano é mais complexa do que a análise de risco de uma empresa, porque está dependente de uma matriz de factores imensa, que passa quer pela dinâmica intertemporal da dívida pública e a sua sustentabilidade, por factores como a demografia e os encargos futuros de segurança social como até por factores políticos e de escolhas dos cidadãos relativamente à imposição pública máxima que estes estão dispostos a aceitar. Como as contas públicas não apresentam um balanço, muitas das responsabilidades contingentes não são visíveis pela simples análise da evolução do défice e das principais rubricas de receita e despesa, sendo difícil aferir a verdadeira solvabilidade de um Estado. Geralmente assume-se a dívida pública como investimento sem risco mas os tempos mais recentes têm mostrado que esse é, acima de tudo, um conceito teórico. Assim, os investidores estão sujeitos a vários tipos de risco, desde o risco de taxa de juro, em que o valor da obrigação (se for de taxa fixa) varia inversamente com a taxa de juro, até ao risco de crédito, que se manifesta de várias maneiras - desde a inflação (que reduz o valor real da dívida), à subordinação da dívida (através da imposição de um pacote de auxílio de uma entidade supranacional), como ainda à reestruturação da dívida (que pode assumir várias formas, desde o aumento das maturidades, redução dos juros, redução do principal, ou qualquer combinação desses factores) ou o simples repúdio da mesma. A escolha dos investidores por dívida púbica terá de ser feita tendo presente a combinação risco-retorno e também o horizonte temporal desse investimento. Em que "commodities" é possível entrar sem risco de "bolha"? As commodities são todas muito diferentes umas das outras, apesar de estarem agrupadas nesta grande categoria. Muitos factores influenciam o seu desempenho, desde factores fundamentais como a oferta e procura real (abundância/escassez da commodity, alterações do padrão de consumo, crescimento global) como factores políticos e geopolíticos, como ainda a própria procura induzida pela existência de instrumentos financeiros construídos sobre essa commodity. Neste sentido, o principal conselho quando se pretende a exposição a este activo é a prudência.
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